🦠 1. Família Ancylostomatidae — As 5 Espécies
⚠️ PROVA — Saber as 5 espécies, hospedeiros e qual doença causam no humano!
# Espécie Hospedeiro Natural Completa Ciclo no Humano? Doença no Humano Gênero
1 Necator americanus ⭐ Ser Humano ✅ SIM — Antroponose Ancilostomíase (Amarelão) — Anemia ferropriva Necator
2 Ancylostoma duodenale ⭐ Ser Humano ✅ SIM — Antroponose Ancilostomíase (Amarelão) — Anemia ferropriva Ancylostoma
3 Ancylostoma braziliense Cães e Gatos ❌ NÃO — Não ultrapassa lâmina basal Larva Migrans Cutânea (principal causador) — "Bicho Geográfico" Ancylostoma
4 Ancylostoma caninum Cães (e gatos) ❌/Parcial — Morre logo no intestino LMC (menos frequente) + Gastroenterite Eosinofílica Transitória Ancylostoma
5 Ancylostoma ceylanicum Cães, Gatos e Humanos (Ásia/Oceania) ✅ SIM — Zoonose com ciclo completo Ancilostomíase (zoonose clássica) — 2º mais prevalente em certas regiões da Ásia Ancylostoma
🏷️ TAXONOMIA: 2 GÊNEROS, 1 FAMÍLIA

A família Ancylostomatidae agrupa 2 gêneros:

Gênero NECATOR
  • N. americanus
  • Lâminas em meia-lua
  • Menor tamanho
  • Vive mais tempo (até 18 anos!)
Gênero ANCYLOSTOMA
  • A. duodenale
  • A. braziliense
  • A. caninum
  • A. ceylanicum
  • Estruturas pontiagudas (dentes quitinosos)
🔬 Subfamílias pela Estrutura Oral
①
Subfamília Bunostominae → Gênero Necator

Lâminas/placas cortantes semicirculares (meia-lua). Não têm dentes propriamente ditos.

②
Subfamília Ancylostominae → Gênero Ancylostoma

Apêndices quitinosos em forma de dentes pontiagudos.
A. duodenale: 4 dentes (2 pares) | A. caninum: 3 pares | A. braziliense: 2 pares (1 grande + 1 rudimentar)

⚠️ O laboratório não diferencia a espécie pelo EPF — ovo idêntico → resultado vem como "Ancilostomídeo" (família)

📊 2. Epidemiologia
~80%
casos por Necator americanus no Brasil
~20%
casos por A. duodenale no Brasil
~3%
prevalência em escolares BR (~½ do Ascaris)
~56%
brasileiros com coleta de esgoto ⚠️
🌍 Distribuição e Características
  • Geohelminto — necessita do solo para desenvolvimento larval
  • Junto com Ascaris e Trichuris: acometem >1 bilhão de pessoas no mundo
  • Regra epidemiológica: prevalência ≈ metade da de Ascaris
  • Essencialmente de zona rural (vs. Ascaris que também atinge periferia urbana)
  • Norte e Nordeste com prevalência superior à nacional
  • Necator predomina em regiões mais quentes
  • A. duodenale tolera regiões menos quentes
🚽 Saneamento Básico no Brasil
Acesso à água tratada ~88%
Coleta de esgoto ~56%
Do coletado — com tratamento ~50%
Resultado: Solo contaminado com fezes ⚠️

Melhor saneamento: Campinas/SP | Pior: Região Norte

Cadeia: esgoto não tratado → contamina solo/água → irriga alimentos → transmissão

💡 Por que a ancilostomíase é menos prevalente que ascaridíase? (1) Menos ovos produzidos; (2) Larva abandona o ovo no solo → fica desprotegida → morre em ~30-42 dias; (3) Requer contato com solo (mais restritivo); (4) Uso de calçados quebra a cadeia de transmissão.

