Correção de Prova
Parasitologia Médica

Parasitologia Médica • UERN 2026.1 • 30/03/2026

Cisticercose Ancilostomíase Esquistossomose Estrongiloidíase 4 Casos Clínicos Autoinfecção
🧪

Visão Geral da Prova

4 casos clínicos com complexidade crescente. Cada informação do texto vale décimos. Descrição de figuras laboratoriais é obrigatória.

CasoPacienteParasitosesValor
1Mulher, 29a, MossoróCisticercose uterina + Teníase (T. solium)1,0 (A) + 0,5 (B)
2Criança, 13a, zona ruralAncilostomíase + Enterobiose ectópica + Ascaridíase2,0 (A) + 0,5 (B)
3Mulher, 34a, Aracaju/MacaíbaEsquistossomose crônica + Endometriose + Tricuríase2,0 (A)
4Mulher, 40a, desempregadaEstrongiloidíase disseminada + Tricuríase2,0 (A) + condutas
Estratégia de Prova
Parte A (diagnóstico) sempre vale mais. Focar na descrição detalhada das figuras, identificação correta do parasito, justificativa epidemiológica e correlação clínico-parasitológica.
01

Cisticercose Uterina + Teníase por T. solium

Mulher, 29 anos, Mossoró/RN • Hígida, problemas de fertilidade • Pré-FIV

1,5 pts
Achado Incidental

USG transvaginal (pré-FIV): estrutura cística ~1cm na parede uterina, repleta de líquido, bem delimitada, sem inflamação.


Diagnóstico: Cisticerco na forma vesicular — íntegro, cheio de líquido, sem reação inflamatória. Não é cisticercose (ausência de doença/sintomas).

Pontos obrigatórios na resposta
  1. Identificar como cisticerco (e não cisticercose)
  2. Nomear: Taenia solium
  3. Localização atípica (útero)
  4. Ausência de inflamação → não interfere na fertilidade
  5. Estágio vesicular (1ª etapa evolutiva)
Descrição das Figuras
Fig 1 (USG): Cisto ~1cm, líquido, sem inflamação perilesional. Cisticerco vesicular íntegro.
Fig 2-3 (Histopatológico): Membrana do cisticerco, ventosas, irregularidades do escólex.
Fig 4 (EPF): Ovo arredondado, parede radiada, embrião hexacanto (oncosfera c/ 6 ganchos).
Fig 5 (Proglótide grávida): Ramificações uterinas dendríticas/irregulares → confirma T. solium.
CaracterísticaT. soliumT. saginata
Ramificações uterinasDendríticas (irregulares)Dicotômicas (regulares)
Nº de ramificações~7-13 (menos)~15-30 (mais)
Padrão visualEspessas, irregularesFinas, regulares
Conceito-Chave: Autoinfecção Fecal-Oral
Proglótides no EPF = parasito adulto (hospedeiro definitivo). Cisticerco no útero = forma larvária (hospedeiro intermediário acidental). Conclusão: autoinfecção fecal-oral — a paciente era a própria fonte de infecção.
"Uma vez que você encontrou parasito adulto e encontrou cisticerco, significa que ele estava no processo de autoinfecção fecal-oral."
Questão B — Condutas (0,5 pt)
  1. Exame de imagem cerebral → investigar neurocisticercose
  2. Tratar teníase: Praziquantel (escolha) — Albendazol 3x menos eficaz
  3. Orientações de higiene (lavagem de mãos, alimentos)
  4. Não consumir carne mal cozida
Cuidado na interpretação
"Alimentação natural" ≠ carne crua. Cozinhar é processo natural. Natural = sem ultraprocessados.
02

Ancilostomíase + Enterobiose Ectópica + Ascaridíase

Criança, 13 anos, zona rural de Mossoró/RN • Pós-QT por tumor de saco vitelíneo

2,5 pts
1º Momento

Dor abdominal, emagrecimento (6kg/1mês), distensão, eosinofilia. USG: massa abdominal → cirurgia → tumor de saco vitelíneo. 10 ciclos QT.

2º Momento (1 ano após)

Câncer curado, mas persiste: fraqueza, palidez, hemácias microcíticas, Hb baixa, eosinofilia desapareceu. USG: nódulo no mesentério → suspeitaram recidiva.

Diagnóstico 1: Ancilostomíase

EPF (Fig 2): Dois ovos de ancilostomídeos — casca fina, transparente, embrião visível, um larvado (ovo "velho").

