Das ~20 especies de Leishmania patogenicas para humanos, classicamente duas causam doenca visceral:
| Especie | Distribuicao | Brasil? |
|---|---|---|
| L. donovani | India, Africa Oriental | Nao |
| L. infantum (=L. chagasi) | Americas, Mediterraneo | Sim (unica) |
Amastigota
Forma intracelular no vertebrado. Possui flagelo rudimentar confinado na bolsa flagelar (nao exteriorizado).
Promastigota metaciclica
Forma infectante no vetor. Flagelo livre. Inoculada na pele pela picada.
Parasita celulas do Sistema Fagocitico Mononuclear (SFM): macrofagos (celula principal), celulas dendriticas e monocitos. Os neutrofilos sao a primeira linha de defesa e servem de abrigo inicial (“Cavalo de Troia”).
A maioria das especies de Leishmania e sensivel a temperatura interna (~37 °C) do hospedeiro vertebrado. Evolutivamente, o parasito e adaptado ao inseto vetor, nao ao sangue quente.
L. donovani e L. infantum evoluiram para suportar a temperatura central do corpo, permitindo migrar da pele para as visceras.
- Retarda a fusao fagolisossomo (via LPG) — mecanismo transitorio que da tempo para diferenciacao em amastigota. A amastigota sobrevive no fagolisossomo maduro usando a GP63.
- Bloqueia processamento e apresentacao de antigenos via MHC-II — a celula migra carreando o parasito silenciosamente.
- Inibe a apoptose do macrofago — regula enzimas de reparo de DNA e inibe proteinas pro-apoptoticas (Bad, Bax), garantindo sobrevivencia e replicacao intracelular.
- Orgao naturalmente anti-inflamatorio (perfil tolerogenico) — tudo que vem pelo sistema portal e potencialmente impuro; reage pouco para nao inflamar constantemente.
- Fase aguda: macrofagos suscetiveis ao parasito (ambiente ideal inicialmente).
- Fase cronica (6-8 semanas): o figado recruta celulas T, monocitos e neutrofilos, montando uma resposta granulomatosa eficiente que controla o parasito (diferente do baco e medula).
- Resultado: hepatomegalia — por hiperplasia/hipertrofia das celulas de Kupffer + infiltrado inflamatorio difuso.
- Macrofago esplenico e ativado para atacar. Reage intensamente ao parasito.
- O figado controla a infeccao apos ~6 semanas, mas o baco falha: a carga parasitaria aumenta progressivamente e a infeccao cronifica.
- Esplenomegalia macica: causada primariamente por hiperplasia celular (multiplicacao) e hipertrofia de macrofagos e celulas plasmaticas densamente parasitados.
- Desorganizacao estrutural: remodelamento vascular, deplecao das areas T dependentes, exaustao de celulas T.
- Hiperesplenismo: baco destroi hemácias, leucocitos e plaquetas em excesso (sequestra ~1/3 do pool de plaquetas).
- Local de formacao do monocito (precursor do macrofago). Celulas precursoras ainda nao diferenciadas, sem maquinaria de defesa.
- Um dos locais onde o parasito melhor se multiplica.
- Desregulacao da hematopoese: evolui de hiperplasia reativa → hipoplasia → aplasia.
- Consequencia: pancitopenia severa (anemia + leucopenia + trombocitopenia) → hemorragias e infeccoes secundarias fatais.
| Figado | Baco | Medula | |
|---|---|---|---|
| Perfil | Anti-inflam. | Pro-inflam. | Imaturidade |
| Fase cronica | Controla (granuloma) | Falha (cronifica) | Falha (aplasia) |
| Resultado | Hepatomegalia | Esplenomegalia macica | Pancitopenia |
Macrofagos existem em todo o corpo. Pode haver tosse (pneumonite) e diarreia, especialmente exuberantes em pacientes coinfectados Leishmania-HIV.
1. Figado — perfil tolerogenico inicial, depois controla com granuloma.
2. Baco — reage intensamente, falha, esplenomegalia macica.
3. Medula ossea — precursores indefesos, desregulacao da hematopoese → pancitopenia.
| Resposta | Papel | Mecanismo |
|---|---|---|
| Th1 | Protetora p/ hospedeiro | CD4+ helpers secretam IFN-γ → ativacao de macrofagos → destruicao do parasito |
| Th2 | Protetora p/ parasito | Resposta humoral ineficaz + inibicao da ativacao macrofagica |
A gravidade e proporcional a carga parasitaria. Mais parasitos → mais citocinas produzidas localmente em orgaos muito vascularizados → tempestade de citocinas (IL-6, TNF-α, IL-1β) → efeitos sistemicos patologicos.