🔬 3. Morfologia dos Adultos
⚠️ PROVA — Tamanho (~1,5cm vs 7-40cm Ascaris), tipo de estrutura oral (meia-lua vs dentes), bolsa copulatória!
📏 Tamanho — Comparação Essencial
ParasitoTamanhoAlimentação
Ascaris7–40 cmConteúdo intestinal
Ancilostomídeos~1,5 cm🩸 Sangue
❗ NÃO CONFUNDIR. Ancilostomídeo é muito menor e hematófago!
👄 Cavidade Oral — A Característica Principal

Boca grande com estruturas cortantes de quitina (carboidrato, não tecido calcificado).

Gênero/EspécieEstrutura Oral
Necator🌙 Lâminas em MEIA-LUA (placas cortantes semicirculares)
Ancylostoma🦷 Estruturas PONTIAGUDAS (dentes quitinosos)
A. duodenale4 dentes (2 pares) na margem
A. braziliense2 pares (1 externo grande + 1 interno rudimentar)
A. caninum3 pares de dentes
⚥ Dimorfismo Sexual
♀
Fêmea — Maior

Armazena ovos antes de eliminá-los. Extremidades sem grande diferenciação morfológica externa.

♂
Macho — Bolsa Copulatória

Expansão na extremidade posterior com prolongamentos ("raios") cobertos por membrana. Segura a fêmea durante a cópula. Hookworm = "verme gancho" — nome vem da extremidade anterior recurvada dorsalmente, não da bolsa!

Parasito vivo na endoscopia: aparência róseo-avermelhada (não esbranquiçada), agarrado à mucosa com uma extremidade livre.
⚔️ Necator vs. A. duodenale — Comparação Detalhada
Característica Necator americanus Ancylostoma duodenale
TamanhoMenorMaior
Tempo de vidaMaior — até 8-18 anos!Menor — 1-3 anos
Consumo sangue/dia/verme0,01–0,04 mL (menor)0,15–0,30 mL (muito maior!)
Produção de ovos/dia5.000–10.00010.000–20.000
Prevalência no Brasil~80%~20%
Clima preferencialMais quenteMenos quente
Estrutura oralLâminas em meia-lua4 estruturas pontiagudas
Via de transmissãoCutânea (sempre passa pelo pulmão)Cutânea OU oral (sem pulmão se oral!)

🥚 4. Morfologia dos Ovos
⚠️ PROVA — Ovo transparente/não aderente/fino vs. Ascaris (espesso/aderente/escuro). Já em divisão ao sair do hospedeiro!
Característica Ovo de Ascaris Ovo de Ancilostomídeo
Parede/CascaGrossa, irregular, mamilonaçõesFINA, LISA, transparente
AderênciaAderente (pega pigmentos fecais)NÃO ADERENTE
Coloração nas fezesEscuro/castanhoTRANSPARENTE
Tamanho45–75 µm~40 x 60 µm
Conteúdo ao sair1 célula (totalmente inativa)EMBRIÃO (2-8 blastômeros) — já em divisão!
Peso relativoPesado → sedimenta bem (Hoffman)Leve → flutua bem (Willis) ⭐
⚡ Implicações Práticas

Desenvolvimento mais rápido:
Ascaris sai como 1 célula → demora mais no ambiente
Ancilostomídeo já tem embrião → eclosão em ~1 dia!

⚠️ Armadilha laboratorial:
Amostra com >24-48h → pode ter LARVAS formadas dentro do ovo (ou livres). NÃO é outro parasito! É o mesmo ancilostomídeo em desenvolvimento.
Diferenciação das larvas: vestíbulo bucal longo (ancilostomídeo) vs. curto (Strongyloides stercoralis)

Ovos idênticos entre as espécies:
Necator e Ancylostoma têm ovos morfologicamente indistinguíveis. Laudo vem como "Ancilostomídeo" (família). Para diferenciar: coprocultura (Harada-Mori) com análise das larvas L3.


