Anatomia Topográfica · Prancha torácica

Anatomia Clínica do Tórax

Paredes, pleura, pulmões e coração em leitura de prova: limites, trajetos, procedimentos, fisiopatologia e pegadinhas corrigidas do review.

I
Aula 1
Tórax como caixa clínica: semiologia, acessos e estruturas vitais.
Semestre
2026.1
Uso
Revisão mobile
Mapa da prancha

O tórax como território de risco

Limites
Caixa óssea + diafragma

O tórax liga pescoço/cabeça ao abdome e abriga pulmões, coração e grandes vasos. O material delimita a região por 12 vértebras, 12 pares de costelas e, inferiormente, o diafragma.

Clínica
Trauma e procedimentos

É região de toracocentese, drenagem pleural, pericardiocentese, toracotomia e esternotomia. A parede não é só “parede”: ela contém feixe vasculonervoso.

Semiologia
Inspeção, palpação, percussão, ausculta

Os achados de expansão, sons de percussão e focos de ausculta amarram anatomia com raciocínio clínico.

Correção-chave

Na abertura superior, as estruturas nobres se relacionam intimamente com o ápice do pulmão e a cúpula da pleura, não com o ápice cardíaco. O ápice do coração fica ântero-inferior à esquerda.

01 · Paredes e aberturas

Portas do tórax

AberturaSuperior
LimitesT1 posteriormente; 1ª costela lateralmente; parte superior do manúbrio anteriormente.
FunçãoPassagem entre pescoço e tórax; relação com ápice pulmonar e pleura cervical.
AberturaInferior
LimitesT12 posteriormente; 11ª e 12ª costelas póstero-laterais; cartilagens 7ª-10ª ântero-laterais; processo xifoide anteriormente.
FunçãoTransição tóraco-abdominal fechada pelo diafragma.
T1 · 1 · M / T12 · 11-12 · 7-10 · X“Em cima, T1 encontra a primeira e o manúbrio; embaixo, T12 chama 11-12, rebordo 7-10 e xifoide.”

Gatilho espacial: abertura superior é um anel pequeno e nobre; abertura inferior é ampla e muscular, tampada pelo diafragma.

Semiologia inicial

Inspeção + palpação

Observar expansão equivalente dos dois hemitórax, assimetria por trauma, fratura de clavícula ou pneumotórax. Palpar ossos e espaços intercostais ajuda a localizar ausculta e procedimentos.

Percussão

Som claro pulmonar é esperado no pulmão aerado. Macicez sugere estrutura sólida/cheia, como fígado, derrame ou consolidação. Timpanismo/hipertimpanismo no tórax é anormal e faz pensar em pneumotórax.

Prova

Se o tórax deveria soar claro e aparece hipertimpanismo, pense: “o pulmão não está ali como deveria”. A percussão também ajuda a perceber pulmão rebaixado ou hepatomegalia.

02 · Feixe, artérias e veias

A parede torácica tem trilhas obrigatórias

Feixe V.A.N.
Veia · Artéria · Nervo

Na borda inferior de cada costela, no sulco costal, o feixe corre de superior para inferior como V.A.N.. A revisão acrescenta a relação precisa: entre os músculos intercostais interno e íntimo.

Procedimentos
Puncionar pela borda superior

Toracocentese e drenagem devem atravessar pela borda superior da costela inferior, preservando o V.A.N. da borda inferior da costela superior.

VAN fica “embaixo”“Por cima eu livro; por baixo eu pego.”

Imagine a costela como uma prateleira: o feixe está pendurado na borda inferior. A agulha entra sobre a prateleira de baixo.

Artérias da parede

TerritórioIntercostais posteriores
Origem3ª à 11ª vêm da aorta torácica.
PegadinhaPrimeiros espaços recebem artéria intercostal suprema, de origem subclávia.
TerritórioIntercostais anteriores
OrigemArtéria torácica interna.
PegadinhaA torácica interna é ramo da subclávia.
MamaGlândula mamária
IrrigaçãoTorácica interna citada como principal; torácica lateral e torácica superior também são destacadas no material.
PegadinhaTorácica lateral e superior são ramos da artéria axilar; intercostais auxiliam sobretudo posteriormente.

Sistema ázigos: estudar lado por lado

Direita posterior

Intercostais posteriores drenam principalmente para a ázigos, que nasce da lombar ascendente direita + subcostal direita e desemboca na cava superior. Exceção: veia intercostal suprema direita drena para a braquiocefálica.

Esquerda superior

1º ao 3º espaço intercostal esquerdo drenam diretamente para a subclávia ou braquiocefálica, por variação individual.

Esquerda média/inferior

4º ao 8º espaço: hemiázigos acessória. 9º ao 11º: hemiázigos. Elas cruzam o mediastino e drenam para a ázigos em T7-T9.