A IL-6 possui receptores em quase todos os tecidos e serve como modelo didatico para entender a sintomatologia sistemica.
IL-6 → Febre
- IL-6/TNF-α/IL-1β alcancam os orgaos circumventriculares do hipotalamo.
- Induzem sintese de prostaglandina E2 → altera o ponto de ajuste termorregulador.
- L. infantum resiste a febre (ja suporta ~37°C). Ciclo vicioso: corpo aumenta temp → parasito persiste → mais IL-6.
- Febre perde funcao protetora → hipertermia danosa.
IL-6 → Caquexia
- IL-6, TNF-α, IL-1β agem no centro de saciedade (hipotalamo) → anorexia.
- Resposta de fase aguda + hormonios contrarreguladores (cortisol, glucagon, catecolaminas) → hipercatabolismo.
- Degradacao de proteinas musculares para liberar aminoacidos para sintese hepatica de proteinas de fase aguda.
- Resultado: perda de massa muscular, caquexia.
IL-6 → CIVD
- Superprodução de IL-6 → superexpressao de fator tecidual no endotelio → ativa via extrinseca da coagulacao.
- CIVD: multiplos microtrombos → consome fatores de coagulacao + plaquetas.
- Paradoxo: hemorragias por esgotamento dos fatores. Risco de AVC, embolia.
- Agravado por trombocitopenia do hiperesplenismo e pancitopenia medular.
“Kala-azar” — do hindu kala (negro) + persa azar (febre/doenca). Refere-se a hiperpigmentacao cutanea da fase ativa sistemica na Asia (L. donovani).
PKDL (Leishmaniose Dermica Pos-Calazar): na L. donovani, parasito retorna a pele apos tratamento. Na L. infantum, pode ocorrer em HIV (ou por IRIS apos terapia antirretroviral).
Nao e apenas anemia — e pancitopenia: eritrocitos ↓, plaquetas ↓, leucocitos ↓. Origem multifatorial: hiperesplenismo + hemolise imunologica + desregulacao medular.
Leucopenia: neutrofilos e eosinofilos muito reduzidos → na formula relativa aparece linfomonocitose relativa (achado caracteristico). Aneosinofilia mesmo com helmintoses concomitantes.
- Hemograma: pancitopenia (anemia + leucopenia com linfomonocitose relativa + trombocitopenia)
- Aneosinofilia (muito caracteristica, mesmo com helmintoses concomitantes)
- Hipergamaglobulinemia policlonal, hipoalbuminemia
| Metodo | Sensibilidade | Status |
|---|---|---|
| Aspirado esplenico | 90-95% | Padrao-ouro em sensibilidade, mas risco alto (hemorragia/ruptura esplenica) |
| Aspirado de medula ossea | ~80% | Escolha primaria na rotina (mais seguro) |
| Biopsia hepatica | Baixa | Contraindicada (risco + baixa sensibilidade por resposta granulomatosa) |
IFI, ELISA, rK39 — uteis para triagem e acompanhamento epidemiologico. Com sintomatologia + pancitopenia em area endemica, a sorologia pode ser suficiente para iniciar tratamento.
| Droga | Mecanismo | Problemas |
|---|---|---|
| Antimonial pentavalente (Glucantime) | Metabolismo energetico do parasito + estimula macrofagos | Cardiotoxicidade |
| Anfotericina B lipossomal | Lesao na membrana do parasito. Lipossomas fagocitados → droga entregue diretamente na celula infectada | Forma convencional e nefrotoxica; lipossomal reduz toxicidade |
| Anfotericina B desoxicolato | Idem acima (sem lipossoma) | Nefrotoxicidade importante |
| Pentamidina | Interfere no metabolismo do parasito | 2ª escolha. Toxicidade pancreatica |
| Miltefosina | Via oral (1° farmaco oral) | Teratogenica. Uso tambem veterinario → risco de resistencia cruzada |
- Gestantes
- Extremos de idade: < 1 ano e > 50 anos
- Coinfeccao HIV / imunossupressao severa
- Escore de gravidade clinico-laboratorial elevado
- Comprometimento cardiaco (contraindica antimonial)
- Nenhum tratamento garante eliminacao completa — parasito em vacuolos intracelulares, protegido.