🔄 5. Ciclo de Vida
⚠️ PROVA — Ovo→L3 em 7-10 dias; penetração cutânea ativa (enzimas); 1 muda no pulmão; A. duodenale via oral = sem passagem pulmonar!
🔁 Fluxo do Ciclo (Parasitos Humanos — Via Cutânea)
🥚 OVO (c/ embrião) → 🌱 SOLO (~1 dia) → L1 (eclosão) → L2 (alimenta-se) → L3 infectante (7-10 dias) → 🦶 PELE (enzimas!) → Vaso sanguíneo/linfático → 🫁 PULMÃO (1 muda: L3→L4) → Alvéolo → Brônquio → Faringe → Deglutição → Estômago → 🩸 INTESTINO DELGADO (adulto)
No intestino: L4 → L5 → Adulto. L4 já começa a sugar sangue antes de completar a maturação!
🌱 Larva L3 — Forma Infectante
  • Boca FECHADA — cutícula da muda anterior retida como "bainha"
  • Não consegue se alimentar no ambiente
  • Sobrevive com reservas acumuladas em L1/L2
  • Sobrevivência no solo: até 6 semanas (em condições favoráveis)
  • Tamanho: 500–700 µm
  • Geotropismo negativo (fica superficial)
  • Hidrotropismo positivo (busca umidade)
  • Orienta-se pelo CALOR do hospedeiro
  • A. duodenale: pode entrar em HIPOBIOSE no solo
🦶 Penetração Ativa pela Pele
1
L3 detecta calor do hospedeiro

Contato da pele com solo contaminado

2
Cascata de sinalizações

Ativação do parasito + liberação de enzimas (colagenases, hialuronidase)

3
Desbloqueio da boca

Perda da bainha → agora consegue penetrar ativamente (~30 min de processo)

⚡ Transmissão ATIVA — o parasito vai em busca do hospedeiro! (Diferente do Ascaris — transmissão passiva por ingestão)
🫁 Via Oral — Diferença Crítica
A. duodenale — Ciclo Oral

Larvas L3 ingeridas → resistem ao estômago → intestino direto → penetra mucosa → muda para L4 nas criptas → luz intestinal → adulto.
SEM passagem pulmonar! → sem sintomas respiratórios.

N. americanus

Infecção estritamente cutânea. SEMPRE passa pelo pulmão, independente de qualquer coisa.

A. duodenale também transmite por via lactogênica (leite materno) e possivelmente transplacentária.

⏱️ Tempos do Ciclo
EtapaTempo
Ovo → eclosão (L1)~1 dia (no solo)
L1 → L3 infectante7–10 dias (1 semana)
L3 sobrevive no soloAté 6 semanas
Penetração cutânea~30 minutos
Tempo de vida adulto (média)~3 anos
Necator — máximoAté 18 anos!
🫁 Fase Pulmonar — Comparação com Ascaris
AspectoAscarisAncilostomídeo
Mudas no pulmãoVárias1 muda só (L3→L4)
Tamanho da larva>1.000 µm500–700 µm
Síndrome de LöfflerFrequente e intensaMenos frequente e mais branda
Via oral altera?Não (sempre pulmão)Sim! A. duodenale oral = sem pulmão

🩺 6. Patogenia Completa
🦶 6.1 Fase Cutânea
✅ Parasitos humanos (N. americanus, A. duodenale): Penetração RÁPIDA (minutos a horas). NÃO causa LMC. Pele é só porta de entrada. Pode causar prurido/pápulas ("coceira da terra") — especialmente em reinfecções (hipersensibilidade).
🐛 Parasitos de animais (A. braziliense): Larva NÃO ultrapassa a lâmina basal → fica migrando → Larva Migrans Cutânea.

LARVA MIGRANS CUTÂNEA — BICHO GEOGRÁFICO 🗺️

TRAJETO SERPIGINOSO INFLAMATÓRIO
A LARVA ESTÁ 1-2 cm À FRENTE DO TRAJETO VISÍVEL!
1
A. braziliense penetra a pele humana

Via enzimas (hialuronidase dissolve ácido hialurônico entre queratinócitos)

2
Não ultrapassa a lâmina basal

Enzimas do parasito não conseguem quebrar moléculas específicas da lâmina basal humana → fica presa entre epiderme e derme

3
Migração contínua + resposta inflamatória tardia

Dejetos + bactérias do solo + destruição tecidual → prurido INTENSO. O trajeto visível é a REAÇÃO onde a larva JÁ PASSOU.

