Parasitologia Médica · Aula 2 · UERN 2026.1

Larva Migrans Visceral
& Conceitos Gerais de Parasitologia

🐛  Toxocara canis / cati — Zoonose, Ciclo, Formas Clínicas, Diagnóstico e Tratamento

📅 25/02/2026 🏫 UERN · Parasitologia Médica ⚠️ Foco: parte NÃO-Ascaris
01 — Fundamentos

Conceitos Gerais de Parasitologia

⏱️

Período Pré-Patente (PPP)

O PPP é o intervalo entre a infecção do hospedeiro e o momento em que o parasito pode ser detectado pelo método diagnóstico padrão — o Exame Parasitológico de Fezes (EPF). Só há ovos detectáveis quando existem vermes adultos ativos no intestino.

Parasito PPP (dias) Implicação clínica
Ascaris lumbricoides 60–65 dias EPF solicitado antes = falso-negativo
Ancilostomídeos 35–60 dias Diagnóstico sorológico na fase aguda
Trichuris trichiura 60–90 dias Período mais longo entre os geo-helmintos
🔴 Prova — PPP
EPF só é válido APÓS o período pré-patente. Solicitar antes gera falso-negativo. Na fase aguda (migração larvária) → diagnóstico por clínica + eosinofilia + sorologia + Rx de tórax. O clínico deve calcular se o PPP já passou antes de pedir o EPF!
"Quando alguém disser 'viajei, estou querendo fazer um exame', você calcula ali para ver. Não peça antes do tempo."
🤰

Parasitismo na Gestação

A gestação cria um ambiente duplamente favorável ao parasito:

  • Imunossupressão relativa: Progesterona ↑ → tolerância ao feto → defesa contra parasitos ↓
  • Parasito mais ativo: Hormônios da prenhez retiram larvas da quiescência tecidual, ativando migração
  • Transmissão via leite materno: Larvas podem desviar para glândulas mamárias — biologicamente possível, epidemiologicamente raro em humanos (comum em cão/gato)
⚠️ Atenção Clínica
Gestantes = grupo de risco: imunidade reduzida + parasito ativado = duplo favorecimento.
🧬

Patogenia ≠ Sintomatologia

ConceitoDefinição
PatogeniaDano que o parasito causa (mecanismo)
SintomatologiaO que é visível/percebido pelo paciente
80–85% Assintomáticos mas disseminadores
4–16 Vermes — carga média estimada
>5% Eosinofilia — sinal de parasitose ou alergia
Assintomático ≠ sem dano. O parasito causa lesão silenciosa e segue disseminando ovos no ambiente.
🔴 Prova
Eosinofilia >5% em criança → sempre investigar parasitose, mesmo sem queixas gastrointestinais.
02 — Zoonose

Toxocara canis / cati — Larva Migrans Visceral

🐕

Zoonose

Doença transmitida de animais domésticos (cão/gato) para humanos. O humano é hospedeiro acidental/paratênico — abriga larvas encistadas nos tecidos, que não evoluem para adulto e permanecem viáveis por meses ou anos.

Toxocara canis   Toxocara cati
🔄

Ciclo Incompleto no Humano

A larva não se transforma em adulto no humano. Ela migra errática pelos tecidos por meses, forma granulomas quando morre e não produz ovos — por isso o EPF é inútil para diagnóstico.

EPF = inútil
⏳

Doença Autolimitante?

O quadro clínico sintomático pode durar 6–18 meses, mas as larvas podem ficar encistadas e viáveis nos tecidos por muitos anos (estudos em primatas: até 10 anos em hipobiose).

A "autolimitação" refere-se ao curso clínico, não à sobrevida da larva.
🐾

Ciclo no Hospedeiro Definitivo (Cão/Gato)

🐶 Filhote (sem imunidade)

🥚Ingestão ovo embrionado
→
🫁Ciclo de Löffler (pulmão)
→
🦠Adulto no intestino
→
💩Ovos nas fezes

Filhotes: principal fonte de contaminação ambiental

🐕 Adulto (com imunidade)

Larva → sistema imune marca e bloqueia no pulmão
↓
Larva desvia → migra para MÚSCULOS → Latência
↓
Gestação → hormônios reativam larvas latentes
↓
Via transplacentária (só T. canis) Via leite / colostro
🔴 Prova — Transmissão Transplacentária
A transmissão transplacentária ocorre APENAS em Toxocara canis (cão) — não em T. cati. Filhotes de cão podem nascer já infectados. A cadela deve ser vermifugada no puerpério junto com a ninhada.
🐛 Ciclo no Ser Humano

