Parasitologia Médica • UERN 2026.1 • Aula 10

Leishmaniose Tegumentar

Espécies, Ciclo, Imunopatogenia & Formas Clínicas
Leishmania Trypanosomatidae Review Completo
🦠 Espécies & Complexos
20 Espécies — 2 Subgêneros
SubgêneroDesenvolvimento no vetor
Leishmania (Leishmania)Intestino anterior
Leishmania (Viannia)Intestino posterior → migração anterior
Critério: local de desenvolvimento no flebotomíneo. Viannia também forma paramastigotas aderidas ao intestino posterior.
9 Complexos
  • As 20 espécies agrupam-se em 9 complexos
  • Todos causam doença cutânea
  • Complexo Donovani = único clássico da visceral
Pegadinha: Espécies tegumentares (L. amazonensis, L. braziliensis) podem visceralizar em imunossuprimidos (HIV) — calazar-símile.
8 Espécies no Brasil
Espécie-chaveImportância
L. infantumVisceral (calazar). Sinônimo: L. chagasi.
L. braziliensisMaior distribuição. Formas disseminada e mucosa.
L. amazonensisCutânea difusa (anérgica).
"Na dúvida, é a braziliensis." Identificação de espécie exige PCR ou eletroforese de isoenzimas — morfologicamente indistinguíveis.
🔬 Morfologia
Amastigota (Hospedeiro Vertebrado)
  • Forma arredondada/ovoide, intracelular obrigatória
  • Parasita o SFM: macrófagos, Kupffer, Langerhans, dendríticas, micróglia
  • Estruturas visíveis: núcleo + cinetoplasto
  • Flagelo curto rudimentar (só visível em microscopia eletrônica)
  • Sem mobilidade — depende da fagocitose
Prova: Amastigotas de Leishmania e T. cruzi são morfologicamente idênticas. O contexto (macrófago vs. músculo) é que diferencia.
Promastigota (Inseto Vetor / Cultura)
  • Forma alongada com flagelo livre anterior
  • Cinetoplasto bem anterior (próximo à saída do flagelo)
  • Sem membrana ondulante
Forma flageladaPosição do cinetoplasto
TripomastigotaPosterior
EpimastigotaPróximo ao núcleo
PromastigotaBem anterior
"Na prova preta e branca, mal impressa, preste atenção na posição do cinetoplasto."
🔄 Ciclo Biológico & Metaciclogênese
Ciclo Completo
Flebotomíneo pica → Ingere macrófagos c/ amastigotas → Transforma em promastigota → Procíclica → Paramastigota → Nectomonada → METACICLOGÊNESE → Metacíclica na válvula estomodeal → Regurgitação + saliva + PSG → Inoculação na pele → Neutrófilos (Cavalo de Troia) → Eferocitose → Macrófago → Fagolisossomo → Amastigota → Fissão binária → Ruptura → Novas fagocitoses
Metaciclogênese
ProcíclicaMetacíclica
Corpo maior, flagelo curtoCorpo menor, flagelo maior
Não infectanteAltamente infectante
LPG finoLPG espessado (resiste ao complemento)
Não é só mudança morfológica. O espessamento do LPG confere resistência à lise pelo complemento (impede inserção de C5b-C9).
Transmissão — Regurgitação
  1. Metacíclicas secretam gel secretório (PSG)
  2. PSG obstrui a válvula estomodeal
  3. Flebotomíneo tenta sugar → forçado a regurgitar
  4. Parasitos + PSG + saliva inoculados na pele
  5. Alimentação prejudicada → inseto pica outro hospedeiro
Prova: Múltiplas pessoas podem ser picadas num único repasto porque o parasito atrapalha a alimentação.
🦟 Vetor Flebotomíneo & Telmofagia
Características do Flebotomíneo
  • ~1/3 do Aedes (muito pequeno)
  • Cor amarelada → "mosquito palha"
  • Corpo coberto de cerdas/pelos
  • Asas eretas em "V" no repouso (diferencial)
  • Hábito crepuscular/noturno (algumas spp. diurnas)
  • Apenas fêmeas são hematófagas
  • Família Psychodidae, subfamília Phlebotominae
GêneroDistribuição
LutzomyiaNovo Mundo (Américas)
PhlebotomusVelho Mundo
Telmofagia vs. Solenofagia
TipoAparelho bucalMecanismo
Telmófago (flebotomíneo)CurtoRompe capilares → forma poça → alimenta-se
Solenófago (Aedes)LongoInsere direto no vaso sanguíneo
Adaptação perfeita: Ao se alimentar da poça, o inseto ingere tudo do tecido, incluindo macrófagos com amastigotas que estariam inacessíveis no sangue circulante.
Espécie de Referência