ParâmetroValor
Início dos sintomas2–15 dias após contato (até 7 meses!)
Duração sem tratamentoSemanas a meses — pode ultrapassar 1 ano
Principal causadorA. braziliense (principal) + A. caninum
Localizações mais freq.Pés, pernas, mãos, nádegas (crianças: qualquer local)
ComplicaçãoInfecção bacteriana secundária (coçar + romper epiderme)
🫁 6.2 Fase Pulmonar — Síndrome de Löffler

Mesma patogenia do Ascaris: organismo estranho perfura capilar → entra no alvéolo → resposta eosinofílica. Porém menos frequente e menos intensa (1 muda apenas, larvas menores).

  • Pode NÃO ocorrer (A. duodenale via oral = sem pulmão)
  • Sintomas: tosse seca, febre baixa, dispneia, sibilos
  • Radiologia: infiltrado difuso bilateral transitório
  • Eosinofilia periférica elevada na fase aguda

⚡ Por que menos intenso que Ascaris?

  • Apenas 1 muda no pulmão (vs. várias no Ascaris)
  • Larvas menores (500–700 µm vs. >1.000 µm do Ascaris)
  • Menos trauma mecânico alveolar
  • Alguns casos = sem pulmão (via oral do A. duodenale)
🩸 6.3 Fase Intestinal — Hematofagismo

Ao chegar no intestino delgado, o parasito imediatamente:

1
Morde a mucosa

Estruturas cortantes se fixam na parede → sem isso o peristaltismo expulsaria

2
Suga sangue continuamente

L4 já começa antes de virar adulto. Processo 24h/dia.

3
Libera anticoagulantes na saliva

Inibe fator Xa + complexo FVIIa/fator tecidual + ativação plaquetária → sangue flui sem coagular

4
Muda de local periodicamente

Abandona uma área → áreas abandonadas CONTINUAM sangrando (efeito residual dos anticoagulantes) → DESPERDÍCIO DE SANGUE

🩸 Perda de Sangue por Espécie (por verme/dia)

Necator americanus 0,01–0,04 mL
A. duodenale 0,15–0,30 mL
A. duodenale espolia até 10x mais! ⚠️
⚡ Fase Aguda vs. Crônica

Aguda: dor abdominal, náusea, vômito, diarreia, cólicas — dura pouco! O parasito logo modula a inflamação.

Crônica: anemia progressiva. A imunomodulação torna a infecção quase assintomática (exceto pela anemia).

🧬 6.4 Imunomodulação — O Poder Fantástico do Parasito
⚠️ PROVA — Eosinófilos podem estar NORMAIS mesmo com infecção! Não descartar ancilostomíase por eosinófilos normais!
→
Parasito morde → inflamação local
→
Parasito libera moléculas imunomoduladoras

Induz células T reguladoras (Treg), macrófagos M2, produção de IL-10 e TGF-β

→
Inflamação REGRIDE

Suprime citocinas pró-inflamatórias (IFN-γ, IL-5, IL-3). Reduz eosinofilia periférica crônica.

→
Parasito come tranquilo

Hospedeiro assintomático → não busca tratamento → parasito persiste anos.

🔬 Estudo com Doença Celíaca (Necator)

Pacientes com celíaca (atrofia de vilosidades pelo glúten) → infecção experimental com N. americanus (20 larvas L3) → reintrodução do glúten.

Resultado: parede intestinal não inflamou mais significativamente! Vilosidades preservadas!

(não reverteu completamente a doença, mas reduziu drasticamente os sintomas)

🌿 Hipótese da Higiene
  • Coevolução humana com parasitos imunomoduladores por milênios
  • Eliminação dos parasitos (países desenvolvidos) → sistema imune sem "modulador"
  • Resultado: aumento de asma, celíaca, Crohn, dermatite atópica, EM
  • Países em desenvolvimento: menos alergias, mais parasitoses
  • ⚠️ Custo: imunomodulação também prejudica vacinas e aumenta suscetibilidade a outras infecções (malária, TB, HIV)
🩸 6.5 Anemia Ferropriva — Microcítica e Hipocrômica
⚠️ PROVA — Tipo: microcítica hipocrômica. Mecanismo: depleção Fe → Hb baixa → hemácias menores (micro) e mais claras (hipo). Cálculo 700 parasitos!
CaracterísticaMecanismo
HipocrômicaPouca Hb → menos pigmento para reagir com corante → hemácia mais clara
MicrocíticaPouca Hb → menor volume interno → hemácia menor
Hb baixaCada Hb precisa de 4 átomos de ferro; sem ferro = sem Hb
Ferro baixoPerda crônica por hematofagismo + desperdício por anticoagulantes