Direita desce simples; esquerda atravessa“Esquerda faz escala: 1-3 sobem, 4-8 acessória, 9-11 hemi; no fim cruza para a ázigos.”
03 · Acessos cirúrgicos e punções

Entrar no tórax sem errar o plano

Toracotomia

Incisão entre espaços intercostais, com afastador mecânico, para abrir a cavidade e acessar lateralmente o conteúdo torácico. Caso relatado: acesso aproximado no 3º-5º espaço intercostal.

Esternotomia

Serra longitudinal do esterno para abrir o mediastino, usada em cirurgias cardíacas, como revascularização com safena.

PunçãoToracocentese
IndicaçãoRetirar líquido do derrame pleural ou aliviar pneumotórax.
TécnicaEstéril; linha axilar anterior ou abordagem posterior abaixo da linha escapular; borda superior da costela inferior; anestésico local; cateter e bolsa coletora.
PunçãoPericardiocentese
IndicaçãoDrenar líquido/sangue no tamponamento cardíaco.
TécnicaEntre apêndice xifoide e rebordo costal esquerdo, avançando em direção ao pericárdio.
Complicação cobrada

Edema pulmonar de reexpansão: retirada rápida ou em grande volume do líquido pleural pode reperfundir tecido pulmonar previamente colapsado, gerar estresse oxidativo, radicais livres, inflamação, aumento de permeabilidade e extravasamento de líquido para alvéolos. Conduta: drenar devagar e em pequeno volume por sessão.

04 · Ausculta cardíaca e pulmonar

Ouvir pela topografia

Ângulo de Louis

O ângulo esternal marca a articulação da 2ª costela com sua cartilagem; o 2º espaço intercostal fica imediatamente abaixo. Use isso como régua para os focos.

FocoAórtico
Local2º EIC direito, ao lado do esterno.
OuveFechamento da valva aórtica.
FocoPulmonar
Local2º EIC esquerdo, ao lado do esterno.
OuveFechamento da valva pulmonar.
FocoTricúspide
LocalCerca de 5º EIC esquerdo, próximo ao esterno.
OuveValva tricúspide.
FocoMitral
LocalÁpice cardíaco: 5º EIC esquerdo, linha hemiclavicular.
OuveValva mitral; pode melhorar em decúbito lateral esquerdo.
A-P-T-M“A direita abre a Aorta; Pulmão fica à esquerda; Tricúspide desce para o esterno; Mitral mora no ápice.”

A revisão prefere “valvas” para as estruturas completas, em vez de “válvulas”.

Ausculta pulmonar em escada

  1. Descruzar braços e soltar ombros.
  2. Evitar auscultar sobre a escápula; desviar lateralmente.
  3. Comparar direito x esquerdo em sequência.
  4. Passar por ápice, terço superior, terço médio e base.
  5. Auscultar hemitórax lateral abaixo da axila e pedir respiração profunda pela boca.
05 · Pleura, derrame e pneumotórax

Espaços virtuais que viram problema real

Pleura parietal

Reveste a parede interna da cavidade torácica. O material subdivide em partes costal, mediastinal, diafragmática e cervical/cúpula.

Pleura visceral

Colada diretamente ao pulmão e refletida no hilo pulmonar. Entre as pleuras há cavidade pleural virtual com pequeno volume de líquido seroso.

Recessos

Costodiafragmático: entre costelas e diafragma. Costomediastinal: entre costelas e mediastino. O apagamento dos recessos em imagem indica derrame pleural ou pneumotórax.

Derrame pleural

Acúmulo anormal de líquido na cavidade pleural. Pode ser sangue (hemotórax), pus (empiema), transudato ou exsudato. No raio X: apagamento do seio costodiafragmático do lado acometido.

Pneumotórax: ar entra no espaço pleural.
Pressão intrapleural deixa de ser negativa e se iguala ao meio externo.
O pulmão perde a força que o mantinha expandido e colaba.
Tratamento: drenagem torácica em selo d'água; toracocentese de alívio pode retirar ar inicialmente.
Pleura: parede vs pulmão“Parietal pinta a parede; visceral veste a víscera.”
06 · Pulmões e pericárdio

Dois pulmões, um coração e duas cavidades serosas

Pulmão direito
3 lobos · 2 fissuras

Lobos superior, médio e inferior. Fissuras oblíqua e horizontal.

Pulmão esquerdo
2 lobos · 1 fissura

Lobos superior e inferior, fissura oblíqua, incisura cardíaca e língula.

D tem “dois cortes”; E economiza espaço“Direito é maior: 3 lobos e 2 fissuras. Esquerdo abre vaga para o coração: incisura e língula.”