Achado ClínicoExplicação Parasitológica
Hemácias microcíticasDeficiência de ferro → eritropoiese deficiente
Hemoglobina baixaAnemia por espoliação sanguínea crônica
Palidez / FraquezaAnemia → sem transporte adequado de O&sub2;
Desaparecimento da eosinofiliaModulação imune — infecção crônica reduz eosinófilos

Epidemiologia: Zona rural + geohelmintos + ausência de calçamento → penetração de L3 filarióides pela pele dos pés.

Diagnóstico 2: Ascaridíase

EPF (Fig 3): Ovo de Ascaris lumbricoides — parede grossa (dupla), camada mamilonada, embrião central. Sem sintomatologia associada.

Diagnóstico 3: Enterobiose Ectópica

Nódulo mesentérico retirado = negativo para malignidade. Granuloma com necrose + parasito em corte transversal com álulas laterais (Enterobius vermicularis).

Patogênese da Enterobiose Ectópica
Fêmea sai do ânus → Entra na vagina → Útero → Tuba uterina (aberta!) → Cavidade peritoneal → Encista no mesentério
"O parasito saiu do ânus, entrou na vagina [...] quem caminha na tuba pode cair na cavidade abdominal. Esse caso é real."
Questão B — Condutas
Discordância Principal
Albendazol dose oral única foi insuficiente/inadequado para ancilostomíase com carga significativa.
  • Suplementação de ferro (correto)
  • Vitamina K pré-cirúrgica (correto)
  • Uso de calçados — medida preventiva FUNDAMENTAL
  • Higiene de mãos, unhas curtas, troca de roupas íntimas (contra autoinfecção por Enterobius)
03

Esquistossomose Crônica + Endometriose + Tricuríase

Mulher, 34 anos, natural de Aracaju/SE • Professora UERN • Ex-nadadora águas abertas

2,0 pts
Apresentação Clínica
Queixas: Dismenorreia severa, disquezia, menorragia, dispareunia, nuligesta
Antecedentes: Ex-atleta natação águas abertas (doce e salgada), alto rendimento, títulos nacionais/pan-americanos
Cirurgia: Endometriose extensa com aderências em ovários, tubas, reto, vagina, ligamentos uterossacrais
Dx 1: Esquistossomose Intestinal Crônica

Fig 6 (corte transversal): Parasito acelomado, dentro de vaso sanguíneo, canal ginecóforo visível.

Fig 5 (histopatológico): Ovos calcificados, granulomas periovulares, células gigantes multinucleadas, fibrose.

Forma clínica: Crônica/Intestinal — acúmulo de ovos com calcificação.

Justificativa Epidemiológica
FatorRelevância
Natural de Aracaju/SESergipe = maior transmissão no Brasil
Nadadora águas abertasTransmissão obrigatoriamente aquática (cercárias)
Natação em água doceHabitat do caramujo Biomphalaria
Alto rendimentoExposição prolongada e repetida
Única parasitose que exige justificativa epidemiológica
Esquistossomose NÃO existe em todos os lugares. Distribuição geográfica restrita.
Dx 2: Tricuríase

Colonoscopia: parasitos adultos no intestino grosso.

EPF (Fig 4): Ovos de Trichuris trichiura — formato barril/tonel, opérculos bipolares, casca grossa, cor castanha.

Condutas
  1. Orientar sobre esquistossomose + cercárias
  2. Tratar: Praziquantel (esquistossomose)
  3. Tratar: Albendazol/Mebendazol (tricuríase)
  4. Investigar comprometimento hepático (forma hepatoesplênica)
FormaCaracterísticasLocalização dos Ovos
Intestinal agudaDiarreia mucossanguinolenta, febre, eosinofiliaParede intestinal
Intestinal crônicaGranulomas calcificados, fibroseParede intestinal (acúmulo)
HepatointestinalHepatomegalia, fibrose periportalFígado + intestino
HepatoesplênicaHipertensão portal, esplenomegalia, varizesFígado (fibrose de Symmers)
04

Estrongiloidíase Disseminada + Tricuríase

Mulher, 40 anos, desempregada • Câncer de ovário alto grau • QT + cirurgia extensa

2,0 pts
Evolução Clínica
  1. Cirurgia oncológica extensa + reconstrução intestinal
  2. Achado: Trichuris trichiura em corte histológico (Fig 1-2)
  3. Tratamento inadequado: albendazol dose oral única
  4. 10 dias pós-cx: fístula + infecção abdominal
  5. 3 massas hepáticas → suspeita de metástase → nova cirurgia
  6. 48h após: disúria + prurido nos MMII
  7. Sedimento urinário: hematúria + bacteriúria + estruturas filiformes (larvas!)
Dx: Estrongiloidíase Disseminada