Hospedeiro Acidental — O que acontece no nosso corpo

🥚Ingestão ovo embrionado (L3)
→
🫀Corrente sanguínea
→
❌NÃO completa ciclo pulmonar
→
🔀Migração errática (3–6 meses)
→
🔴Granuloma eosinofílico

Órgãos preferenciais de migração

  • Fígado — sistema porta → hepatomegalia, nódulos
  • Pulmões — circulação → sintomas respiratórios
  • Olhos — LMV ocular (ver formas clínicas)
  • SNC — menos frequente; sintomas neurológicos

Granuloma Eosinofílico

O sistema imune forma uma "cápsula" ao redor da larva ainda viva, composta de eosinófilos, neutrófilos, macrófagos, células gigantes e epitelioides. Visível em imagem como nódulo hepático ou pulmonar — pode ser confundido com tumor.

A larva consegue evadir a imunidade por anos eliminando seus antígenos de superfície continuamente.
03 — Clínica

Formas Clínicas da Toxocaríase

🫁
LMV Clássica
Vísceras
Órgãos: Fígado e pulmões (principais)

Apresentação:
  • Hepatomegalia
  • Sintomas respiratórios (tosse, dispneia)
  • Eosinofilia intensa (sinal cardinal)
  • Febre, mal-estar
  • Nódulos visíveis em TC/USG (granulomas)
👁️
LMV Ocular (LMO)
Diagnóstico Diferencial Crítico
Órgão: Retina (unilateral, geralmente)

Apresentação:
  • Lesão retiniana por granuloma
  • Leucocoria (reflexo branco pupilar)
  • Estrabismo, baixa acuidade visual
  • Eosinofilia sistêmica AUSENTE ou baixa
  • Anticorpos séricos frequentemente baixos
⚠️ SIMULA RETINOBLASTOMA — crianças com leucocoria!

Diagnóstico diferencial vital: retinoblastoma exige enucleação. LMO é tratável. Pesquisar anticorpos no humor aquoso/vítreo quando sorologia sérica negativa.

🔍
Toxocaríase Oculta / Comum
Inespecífica
Oculta (crianças):
  • Distúrbios comportamentais e do sono
  • Tosse crônica, febre de origem obscura
  • Eosinofilia + sorologia positiva

Comum (adultos):
  • Dispneia crônica, fraqueza
  • Eritema cutâneo, prurido
  • Sintomas inespecíficos persistentes
📊 Epidemiologia Clínica
A maioria dos casos é assintomática — o organismo contém a larva nos granulomas. Prevalência em animais: ~20% (até 100% em filhotes). A contaminação ambiental é intensa em praças, caixas de areia e praias. Crianças são as mais expostas (geofagia + brincadeiras no solo).
04 — Diagnóstico & Tratamento

Como Diagnosticar e Tratar

🔬

Diagnóstico da LMV

🔴 Prova — EPF é INÚTIL
Não há ovos nas fezes humanas. O parasito não completa o ciclo no humano. O EPF não tem valor diagnóstico algum na toxocaríase.

✅ Método de escolha: Sorologia ELISA

  • Pesquisa de anticorpos anti-Toxocara no soro
  • Só solicitar com suspeita clínica (não é triagem)
  • Reação cruzada com outros helmintos (Ascaris, Trichuris, ancilostomídeos)
  • IgG persiste elevado por anos — positivo ≠ infecção ativa necessariamente
  • LMO: anticorpos séricos baixos → pesquisar no humor aquoso/vítreo

Fluxo diagnóstico

Suspeita clínica (eosinofilia + sintomas + epidemiologia)
↓
Sorologia específica anti-Toxocara (ELISA)
↓
Anticorpos positivos → tratar
↓
Melhora clínica confirma diagnóstico
"Você pode fechar um diagnóstico desse sem nem ver o parasito."
💊

Tratamento da LMV

O tratamento é combinado: anti-helmíntico + anti-inflamatório/antialérgico para matar a larva E controlar a resposta imune exacerbada.

Fármaco Papel Obs.
Albendazol Anti-helmíntico principal Curso mais longo que em ascaridíase
Corticosteroides Reduzir inflamação granulomatosa Essencial em LMO e formas graves
Anti-histamínicos Controlar reação alérgica Prurido, urticária, broncoespasmo
⚠️ LMV Ocular — Cuidado especial
Na LMO, corticosteroides são fundamentais para preservar a visão. Morte rápida da larva sem anti-inflamatório pode intensificar a reação granulomatosa e piorar a lesão retiniana.