Lutzomyia longipalpis

  • Transmite a leishmaniose visceral
  • O mais urbano dos flebotomíneos
  • O mais próximo do ser humano
  • Crescente domiciliação (galinheiros, currais, intradomicílio)
"O que transmite a doença mais grave é aquele que está mais próximo do ser humano."
🛡️ Imunopatogenia
Paradoxo do Macrófago

O macrófago é simultaneamente:

  • A principal célula capaz de destruir a Leishmania (via NO/ROS)
  • A principal célula onde o parasito se multiplica

O desfecho depende de como o macrófago é orientado pelos linfócitos T.

"Ele sobrevive na célula que foi construída para destruir." A Leishmania se multiplica dentro do fagolisossomo — um dos ambientes mais hostis do corpo. Diferente do T. cruzi, que escapa para o citoplasma.
TH1 vs. TH2 — O Cabo-de-Guerra
ParâmetroTH1TH2
PerfilPró-inflamatório (helper)Anti-inflamatório
CitocinaIFN-γIL-4, IL-10
MacrófagoMata (NO, ROS)Limpa/remodela
ParasitoDestruiçãoSobrevivência
Efeito colateralDano tecidualProliferação parasitária
Prova: O parasito tenta empurrar para TH2 constantemente. As Tregs (independentes de TH2) também produzem IL-10/TGF-β, amplificando a imunossupressão.
Cavalo de Troia — Neutrófilos
Neutrófilos chegam primeiro → fagocitam promastigotas + NETose
Parasito não se multiplica no neutrófilo — se esconde
Parasito retarda a apoptose do neutrófilo
Neutrófilo entra em apoptose → forma corpos apoptóticos
Macrófago faz eferocitose (limpeza, não defesa)
Sinalização anti-inflamatória → sem explosão respiratória
Parasito entregue ao macrófago em modo silencioso
LPG — Lipofosfoglicano
  • Impede inserção do complexo lítico C5b-C9 (resiste ao complemento)
  • Promove opsonização C3bi via CR1/CR3 → fagocitose silenciosa
  • Retarda fusão fagossomo-lisossomo (tempo para diferenciar em amastigota)
  • Bloqueia proteína cinase C → impede explosão respiratória
GP63 — Leishmanolisina
  • Metaloprotease de superfície (63 kDa)
  • Cliva C3b em C3bi → direciona para CR1/CR3 sem ativar defesas
  • Intracelularmente: degrada enzimas lisossomais
  • Interfere na expressão gênica do macrófago
Três Vias de Evasão Intracelular
EstratégiaMecanismo
1. Bloqueio de microbicidasInibe produção de NO e ROS (LPG + GP63)
2. Invisibilidade antigênicaBloqueia MHC-II e coestimulatórias → sem mensagem ao linfócito T
3. Bloqueio da apoptoseAtiva Bcl-2, inibe Bad/Bax → macrófago continua vivo como fábrica
Saliva do Vetor & Exossomos
  • Saliva contém maxadilan (vasodilatador potente)
  • Reduz IFN-γ, recruta monócitos/neutrófilos
  • Empurra resposta para TH2 (IL-4, IL-10, PGE2)
  • Co-inoculada com PSG (gel secretório) + exossomos (vesículas com GP63/LPG)
  • Exossomos são liberados já no lúmen do vetor e pré-condicionam o tecido
"No laboratório, nunca se infectou tão bem quanto o mosquito. O parasito infecta melhor auxiliado pelo vetor."
Fagocitose Silenciosa — Mimetismo Apoptótico
  • Amastigota expõe fosfatidilserina na superfície
  • Simula célula em apoptose → macrófago engolfa como "limpeza"
  • Desativa respostas microbicidas da célula hospedeira
  • GP63 cliva C3b → C3bi → opsonização via CR1/CR3 (sem explosão respiratória)
🩺 Formas Clínicas
Espectro Imunológico das Formas Clínicas