🔢 Cálculo com 700 Parasitos (Necator)

Consumo de sangue/dia (700 vermes)45 mL
Ferro contido nesses 45mL~11 mg
Ferro reabsorvido no intestino (~40%)~4,4 mg
Ferro da dieta absorvível/dia~2,6 mg
Perda real de ferro/dia ~4 mg déficit
Reserva corporal de ferro~900 mg
Reserva esgota em ~225 dias!

O parasito vive 3 anos. Dá tempo. Com reinfecções, o ferro nunca se recupera.

🤒 Sinais e Sintomas da Anemia

🫥 Palidez Hb baixa → menos cor ao sangue → mucosas e pele pálidas
😴 Fraqueza/Desânimo ↓Hb → ↓O₂ → ↓ATP → corpo poupa energia muscular
💓 Taquicardia Coração acelera para compensar o transporte de O₂
🤕 Cefaleia Hipóxia do SNC em anemia intensa
🚫 Amenorreia Supressão da menstruação para poupar sangue
🫧 Edema/Ascite Hipoalbuminemia por perda proteica
🪨 Geofagia/Pica Deficiência de ferro → desejo de comer terra, gelo etc.
🫀 Sopros Cardíacos Anemia crônica severa → estado hiperdinâmico → pode evoluir para insuficiência cardíaca

⚠️ PROVA: Eosinófilos podem estar NORMAIS na fase crônica (imunomodulação)! NÃO descartar ancilostomíase por eosinófilos normais. Na fase aguda (migração larvária), a eosinofilia está alta.

💊 Dificuldade de Reposição do Ferro na Dieta
FonteBiodisponibilidade
Carne vermelha (ferro heme)Até 35% — MELHOR
Vegetais (ferro não-heme)Muito baixa — ligado a fibras
Vitamina C associadaAumenta absorção do ferro não-heme

🔍 7. Diagnóstico
⚠️ PROVA — Flutuação (Willis) é ideal para ancilostomídeos (ovos leves)! Kato-Katz para quantificar. ORIENTAR O LABORATÓRIO!
🗺️ LMC — Diagnóstico Clínico
  • Visualização do trajeto serpiginoso
  • Confirmação de contato com solo no período de incubação (classicamente 2–15 dias, pode ser até meses)
  • Se não houve contato com solo → pensar em outro diagnóstico
  • NÃO precisa de exame laboratorial
⚠️ A larva está 1–2 cm À FRENTE do trajeto visível. Nunca se sabe onde exatamente!
🧫 EPF Qualitativo — Técnicas
TécnicaPrincípioAncilostomídeo
Hoffman (Sedimentação) Ovos decantam por gravidade ⬇️ Menor sensibilidade (ovos leves)
Willis (Flutuação) Solução saturada NaCl → ovos boiam ⬆️ IDEAL para ancilostomídeos! ⭐
Faust (Centrif.-flutuação) Sulfato de zinco + centrif. Boa (melhor para protozoários)
⚠️ Willis com NaCl: NÃO usar para protozoários (deforma cistos). Faust: usar alça para coleta da superfície.
📊 Kato-Katz — Quantitativo
  • Amostra de fezes de massa definida (~41,7 mg) em placa perfurada
  • Diafanização com papel celofane + glicerina + verde malaquita
  • Resultado em OPG (ovos por grama de fezes)
  • Tabela: infecção baixa / moderada / intensa (maciça)
  • ⚠️ PRAZO: examinar em até 1–4h! A glicerina torna os ovos invisíveis depois
  • Não serve para fezes líquidas

🎯 Usar quando: EPF + positivo para ancilostomídeo + anemia → confirmar se a carga parasitária EXPLICA a anemia