Larvas filarióides (L3) de Strongyloides stercoralis na urina:

  • Esôfago rabditiforme longo (filarióide)
  • Sem bainha (diferencial com filária)
  • Cauda entalhada (bifurcada)

Por que é DISSEMINADA e não Hiperinfecção?
Larvas no sistema urinário = fora do ciclo normal. Disseminada > Hiperinfecção (que seria apenas em intestino e pulmão).
FormaDefiniçãoLocalização
HiperinfecçãoAumento massivo da carga nos locais do ciclo normalIntestino e pulmão
DisseminadaParasito além dos locais do ciclo normalQualquer órgão (rins, fígado, cérebro, etc.)
Mecanismo da Autoinfecção Interna
Situação normal (imunocompetente):

L1 (rabditiforme) saem nas fezes. Sistema imune impede transformação L1→L3 dentro do corpo.

Imunossupressão grave:
L1→L3 no intestino → Perfura parede → Corrente sanguínea → Órgãos distantes
Larva Currens vs. Larva Migrans Cutânea
CaracterísticaLarva Migrans CutâneaLarva Currens
AgenteAncylostoma braziliense/caninumStrongyloides stercoralis
MecanismoL3 penetra pela pele (contato solo)L3 da autoinfecção perfuram pele de dentro para fora
VelocidadeLenta (~1-2 cm/dia)Rápida (~5-10 cm/hora)
Requer solo?SIMNÃO (ocorre internada)
Condutas Corretas
  1. Ivermectina — droga de escolha para estrongiloidíase disseminada
  2. Manter quimioterapia — não suspender pela parasitose
  3. Tratamento profilático mantido enquanto durar imunossupressão
Discordâncias
  1. Albendazol dose única inadequado para Trichuris
  2. Prurido tratado como dermatose (tiabendazol tópico) — na verdade era larva currens
Fatores de Risco para Estrongiloidíase Disseminada
Quimioterapia
Imunossupressão → L1→L3 interna
Corticoterapia
Supressão Th2
HIV/AIDS
Depleção CD4+
HTLV-1
Associação forte
Transplante
Imunossupressão medicamentosa
Desnutrição grave
Comprometimento global
Neoplasias hematológicas
Linfomas, leucemias
Infecções bacterianas
Indicam comprometimento
📊

Tabelas Resumo

Parasitos e Características Diagnósticas
ParasitoForma DiagnósticaExameCaracterística-Chave
T. solium (adulto)Proglótide grávidaEPFRamificações dendríticas
T. solium (larva)CisticercoHistopatológicoVentosas, escólex, membrana vesicular
Ancylostoma/NecatorOvoEPFCasca fina, embrião segmentado
Ascaris lumbricoidesOvoEPFCasca grossa dupla, mamilonada
Enterobius vermicularisAdulto em corteHistopatológicoÁlulas laterais
Schistosoma mansoniAdulto + ovosHistopatológicoAcelomado; ovo c/ espícula lateral
Trichuris trichiuraOvo + adultoEPF/HistoBarril c/ opérculos bipolares
Strongyloides stercoralisLarva L3Sedimento urinárioEsôfago longo, cauda entalhada
Ovos no EPF — Descrição Obrigatória
ParasitoDescrição do Ovo
Ancylostoma/NecatorCasca fina, transparente, embrião segmentado (ou larvado se "velho")
Ascaris lumbricoidesCasca grossa (dupla parede), camada mamilonada externa, embrião único central
Enterobius vermicularisFormato em "D" (plano-convexo), casca dupla fina, larva no interior
Schistosoma mansoniCasca dupla, espícula lateral, miracídio no interior
Taenia sp.Arredondado, parede radiada, embrião hexacanto (oncosfera)
Trichuris trichiuraBarril/limão, opérculos bipolares, casca grossa, cor castanha
Tratamentos por Parasitose
ParasitoseDroga de EscolhaAlternativaObservações
Teníase (T. solium)PraziquantelAlbendazol (3x−)Eliminar fonte autoinfecção
CisticercoseAlbendazol + DexaPraziquantelDepende da localização
AncilostomíaseAlbendazol 400mg DUMebendazol 100mg 2x/d 3d+ Suplementação de ferro
AscaridíaseAlbendazol 400mg DUMebendazolEficaz em dose única
EnterobioseAlbendazol/MebendazolPirantelRepetir em 2 sem; tratar contactantes
EsquistossomosePraziquantelOxamniquinaDose única oral
TricuríaseMebendazol 100mg 2x/d 3dAlbendazol 400mg 3-5dDose única INSUFICIENTE
Estrongiloidíase disseminadaIvermectinaAlbendazolProfilaxia na imunossupressão
Mecanismos de Autoinfecção
ParasitoTipoMecanismo
T. soliumFecal-oral (externa)Ingestão dos próprios ovos eliminados nas fezes
E. vermicularisExterna (perianal-oral)Coçar região perianal → levar ovos à boca
E. vermicularisInterna (retroinfecção)Larvas eclodem na região perianal e migram retrogradamente
S. stercoralisInternaL1→L3 no intestino → perfura mucosa → sangue
S. stercoralisExternaL3 na região perianal penetra pele
Estágios Evolutivos do Cisticerco
EstágioCaracterísticaImagemInflamaçãoTratamento
1. VesicularÍntegro, cheio de líquidoCisto bem delimitado, ponto ecogênicoAusente/mínimaAntiparasitário (se indicado)
2. ColoidalDegeneração, líquido turvoConteúdo heterogêneo, edemaModerada a intensaAntiparasitário + corticoide
3. Granular-nodularCápsula espessa, semi-sólidoNódulo com captação em anelGranulomatosaCorticoide
4. CalcificadoMorte completa, mineralizaçãoCalcificação puntiformeResidual/ausenteNenhum (inativo)
⚠