Prevenção: Vermifugar animais domésticos (esquema rigoroso em filhotes: 2ª, 4ª, 6ª e 8ª semanas). Higiene de mãos após contato com solo/animais. Cobrir caixas de areia. Recolher fezes de animais em áreas públicas.

05 — Comparação

Ascaris vs. Toxocara — Resumo Comparativo

Característica Ascaris lumbricoides 🔶 Toxocara canis/cati 🐾
Hospedeiro definitivo Ser humano Cão / Gato
Humano como hospedeiro Definitivo (ciclo completo) Acidental / Paratênico
Doença no humano Ascaridíase Larva Migrans Visceral (LMV)
Forma no humano Ovo → larva → adulto Ovo → larva apenas
Ovos nas fezes ✅ Sim (diagnóstico pelo EPF) ❌ Não (ciclo não se completa)
Diagnóstico padrão EPF (ovos mamilonados, fácil) Sorologia ELISA (anti-Toxocara)
Dificuldade diagnóstica Fácil Difícil
Duração no humano ~1–2 anos (adulto) Meses–anos (larva encistada)
Autolimitante? Biologicamente sim (sem reinfecção) Sim (quadro clínico)
Tratamento principal Albendazol 400 mg (dose única) Albendazol (curso) + Corticosteroide
Transmissão transplacentária Não T. canis sim; T. cati não
Classificação Geo-helminto humano Zoonose
Principal complicação grave Oclusão intestinal, Ascaris errático LMO (simula retinoblastoma)
06 — Revisão

🎯 10 Pontos-Chave para a Prova

Foco: LMV + Conceitos Gerais (parte NÃO-Ascaris)

01
PPP — EPF só tem valor APÓS o período pré-patente. Antes = falso-negativo garantido. Cada parasito tem PPP diferente: Ascaris 60–65d, Ancilostomídeos 35–60d, Trichuris 60–90d. Na fase aguda: clínica + eosinofilia + sorologia.
02
Patogenia ≠ Sintomatologia. 80–85% dos parasitados são assintomáticos, mas causam dano silencioso e são disseminadores. Eosinofilia >5% → sempre investigar parasitose.
03
LMV é uma ZOONOSE causada por Toxocara canis (cão) e T. cati (gato). O humano é hospedeiro acidental/paratênico — a larva NÃO vira adulto, NÃO produz ovos, NÃO completa o ciclo. Nunca chamar de "ascaridíase".
04
EPF é INÚTIL na LMV. Diagnóstico = sorologia ELISA anti-Toxocara (com suspeita clínica). Atenção: reação cruzada com outros helmintos e IgG persiste elevada por anos.
05
LMV Ocular SIMULA RETINOBLASTOMA. Criança com leucocoria (reflexo branco pupilar) → diagnóstico diferencial urgente. Na LMO: eosinofilia sistêmica baixa ou ausente; anticorpos no humor aquoso/vítreo. Corticosteroide é essencial para preservar a visão.
06
Transmissão transplacentária APENAS no Toxocara canis, não no T. cati. Filhotes de cão nascem já infectados. São a principal fonte de contaminação ambiental. Vermifugação dos filhotes: 2ª, 4ª, 6ª e 8ª semanas de vida.
07
Adulto imune → larva desvia do pulmão → latência muscular. Na gestação da cadela: hormônios reativam larvas → transmissão via leite/placenta. Analogia: progesterona na gestação humana → imunossupressão + parasito ativado (duplo favorecimento).
08
Granuloma eosinofílico é a marca histológica da LMV. Forma-se ao redor da larva viva (não apenas após a morte) como mecanismo de contenção. Aparece como nódulo hepático/pulmonar na imagem — pode simular tumor ou metástase.
09
Tratamento da LMV = Albendazol + Corticosteroide ± Anti-histamínico. A terapia combinada é necessária: matar a larva sem controlar a inflamação pode piorar a lesão tecidual. Diferente da ascaridíase (albendazol dose única é suficiente).
10
Ciclo do cão adulto imune vs. filhote. No adulto: imunidade bloqueia o ciclo pulmonar → larva vai para músculo. Na gestação: reativação hormonal → transmissão transplacentária e via leite. Prevalência em filhotes: até 100% em algumas regiões.
🔴 Pegadinha Clássica de Prova
"Paciente com eosinofilia e nódulo hepático. EPF solicitado — negativo. Qual o diagnóstico?"
→ LMV por Toxocara! O EPF ser negativo é justamente o esperado — a larva não produz ovos em humanos. Solicitar sorologia anti-Toxocara ELISA.