Anérgica (TH2)
Cutânea Difusa
L. amazonensis
Equilíbrio
Cutânea Localizada
Todas as espécies
Hiperérgica (TH1)
Mucosa
L. braziliensis
Cutânea Localizada (Clássica)
  • Todas as espécies podem causar
  • Úlcera em "vulcão": bordas elevadas, fundo granuloso
  • Indolor (ou pouco dolorosa; dor = infecção bacteriana 2ária)
  • Local de inoculação (áreas expostas)
  • Cronicidade: meses para cicatrizar
  • "Ferida brava"
Formação da úlcera: Parasito mata macrófagos na derme → inflamação intensa → edema comprime capilares → isquemia epitelial → perda tecidual + dano por CD8+/TNF-α. Parasito NÃO ataca o epitélio diretamente.
Diagnóstico: Coletar da borda da úlcera. Em lesões crônicas (>1 ano), sensibilidade do exame direto cai para ~20%.
Disseminada
  • Espécie: L. braziliensis (principal)
  • >10 lesões, em regiões diferentes do corpo
  • Lesões pequenas e polimórficas (pápulas, nódulos, úlceras)
  • Disseminação linfática + hematogênica
  • Fator de vulnerabilidade: alcoolismo, desnutrição, tabagismo
Diferente da difusa: há ulceração, resposta imune parcial, não é anergia total. Pode evoluir para forma mucosa.
Mucosa (Mucocutânea)
  • Associação forte: L. braziliensis
  • TH1 exagerado → muita destruição, poucos parasitos
  • Surge anos a décadas após lesão cutânea "curada"
  • Destruição: septo nasal → palato → faringe → laringe
  • Risco: broncopneumonia aspirativa fatal
  • ~6% dos casos de LT no Brasil
Prova: Cicatrização cutânea foi apenas aparente. Acompanhamento ORL é obrigatório com L. braziliensis.
Cutânea Difusa (Anérgica)
  • Espécie: L. amazonensis
  • Lesões proliferativas: nódulos, placas (sem úlcera clássica)
  • Anergia celular total — Montenegro negativo
  • Carga parasitária altíssima
  • Início geralmente na infância
  • Pior resposta ao tratamento
Histologia: infiltrado monomórfico de macrófagos vacuolizados intensamente parasitados. Resposta humoral exacerbada (Ig inúteis contra parasito intracelular).
Parâmetro Cutânea Localizada Disseminada Mucosa Cutânea Difusa
Espécie Todas L. braziliensis L. braziliensis L. amazonensis
Lesão Úlcera clássica (1–poucas) Múltiplas polimórficas (>10) Destruição nasal/oral/faríngea Nódulos/placas proliferativas
Resposta Imune Intermediária (equilíbrio) TH2 relativa (parcial) TH1 exagerada Anérgica (sem TH1)
Parasitos Abundantes (lesão recente) Moderados Escassos Muito abundantes
Gravidade + ++ +++ ++++ (refratária)
🧪 Diagnóstico
Métodos Parasitológicos
MétodoTécnica
Imprint (carimbo)Borda da úlcera → pressiona na lâmina → Giemsa
HistopatológicoBiópsia da borda → corte em parafina → corado
AspiradoSoro fisiológico na borda → aspiração
CulturaMeio NNN/Schneider → crescimento de promastigotas
Sempre coletar da BORDA. Em lesões crônicas (>1 ano), parasitos escasseiam → sensibilidade do exame direto ~20%. Alternativas: sorologia + clínico-epidemiológico + PCR.
Identificação de Espécie
  • Eletroforese de isoenzimas (padrão-ouro bioquímico)
  • PCR (método molecular)
  • Anticorpos monoclonais (imunofluorescência/ELISA)
  • Reservado a pesquisa, não à rotina clínica

Inferência clínica: Mucosa → L. braziliensis. Difusa → L. amazonensis. Visceral → L. infantum.