- Cura clinica ≠ cura parasitologica — parasito pode persistir latente.
- No humano: residuo parasitario sem problema epidemiologico (nao transmite — exceto HIV+).
- No animal: parasito residual = problema → animal continua como reservatorio potencial.
| Fase | Conduta | Resultado |
|---|---|---|
| Anterior | Eutanasia de caes soropositivos | Doenca nao diminuiu (medida isolada/descontinua) |
| Transicao | Proibicao de tratar com mesmas drogas humanas | Evitar resistencia |
| Atual | Miltefosina (Milteforan) liberada para caes | Risco: miltefosina tambem e usada em humanos mundialmente → possivel resistencia cruzada |
Cao tratado deve usar repelente pelo resto da vida (coleira de deltametrina) para quebrar o ciclo.
| Humano (L. infantum) | Cao (L. infantum) | |
|---|---|---|
| Doenca | Visceral | Visceral + Cutanea simultanea |
| Parasito na pele | Pode estar presente (inclusive em pele sa) | Sim — intenso e persistente |
| Infecta o vetor? | Nao (exceto HIV+) | Sim |
| Reservatorio? | Nao (exceto HIV+) | Sim — principal urbano |
Sinais no cao: emagrecimento, febre, esplenomegalia + lesoes cutaneas, descamacao, onicogrifose.
| Tegumentar | Visceral | |
|---|---|---|
| Idade | Adultos (produtiva) | Criancas < 10 anos (41% < 5a) |
| Sexo | Masculino | Masculino (~60-61%) |
| Motivo | Exposicao ocupacional/lazer | Sistema imune imaturo |
| Ambiente | Silvestre, rural e urbano | Silvestre, rural e urbano |
Ambas as formas (LT e LV) possuem transmissao urbana confirmada.
Roedores, marsupiais (gambas), canideos silvestres (cachorro-do-mato, raposa-do-campo). A coevolucao de milhoes de anos permite equilíbrio em algumas especies, mas nao em todas: a raposa-do-campo (Dusicyon vetulus) adoece gravemente, com alopecia e paresia.
- Principal vetor de L. infantum no Brasil — o mais adaptado ao peridomicilio urbano.
- ~5 dias apos ingestao de sangue infectado: formas promastigotas metaciclicas + gel PSG obstrui esfago/valvula estomodeal → vetor regurgita parasitos na picada.
- Nao ha transmissao transovariana — todo flebotomineo infectado adquiriu o parasito por alimentacao.
- LV e doenca oportunista em HIV+.
- Letalidade aumenta significativamente.
- Quadro atipico: acometimento cutaneo, respiratorio, GI.
- HIV+ pode ter parasitos na pele → potencial reservatorio humano.
- Sorologia frequentemente falso-negativa.
| Estrategia | Status | Observacao |
|---|---|---|
| Repelente no cao | Ativa / principal | Coleira de deltametrina ou topicos |
| Dx/Tx precoce humano | Ativo | Reduz letalidade (nao transmissao) |
| Combate ao vetor | Ativo/dificil | Borrifacao residual (piretroides) + limpeza peridomiciliar |
| Protecao individual | Ativa | Telas, mosquiteiros malha fina, repelentes |
| Vacina canina (Leish-Tec) | Suspensa (2023) | MAPA suspendeu por desvios de conformidade na fabricacao |
| Vigilancia de caes de rua | Essencial | Sem vigilancia = ciclo mantido |
Foco duplo: Prevencao → controle do reservatorio canino + vetor. Tratamento → foco no ser humano (reduzir letalidade).
Caes domiciliados (com dono) em peridomicilio tambem apresentam altissimas taxas de infeccao. A atencao nao deve ser apenas aos caes de rua.
- Trombocitopenia isolada (dengue) vs pancitopenia (LV) — o diferencial laboratorial decisivo.
- Febre > 14 dias em area endemica → investigar LV. Febre viral = aguda, max 1-2 semanas.