Pericárdio

Fibroso

Camada externa, espessa, protetora; reduz forças de distensão durante respiração e batimentos.

Seroso

Camada interna com lâminas parietal e visceral, esta também chamada epicárdio. Entre elas há cavidade pericárdica virtual com líquido lubrificante.

07 · Tamponamento, câmaras e coronárias

Quando anatomia vira hemodinâmica

Tríade de Beck

Hipotensão arterial + turgência jugular + abafamento de bulhas cardíacas. No tamponamento, o líquido no espaço pericárdico comprime o coração e impede especialmente a diástole ventricular.

Causas

Trauma com lesão vascular e sangramento intrapericárdico; infarto extenso não tratado com ruptura de parede ventricular; processos neoplásicos; processos inflamatórios/infecciosos.

Tratamento

Pericardiocentese por punção entre xifoide e rebordo costal esquerdo. ATLS recente também contempla abordagem via toracotomia, mais invasiva.

Coração interno

Câmaras

Átrio direito, átrio esquerdo, ventrículo direito e ventrículo esquerdo. Na vista anterior, predomina o ventrículo direito; átrios ficam mais posteriores e à direita.

Papilares

Músculos papilares anteriores e posteriores conectam-se às cordas tendíneas das valvas atrioventriculares. Infarto com necrose papilar pode causar insuficiência valvar, como insuficiência mitral isquêmica.

Coronárias

OrigemCoronárias
Onde nascemAorta ascendente, logo após a valva aórtica.
DivisãoCoronária direita e coronária esquerda.
EsquerdaRamos
NomenclaturaRamo interventricular anterior e ramo circunflexo.
TerritórioPredomina no ventrículo esquerdo; em ~40% contribui para nó AV.
DireitaRamos
Ramos destacadosRamo marginal direito e ramo interventricular posterior.
TerritórioPredomina no ventrículo direito, parede inferior e nós SA/AV em ~60%.
SA/AV gostam da direita“Se o nó dá arritmia no infarto, olhe para a coronária que costuma alimentá-lo: a direita.”
Drenagem venosa cardíaca

Principal via: seio coronário. O review também cita veia cardíaca magna e parva; a revisão acrescenta veia interventricular posterior, veias anteriores do ventrículo direito, veia oblíqua do átrio esquerdo e veia ventricular esquerda posterior.

08 · Infarto agudo do miocárdio

Da placa ao evento clínico

Diabetes mal controlada mantém inflamação endotelial de base.
Hipercolesterolemia deposita colesterol no endotélio inflamado e forma placas ateroscleróticas.
Hipercoagulabilidade, favorecida pelo diabetes, aumenta risco trombótico.
Hipertensão arterial pode romper placa de ateroma.
Placa rompida gera trombose local ou embolização, oclui coronária e causa infarto. Em território cerebral, o mecanismo pode causar AVC isquêmico.
Clínica clássica

Dor retroesternal em aperto, sudorese, irradiação para MSE, mandíbula ou epigástrio, e angústia com sensação de morte iminente.

Isquemia silenciosa

Especialmente em diabéticos de longa data, pode haver coronariopatia grave sem dor. Caso relatado: múltiplas coronárias quase obstruídas, achadas em exame de rotina; tratamento com angioplastia e stents.

Agravantes

Tabagismo potencializa placas ateroscleróticas. Sedentarismo e controle inadequado de HAS, DM e dislipidemia agravam o risco.

09 · DIJC

Cenários prováveis de prova

Diagnóstico · Investigação · Justificativa · Conduta. Todos os cenários abaixo derivam diretamente dos temas do review.

DIJCPneumotórax no trauma

Hipertimpanismo unilateral após trauma

D: suspeitar de pneumotórax. I: percussão com som timpânico/hipertimpânico onde deveria haver som claro pulmonar, assimetria de expansão e ausculta comparativa. J: entrada de ar no espaço pleural perde pressão negativa e colaba o pulmão. C: drenagem torácica em selo d'água; toracocentese de alívio pode retirar ar inicialmente.

DIJCDerrame pleural

Raio X com apagamento do seio costodiafragmático

D: derrame pleural é clássico, mas a revisão lembra que apagamento de recessos pode indicar também pneumotórax. I: imagem e percussão, procurando macicez quando há líquido. J: líquido ocupa cavidade pleural virtual e apaga recessos. C: toracocentese estéril se indicada, sempre preservando V.A.N.

DIJCEdema de reexpansão

Piora após drenagem pleural rápida

D: edema pulmonar de reexpansão. I: história de retirada rápida ou grande volume em pulmão colapsado há tempo. J: reperfusão súbita gera estresse oxidativo, inflamação e aumento de permeabilidade com líquido alveolar. C: drenar lentamente e em pequeno volume por sessão.