💊 Tratamento
Opções Terapêuticas
ViaMedicamentoObs
IntralesionalAntimonial pentavalente (Glucantime)Lesão única; doloroso
IM/IV sistêmicoAntimonial pentavalenteCutânea: 20 dias. Mucosa: 30 dias
OralMiltefosinaResultados inconclusivos p/ L. braziliensis
AlternativaAnfotericina B lipossomalQuando antimonial é contraindicado
Antimoniais Pentavalentes

Duplo mecanismo:

  1. Ação direta leishmanicida — inibe beta-oxidação e glicólise (fosfofrutoquinase); interfere no metabolismo de tripanotiona
  2. Estimulação do macrófago — aumenta IFN-γ → potencializa TH1
Contraindicados: gestantes, cardiopatas (alargamento QT!), nefropatas, hepatopatas → substituir por Anfotericina B lipossomal. Monitorar ECG obrigatório.
Miltefosina
  • Primeiro tratamento oral contra leishmaniose (desde ~2000)
  • Originalmente desenvolvida como antineoplásico
  • Eficácia variável para espécies do Novo Mundo
TERATOGÊNICA! Absoluta e estritamente contraindicada em gestantes.
O grande desafio farmacológico: matar um parasito que vive dentro do fagolisossomo de um macrófago — barreira farmacocinética significativa.
⚡ Pegadinhas & Correções Importantes
Erros Clássicos de Prova
❌ "Só L. donovani/infantum visceralizem"

Em imunossuprimidos (HIV), espécies tegumentares (L. amazonensis, L. braziliensis) podem visceralizar → calazar-símile.

❌ "O macrófago é a única célula envolvida"

Neutrófilos (NETose, explosão respiratória), monócitos e células dendríticas também participam. O neutrófilo é o "cavalo de Troia".

❌ "A metacíclica resiste ao complemento por ser menor"

A resistência vem do espessamento do LPG (impedimento estérico ao C5b-C9), não do tamanho.

❌ "A úlcera é causada pelo parasito atacando o epitélio"

O parasito mata macrófagos na derme. A úlcera resulta de isquemia epitelial (compressão capilar por edema) + dano por CD8+/NK e TNF-α.

❌ "Cutânea difusa = pouca inflamação"

Há infiltrado inflamatório intenso, porém monomórfico (só macrófagos parasitados). O que falta são linfócitos para granuloma efetivo.

❌ "Antimonial 15 dias; Miltefosina existe desde sempre"

Cutânea: 20 dias. Mucosa: 30 dias. Miltefosina surgiu como antileishmania em ~2000. Os antimoniais (1912) são os antigos.

❌ "L. chagasi é espécie diferente de L. infantum"

São a mesma espécie. L. infantum (= L. chagasi) foi trazida às Américas durante a colonização europeia, provavelmente por cães infectados.

❌ "Flebotomíneo = mosquito"

Entomologicamente incorreto. Mosquitos = Culicidae. Flebotomíneos = Psychodidae (Phlebotominae). O termo popular é "mosquito-palha".

🎯 Pontos-Chave para Prova
01Gravidade depende da espécie + resposta imune do hospedeiro (balanço TH1/TH2).
028 espécies no Brasil. 7-8 tegumentares + L. infantum (visceral). L. chagasi = sinônimo.
03Três espécies-chave: L. infantum (visceral), L. braziliensis (disseminada/mucosa), L. amazonensis (difusa).
04Amastigota parasita o SFM, não tem mobilidade — depende de fagocitose. Usa mimetismo apoptótico (fosfatidilserina).
05Leishmania se multiplica dentro do fagolisossomo. T. cruzi escapa para o citoplasma.
06Neutrófilo = Cavalo de Troia: abriga parasito → apoptose → eferocitose silenciosa → macrófago em modo "limpeza".
07Eixo TH1 (destruição) vs. TH2 (sobrevivência). Parasito empurra para TH2 via: saliva, LPG, GP63, exossomos.
08Flebotomíneo é telmófago (poça) — adaptação perfeita para ingerir macrófagos do tecido.
09Úlcera = isquemia do epitélio + dano CD8+/TNF-α. Parasito NÃO ataca epitélio diretamente.
10Forma mucosa (L. braziliensis): TH1 exagerada, poucos parasitos, anos após lesão cutânea "curada".
11Forma difusa (L. amazonensis): anergia, Montenegro negativo, início na infância, pior prognóstico.
12Espectro: Anérgica (difusa) → Localizada (centro) → Hiperérgica (mucosa).
13Diagnóstico: borda da úlcera (imprint, biópsia, aspirado). Espécie: PCR ou isoenzimas.
14Antimoniais pentavalentes: leishmanicida + estimula macrófago (↑ IFN-γ). 20d cutânea / 30d mucosa.
15Maioria das espécies não tolera 37°C → fica na pele. Só L. donovani/infantum visceralizem em imunocompetentes.
16Regurgitação por PSG na válvula estomodeal → múltiplas picadas em um repasto.
17Miltefosina: oral, antineoplásico reposicionado (~2000). TERATOGÊNICA — proibida na gestação.
📋 DIJC — Casos Prováveis de Prova
Caso 1 — Úlcera cutânea clássica em área endêmica