🧑‍⚕️ Algoritmo Clínico — Quando Usar Cada Técnica
Cenário Clínico Técnica Indicada Justificativa
Exame de rotina, sem suspeita específica Sedimentação (Hoffman) — EPF geral Boa para maioria dos parasitos; Ascaris (mais prevalente) sedimenta bem
Suspeita de ancilostomíase (zona rural, anemia) FLUTUAÇÃO (Willis) — orientar o laboratório! Ovos leves → maior sensibilidade. Solicitar expressamente: "EPF por flutuação / suspeita ancilostomíase"
EPF positivo + anemia grave — parasito explica a anemia? Kato-Katz (quantitativo) Estima carga parasitária → confirma ou descarta como causa da anemia. Cuidado: pode ter outra causa (úlcera, câncer)!
Identificar espécie (Necator vs. A. duodenale) Coprocultura (Harada-Mori) Cultiva fezes → obtém larvas L3 → analise morfológica. Ovos são indistinguíveis.
Exame de cura pós-tratamento 3 amostras seriadas (dias alternados) — 15-20 dias após Um exame negativo não é conclusivo. Seriado aumenta sensibilidade.
🎯 REGRA DE OURO: Se o médico pede só "EPF" → laboratório faz rotina (sedimentação). Para ancilostomíase, SEMPRE orientar o laboratório com a suspeita clínica. Comunicação médico-laboratório é essencial!

💊 8. Tratamento da Ancilostomíase
⚠️ PROVA — Albendazol 72% vs. Mebendazol 15%! SEMPRE repor ferro. Repetição em 15-21 dias. Exame de cura.
📊 Eficácia Comparada — Benzimidazóis
Albendazol
72% ✅ (escolha para Ancilostomíase)
*Em Ascaris: 88-95%
Mebendazol
15% ❌
*Em Ascaris: 88-95% — Mesma eficácia para Ascaris mas MUITO MENOS para ancilostomídeo!
💡 Mecanismo: Ambos benzimidazóis ligam-se à tubulina do parasito → inibem polimerização de microtúbulos → depleção de ATP → morte. O albendazol é superior clinicamente para ancilostomídeos.
📋 Esquemas de Tratamento
EsquemaDescriçãoIndicação
PadrãoAlbendazol 400 mg — dose únicaPrimeira linha
Dose aumentadaAlbendazol 400 mg × 2 comprimidos (dose única)Para melhorar eficácia
ProlongadoAlbendazol 400 mg/dia × 3 diasCargas moderadas/altas
RepetiçãoNova dose 15–21 dias depoisPara larvas em trânsito durante o 1º tratamento
Exame de cura3 amostras seriadas — 15-20 dias apósConfirmar eliminação
🩸 SEMPRE associar: Suplementação de ferro (sulfato ferroso) + proteínas/vitaminas. Só matar o parasito NÃO é suficiente — a depleção de ferro já aconteceu! Anemia grave → transfusão sanguínea.
⚠️ Coinfecção Ascaris + Ancilostomídeo

O tratamento para Ascaris (mebendazol dose única) pode NÃO eliminar o ancilostomídeo. Necessário ajustar o esquema → priorizar albendazol em dose maior/prolongada. Tratamento de massa genérico ("remédio de verme a cada 6 meses") não é ineficaz para saúde pública (reduz carga parasitária da comunidade), mas clinicamente o tratamento individual precisa ser adequado à espécie.


🐛 9. Tratamento da Larva Migrans Cutânea
🧴 Opção 1 — Tiabendazol Tópico
  • Pomada/solução de tiabendazol 10–15%
  • Aplicar na região inflamatória + área maior (larva está à frente!)
  • 3–4 aplicações por dia
  • Duração: ~10 dias
  • Alivia sintomas em 2–3 dias → manter até o fim! (garantir morte da larva)
  • Ideal para lesões localizadas
📌 Tendência de substituição pela ivermectina/albendazol orais (mais práticos, igualmente eficazes)
💊 Opção 2 — Ivermectina Oral ⭐
  • Dose calculada por peso (µg/kg) — microgramas!
  • Para lesões extensas/múltiplas (pomada fica impraticável)
  • Altamente eficaz, esquema simples
  • Menos efeitos colaterais
  • Tratamento de escolha para casos extensos
📚 Ivermectina será discutida em detalhes na 3ª unidade — medicamento padrão de várias parasitoses
💊 Opção 3 — Albendazol Oral
  • 400 mg/dia × 3–5 dias (dose fixa, não por peso)
  • Alternativa válida
  • Menos preferido que ivermectina para LMC
Profilaxia para LMC:
• Recolher fezes de animais em praças/áreas recreativas
• Restringir acesso de cães/gatos a caixas de areia
• Desparasitação regular dos animais
• Exame periódico dos pets