Erros Comuns na Prova

1. "Alimentação natural" = carne crua
Natural = minimamente processado. Cozinhar carne é processo natural.
2. Líquido na figura errada
Líquido era visível na Fig 1 (USG), NÃO na Fig 2 (histopatológico). Descrever cada figura individualmente.
3. Analogia sem descrição morfológica
"Chapéu mexicano" não basta para S. mansoni. Descrever: casca dupla, espícula lateral, miracídio.
4. Dois parasitos em um corte
Corte de um único verme → ovos dentro do útero são da mesma espécie (planos de corte diferentes).
5. Cisticerco = causa da infertilidade
Cisticerco de 1cm sem inflamação NÃO interfere na fertilidade. Achado incidental.
6. Albendazol DU para tudo
Insuficiente para Trichuris (precisa múltiplas doses) e ineficaz para teníase (praziquantel).
7. Sem justificativa epidemiológica
Esquistossomose exige: Sergipe (maior transmissão) + natação em águas abertas (cercárias).
8. Larva currens vs. Larva migrans cutânea
Paciente internada sem contato com solo. LMC exige solo. Prurido = larva currens por autoinfecção.
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10 Pontos-Chave para Prova

1. Descrição de Figuras

Descrição morfológica detalhada de cada figura. Nunca apenas o nome do parasito.

2. Cada Informação Vale Décimos

"Zona rural", "águas abertas", "eosinofilia desapareceu" — todas são pistas que devem ser incorporadas.

3. Presença vs. Doença

Cisticerco sem sintomas ≠ cisticercose. Ascaris no EPF sem sintomas ≠ ascaridíase clínica.

4. Autoinfecção = Tema Central

3/4 casos: T. solium (fecal-oral), Enterobius (externa), Strongyloides (interna — a mais perigosa).

5. Epidemiologia Justifica

Zona rural → geohelmintos. Sergipe → esquistossomose. Águas abertas → cercárias. Imunossupressão → disseminada.

6. Tratamento Específico

Albendazol DU não serve para tudo. Trichuris = mais resistente. Praziquantel para teníase e esquistossomose.

7. Formas Ectópicas

Cisticerco no útero, Enterobius no mesentério, Strongyloides na urina, Schistosoma no cólon.

8. Imunossupressão + Parasitoses

QT → estrongiloidíase disseminada. Tratamento profilático mantido durante imunossupressão.

9. Eosinofilia: Aparece e Desaparece

Aguda: presente. Crônica: desaparece (modulação). Ausência NÃO exclui parasitose crônica.

10. Próxima Prova

Mesmo formato: muitas figuras. Focar em Trypanosoma cruzi e esfregaço sanguíneo. Estudar pelos slides.

"Os detalhes, os detalhes. Imagina a sensibilidade. É agora que as doenças começam a ficar mais complexas. Usem os slides. O slide é o ponto de partida."