♂, 34a, trabalhador rural, desmatamento no Pará. Úlcera única em antebraço há 3 meses, indolor, bordas elevadas, fundo granuloso, sem resposta a ATB.

D
Úlcera única de bordas elevadas ("vulcão"), fundo granuloso, área exposta, evolução crônica 3 meses, indolor. "Ferida brava". Parasito nas bordas.
I
LTA — forma cutânea localizada. Espécie: L. braziliensis (maior distribuição, todos os estados).
J
Exposição ao flebotomíneo telmófago. Neutrófilos (cavalo de Troia) → eferocitose silenciosa → macrófagos → fagolisossomo → inflamação → isquemia epitelial + CD8+/TNF-α. Equilíbrio TH1/TH2. Risco de metástase mucosa tardia (anos).
C
Dx: Imprint/biópsia/aspirado da borda. Tx: Antimonial IM 20 dias (ou intralesional se única). Alt: Anfotericina B lipossomal. Monitorar ECG (QT). Acompanhamento ORL obrigatório (mucosa tardia). Miltefosina: inconclusiva p/ braziliensis, CI em gestantes.
Caso 2 — Destruição mucosa tardia

Perfuração septal e destruição palatina. Úlcera cutânea em MMII há ~14 anos, cicatrizou sem tratamento.

D
Destruição progressiva de mucosa nasal (perfuração septal) + palato. Antecedente cutâneo há 14 anos, cicatrização espontânea sem Tx.
I
LTA — forma mucosa (mucocutânea). Espécie: L. braziliensis.
J
Cicatrização foi apenas aparente. Amastigotas migraram via linfática/hematogênica. Polo hiperérgico (TH1 exagerada): muita destruição (IFN-γ, TNF-α, CD8+), poucos parasitos. Intervalo compatível (meses a décadas).
C
Dx: Exame direto pode ser negativo (escassez). PCR + sorologia + clínico-epidemiológico. Tx: Antimonial IM 30 dias. Alt: Anfotericina B lipossomal. Avaliação ORL extensão (risco broncopneumonia aspirativa). Acompanhamento prolongado.
Caso 3 — Cutânea difusa (anérgica)

♂, 9a, Maranhão. Desde 5 anos: nódulos e placas em membros, tronco, face. Sem ulceração. 2 ciclos de antimonial sem resposta. Montenegro negativo.

D
Nódulos e placas infiltrativas difusas, sem ulceração, crônicas desde infância. Montenegro negativo. Refratariedade ao Tx.
I
Leishmaniose cutânea difusa (forma anérgica). Espécie: L. amazonensis.
J
Polo anérgico (TH2): ausência de TH1, Montenegro negativo. Macrófagos vacuolizados repletos de amastigotas (fábricas). Infiltrado monomórfico sem granuloma. Resposta humoral exacerbada (IgG ineficaz contra intracelular). Diferencial com disseminada: difusa = anergia total + sem úlcera + carga altíssima.
C
Dx: Exame direto com alta sensibilidade (muitas amastigotas). Tx: Antimonial prolongado, recidivas frequentes. Pior prognóstico entre todas as formas. Acompanhamento multidisciplinar longo.
Caso 4 — Forma disseminada

♂, 48a, etilista crônico, lavrador na Bahia. Ferida no braço D há 5 meses. Últimas 8 semanas: >20 lesões polimórficas (pápulas, nódulos, úlceras) em braços, pernas, tronco e face.