🗺️ 10. Larva Migrans Cutânea vs. Visceral — Comparação
Característica Larva Migrans VISCERAL (LMV) Larva Migrans CUTÂNEA (LMC)
Principal ParasitoToxocara canis / T. cati (ascarídeos)Ancylostoma braziliense (principal) + A. caninum
Via de TransmissãoORAL (ingestão de ovos) — passivaCUTÂNEA (penetração pela pele) — ativa
Localização da LarvaVísceras: fígado, pulmão, olho, SNCPELE (epiderme/derme)
Por que fica na localização?Ovo ingerido → larva eclode no TGI → não ultrapassa fase larval em humano → migra pelas víscerasL3 penetra pele → não ultrapassa lâmina basal → fica migrando na pele
DiagnósticoLaboratorial (sorologia ELISA para Toxocara, imagem — eco, TC, RNM)CLÍNICO (trajeto serpiginoso + história de contato com solo)
EosinofiliaIntensa, elevada (sem imunomodulação)Variável — pode estar normal por imunomodulação!
Duração sem tratamentoMeses a anosSemanas a meses (pode ultrapassar 1 ano)
TratamentoAlbendazol sistêmico (+ corticoide se ocular/SNC)Tópico (tiabendazol) ou oral (ivermectina/albendazol)
Grupo taxonômicoFamília AscarididaeFamília Ancylostomatidae
Determinante do tipo de LMÉ a ESPÉCIE do parasito que determina, não apenas a via de entrada! Cada parasito tem tropismo específico.

⚖️ 11. Ascaridíase vs. Ancilostomíase — Comparativo Completo
Aspecto ASCARIDÍASE ANCILOSTOMÍASE
Parasito PrincipalAscaris lumbricoidesN. americanus (80%) + A. duodenale (20%)
Tamanho do adulto7–40 cm~1,5 cm
AlimentaçãoConteúdo intestinal (não hematófago)🩸 SANGUE (hematófago)
Localização adultoIntestino delgadoIntestino delgado
Prevalência BRMaior (~6% escolares)~Metade da Ascaris (~3% escolares)
Habitat predominanteZona rural + periferia urbanaEssencialmente zona rural
Ovo — cascaGrossa, irregular, aderente, escuraFina, lisa, NÃO aderente, TRANSPARENTE
Ovo — conteúdo ao sair1 célula (totalmente inativa)EMBRIÃO (2–8 blastômeros — mais rápido!)
Ovo — pesoPesado → sedimenta (Hoffman)LEVE → flutua (Willis) ⭐
TransmissãoPassiva (ingestão de ovos)ATIVA (L3 penetra pela pele — enzimas) + oral (A. duodenale)
Fase pulmonar (Löffler)Frequente e intensa (muitas mudas)MENOS frequente e branda (1 muda, larvas menores)
Assintomáticos80–90%Menos (mais morbidade — anemia)
Patologia principalObstrução intestinal, desnutriçãoANEMIA FERROPRIVA microcítica hipocrômica
Produção de ovos/dia~200.000 ovos~5.000–20.000 ovos (por espécie)
Tempo de vida adulto~2 anos~3 anos (Necator até 18 anos!)
ImunomodulaçãoNão significativaSIM — eosinófilos podem estar normais!
Tratamento de escolhaAlbendazol OU mebendazol (dose única)ALBENDAZOL (72% vs. mebendazol 15%!) + repor ferro
Profilaxia diferencialHigiene de alimentos, lavagem das mãosUSO DE CALÇADOS (via cutânea)
Exame diagnóstico idealSedimentação (Hoffman)FLUTUAÇÃO (Willis) ⭐