DIJCTamponamento

Hipotensão, jugular túrgida e bulhas abafadas

D: tamponamento cardíaco. I: reconhecer a tríade de Beck. J: líquido pericárdico comprime o coração e impede diástole ventricular adequada. C: pericardiocentese entre xifoide e rebordo costal esquerdo; toracotomia é opção ATLS mais invasiva.

DIJCIAM silencioso

Diabético com coronárias críticas e sem dor

D: isquemia silenciosa/coronariopatia grave. I: lembrar que ausência de dor não exclui doença em diabético de longa data. J: diabetes mal controlada inflama endotélio, favorece placa e hipercoagulabilidade. C: no caso relatado, angioplastia com stents.

10 · Caixa de memória anatômica

Mnemônicos para Anatomia Topográfica

VAN“Veia vai em cima, nervo fica no risco.”

Ordem superior-inferior na borda inferior da costela: veia, artéria, nervo.

P.P. 4 partes“Co-Me-Dia-Ce”

Pleura parietal: Costal, Mediastinal, Diafragmática, Cervical.

Beck“Baixa pressão, veia alta, som baixo.”

Hipotensão + turgência jugular + bulhas abafadas.

Focos“Aorta direita, pulmão esquerda; T perto do osso, M no ápice.”

Aórtico 2º EIC direito; pulmonar 2º EIC esquerdo; tricúspide 5º EIC paraesternal; mitral no ápice.

Pulmões“Direito é generoso; esquerdo cede espaço.”

Direito: 3 lobos e 2 fissuras. Esquerdo: 2 lobos, 1 fissura, incisura e língula.

Ázigos“Direita desce reto; esquerda cruza para voltar.”

A drenagem posterior esquerda passa por hemiázigos/acessória e cruza ao sistema ázigos.

11 · Checklist final

22 pontos para não perder

Abertura superior: T1, 1ª costela e manúbrio; relação com ápice pulmonar e cúpula pleural.
Abertura inferior: T12, 11ª-12ª costelas, cartilagens 7ª-10ª e xifoide; diafragma fecha.
V.A.N. corre na borda inferior da costela, entre intercostais interno e íntimo.
Punções pleurais entram pela borda superior da costela inferior.
Percussão: claro pulmonar normal; maciço em líquido/sólido; hipertimpanismo sugere pneumotórax.
Intercostais posteriores 3ª-11ª vêm da aorta; primeiros espaços recebem intercostal suprema da subclávia.
Drenagem direita posterior tende à ázigos, com exceção da intercostal suprema direita para braquiocefálica.
Esquerda: 1º-3º para subclávia/braquiocefálica; 4º-8º acessória; 9º-11º hemiázigos.
Drenagem anterior bilateral: intercostais anteriores → torácica interna → braquiocefálica → cava superior.
Mama: torácica interna é principal; torácica lateral e superior são importantes; intercostais ajudam posteriormente.
Toracotomia é intercostal; esternotomia abre o esterno e o mediastino.
Ângulo esternal marca 2ª costela; 2º EIC fica abaixo.
Focos: aórtico 2º EIC direito; pulmonar 2º EIC esquerdo; tricúspide 5º EIC paraesternal; mitral no ápice.
Ausculta pulmonar: escada comparativa, sem auscultar sobre a escápula, incluindo lateral abaixo da axila.
Pleura parietal tem partes costal, mediastinal, diafragmática e cervical; visceral reflete no hilo.
Apagamento de recessos em imagem indica derrame pleural ou pneumotórax.
Pneumotórax: perda da pressão negativa intrapleural e colapso pulmonar.
Toracocentese rápida ou volumosa pode causar edema de reexpansão.
Pulmão direito: 3 lobos, 2 fissuras. Esquerdo: 2 lobos, 1 fissura, incisura e língula.
Tamponamento: tríade de Beck e diástole ventricular impedida.
Coronária esquerda: ramo interventricular anterior e ramo circunflexo; direita: marginal direito e interventricular posterior.
IAM: diabetes + dislipidemia + HAS + hipercoagulabilidade; diabéticos podem ter isquemia silenciosa.
Glossário rápido

Termos que organizam a revisão

ÁzigosSistema venoso que leva drenagem posterior torácica à veia cava superior.
Hemiázigos/acessóriaVias esquerdas que cruzam o mediastino e drenam na ázigos.
Derrame pleuralLíquido anormal entre pleuras parietal e visceral.
PneumotóraxAr na cavidade pleural com colapso pulmonar.
ToracocentesePunção da cavidade pleural para drenagem ou alívio.
PericardiocentesePunção do pericárdio para drenar líquido ou sangue.
HipertimpanismoSom excessivamente timpânico no tórax; pensar em pneumotórax.
Isquemia silenciosaCoronariopatia grave sem dor, especialmente em diabéticos.