D
>20 lesões polimórficas (pápulas, nódulos, pequenas úlceras) em regiões não contíguas. Lesão primária mais antiga no braço. Etilismo crônico.
I
LTA — forma disseminada. Espécie: L. braziliensis.
J
Disseminação linfática + hematogênica do foco primário. Polimorfismo = marca da forma. Etilismo → deficiência imune celular parcial (não anergia total). Diferencial com difusa: aqui há ulceração + resposta parcial + Montenegro pode ser positivo.
C
Tx: Antimonial IM 20 dias. Monitorar cardio/hepato/nefrotoxicidade. Pesquisa ativa de mucosa (risco com L. braziliensis). Abordar etilismo e nutrição.
Caso 5 — Identificação morfológica (Lâmina de imprint)

Imprint da borda: estruturas arredondadas intracelulares com duas formações internas (maior e menor, coradas em roxo) dentro de células grandes.

D
Estruturas ovoides intracelulares em macrófagos. Dois corpúsculos: núcleo (maior) + cinetoplasto (menor). Sem flagelo visível.
I
Amastigotas de Leishmania sp. no interior de macrófagos. Forma flagelada correspondente: promastigota (cinetoplasto anterior).
J
Idêntica à amastigota de T. cruzi, mas contexto define: macrófago = Leishmania; músculo = T. cruzi. Espécies indistinguíveis ao microscópio → PCR/isoenzimas. "Na dúvida, braziliensis."
C
Coloração Giemsa/Leishman. PCR para espécie. Tratar conforme forma clínica.
Caso 6 — Biologia do vetor

Inseto pequeno (~1/3 do Aedes), amarelado, corpo com cerdas, asas eretas em "V" no repouso. Importância epidemiológica e mecanismo de transmissão?

D
Díptero pequeno, claro, piloso, asas eretas divergentes → flebotomíneo (Psychodidae, Phlebotominae).
I
Flebotomíneo — vetor da Leishmania. No BR: Lutzomyia sp. (>200 espécies, >50 vetoras). Ref: L. longipalpis (visceral, mais urbano).
J
Telmófago (poça de sangue) → ingere macrófagos com amastigotas do tecido. Metaciclogênese no vetor → PSG obstrui válvula estomodeal → regurgitação + saliva (maxadilan, anti-inflamatória, empurra TH2). Múltiplas picadas por repasto.
C
Prevenção: Repelentes, telas de malha fina, roupas longas no crepúsculo. Manejo peridomiciliar (afastar galinheiros). Atenção à crescente domiciliação.
Caso 7 — Mecanismo completo de evasão imune

Questão discursiva: Por que a infecção natural (pelo vetor) é mais eficiente que a experimental? Detalhe evasão desde a inoculação até o estabelecimento.

J
Sequência cronológica completa:
1. Inoculação: Metacíclicas + saliva (maxadilan) + PSG + exossomos (GP63/LPG) pré-condicionam o tecido.
2. Neutrófilos (Cavalo de Troia): Fagocitam promastigotas + NETose. Parasito se esconde, retarda apoptose.
3. Eferocitose: Neutrófilo apoptótico → corpos apoptóticos → macrófago engolfa em modo "limpeza" → sem explosão respiratória.
4. Evasão intracelular: LPG retarda fusão fagolisossomo + bloqueia PKC; GP63 cliva C3b→C3bi (CR1/CR3 silencioso) + degrada enzimas lisossomais.
5. Estabelecimento: Amastigota adaptada ao pH ácido. Fissão binária no fagolisossomo. Bloqueia MHC-II, inibe apoptose (Bcl-2), silencia NO/ROS.
🚫 Erros que Derrubam a Resposta
7 Erros Frequentes (Padrão Profª Patrícia Barra)
  1. 1Responder só "é leishmaniose" sem definir a forma clínica
  2. 2Esquecer a espécie provável quando o quadro sugere claramente
  3. 3Confundir patogenia da úlcera — isquemia + CD8+/NK, NÃO ação direta
  4. 4Não ligar imunidade à forma clínica (mucosa=TH1, difusa=anergia)
  5. 5Conduta genérica — professora quer método + fármaco + via + duração + CI
  6. 6Ignorar o papel do neutrófilo — "cavalo de Troia" é conceito de prova
  7. 7Dizer que o macrófago é a única célula — neutrófilos, monócitos e dendríticas participam