- Aspirado esplenico (mais sensivel, 90-95%) vs aspirado medular (mais seguro, rotina, ~80%). Biopsia hepatica: nao serve (granuloma reduz parasitos).
- Figado controla a infeccao (granuloma, 6-8 sem.) vs baco e medula falham (infeccao cronifica).
- L. infantum (Brasil) vs L. donovani (Velho Mundo): PKDL classica e de L. donovani. L. infantum: PKDL-simile apenas em HIV/IRIS.
- Cura clinica ≠ cura parasitologica — parasito pode persistir latente intracelularmente.
- A evasao imune central nao e Th2 pura: depende de Tregs + macrofagos M2 (IL-10, TGF-β), que suprimem IFN-γ e desativam macrofagos.
- A Leishmania nao produz toxinas — toda a patologia sistemica (febre, caquexia, CIVD) e mediada pela propria resposta imune desregulada do hospedeiro (tempestade de citocinas).
- O parasito nao se desloca ativamente: "pega carona" no transito fisiologico de celulas dendriticas/macrofagos, subvertendo-as (bloqueia MHC-II, inibe apoptose, retarda fusao fagolisossomo via LPG/GP63).
- O sequestro de ferro (IL-6 → hepcidina → inibicao da ferroportina) e mecanismo precoce e central da anemia, mas nao isolado — hiperesplenismo e aplasia medular sao criticos na fase avancada.
- Caes assintomaticos (40-60%) transmitem tanto quanto sintomaticos — parasitismo cutaneo intenso mesmo sem sinais clinicos.
- Nao esperar 2 meses de febre para suspeitar de LV. Febre > 14 dias + hepatoesplenomegalia + area endemica = investigar imediatamente.
- Em HIV+: quadro clinico atipico (GI, respiratorio, cutaneo), sorologia falso-negativa, amastigotas visiveis no sangue periferico. Especies dermotrópicas podem visceralizar.
- Anfotericina B lipossomal como 1ª escolha obrigatoria em: gestantes, <1 ano, >50 anos, HIV+, escore de gravidade alto. NAO apenas por funcao cardiaca/renal.
- Nao confundir o cao como "barreira de protecao" — ele e um amplificador do parasito no peridomicilio, aumentando o risco para humanos coabitantes.
- Miltefosina veterinaria = risco grave de resistencia cruzada com uso humano mundial. Ponto critico de saude publica.
- Hematologia: eixo IL-6/hepcidina/ferroportina = modelo de anemia de doenca cronica (aplica-se a outras infeccoes e doencas inflamatorias).
- Imunologia: eixo Th1/Th2/Treg e paradigma de evasao parasitaria (inibicao de apoptose, subversao de MHC-II, inducao de IL-10/TGF-β).
- Fisiopatologia: CIVD por tempestade de citocinas — mecanismo analogo a sepse e COVID-19 grave (IL-6 central em ambas).
- Saude Publica: modelo de doenca re-emergente por urbanizacao + mudancas climaticas + interface animal-humano (conceito One Health).
- Farmacologia: anfotericina B lipossomal = modelo de drug delivery direcionado (lipossomas fagocitados → droga entregue intracelularmente).
- Parasitologia geral: "Cavalo de Troia" (neutrofilo como abrigo inicial) — evasao comum a outros patogenos intracelulares.
| Termo | Definicao |
|---|---|
| SFM | Sistema Fagocitico Mononuclear (monocitos, macrofagos, Kupffer, dendriticas) |
| Hepcidina | Hormonio hepatico que inibe ferroportina → retem ferro nos macrofagos |
| Ferroportina | Transportador de ferro na membrana celular |
| CIVD | Coagulacao Intravascular Disseminada |
| PKDL | Leishmaniose Dermica Pos-Calazar (parasito retorna a pele) |
| Hiperesplenismo | Atividade excessiva do baco → destroi celulas sanguineas |
| Onicogrifose | Crescimento exagerado/curvo das unhas — sinal classico no cao |
| Viscerotropismo | Capacidade de migrar e instalar-se em visceras |
| LPG / GP63 | Fatores de virulencia: LPG retarda fusao fagolisossomo; GP63 degrada enzimas lisossomais |
| Tregs | Celulas T reguladoras (secretam IL-10, TGF-β) — suprimem resposta protetora |
| IRIS | Sindrome Inflamatoria de Reconstituicao Imune (apos antirretrovirais) |