🎯 12. 15 Pontos-Chave para a Prova
⚠️ ESTUDE ESSES 15 PONTOS — São os mais cobrados em provas de Parasitologia Médica!
01
Dois parasitos principais:
Necator americanus (~80% Brasil) e A. duodenale (~20%).
Necator: menor, vive mais (até 18 anos!), bebe menos sangue.
A. duodenale: maior, vive menos, bebe MUITO mais sangue.
02
Ancilostomíase = Anemia Ferropriva microcítica e hipocrômica.
Mecanismo: hematofagismo crônico + anticoagulantes (desperdício de sangue) → depleção de ferro → ↓Hb → hemácias menores (micro) e mais claras (hipo).
03
Cavidade Oral (PROVA):
🌙 Necator = lâminas em meia-lua
🦷 Ancylostoma = estruturas pontiagudas (quitina = "dentes")
A. duodenale: 4 dentes (2 pares) | A. caninum: 3 pares
04
Ovo = transparente, fino, NÃO aderente (vs. Ascaris: espesso, escuro, aderente).
Já contém embrião ao sair (2–8 blastômeros).
Leve → flutua no Willis. Pesado (Ascaris) → sedimenta no Hoffman.
05
Transmissão ATIVA: L3 no solo detecta calor do hospedeiro → libera enzimas → penetra pela pele (~30 min).
Ovo → L3: 7–10 dias no solo.
L3 sobrevive até 6 semanas no solo.
06
Via oral difere entre espécies!
A. duodenale ingerido → vai direto ao intestino → SEM passagem pulmonar → sem Löffler.
N. americanus: infecção sempre cutânea, sempre passa pelo pulmão.
07
LMC: causada por A. braziliense (principal). Larva NÃO ultrapassa lâmina basal humana → migra na pele → trajeto serpiginoso "bicho geográfico".
Diagnóstico CLÍNICO. A larva está 1–2 cm À FRENTE do trajeto visível!
08
Imunomodulação: parasito desinflama a parede que ele próprio inflamou (IL-10, TGF-β, células Treg).
Resultado: fase aguda curta; fase crônica dominada pela anemia.
Eosinófilos podem estar NORMAIS — não descartar ancilostomíase!
09
Tratamento: Albendazol (72%) >>> Mebendazol (15%!).
Dose aumentada (2 cp) OU 3 dias consecutivos.
SEMPRE repor ferro! Só matar o parasito não basta.
Repetição em 15–21 dias. Exame de cura (3 amostras seriadas).
10
Diagnóstico laboratorial:
Melhor técnica = FLUTUAÇÃO (Willis) — ovos leves boiam em NaCl saturado.
Kato-Katz para quantificar (OPG).
ORIENTAR O LABORATÓRIO com suspeita de ancilostomíase!
11
Saneamento no Brasil: ~56% com coleta de esgoto; do coletado, pouco mais da metade é tratado.
Esses dados explicam a persistência das parasitoses intestinais.
Pior: Região Norte. Melhor: Campinas/SP.
12
Prevalência: Ancilostomíase ≈ metade da Ascaridíase (regra epidemiológica).
BR: ~3% escolares (vs. 6% Ascaris). Essencialmente zona rural.
Necator predomina em regiões mais quentes.
13
Cálculo 700 parasitos (Necator):
45 mL sangue/dia → déficit de ~4 mg ferro/dia.
Reserva corporal: ~900 mg → esgota em ~225 dias (<1 ano).
O parasito vive 3+ anos → dá tempo para causar anemia grave.
14
LMC (tratamento):
Tópico: tiabendazol pomada 10–15%, 3-4x/dia, 10 dias.
Oral: ivermectina (lesões extensas) ou albendazol 400 mg × 3–5 dias.
Aplicar em área maior que o trajeto — larva está à frente!
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Jeca Tatu (Monteiro Lobato): representava o impacto da ancilostomíase. Não era "preguiça" — era anemia crônica por doença tropical negligenciada.
Profilaxia diferencial dos ancilostomídeos: USO DE CALÇADOS.