Sr. Carlos, 55— ou: como uma vida inteira de álcool se conta em primeira pessoa, do divórcio à hepatopatia, da solidão à reconstrução.
Atividade prática conduzida à beira-leito, no Hospital Tarcísio Maia, com paciente internado por complicações do alcoolismo crônico. A entrevista, conduzida pelos estudantes de medicina, expõe na própria voz do Sr. Carlos os conceitos centrais da dependência química — insight, recaída, codependência familiar — e desenha um caso paradigmático para a Psicologia Médica.
A toxicodependência, independente de ser droga lícita ou ilícita, é uma doença.Sr. Carlos · paciente entrevistado
Sumário
XX capítulos- I.Apresentação do caso & enquadramentoEntrevista
- II.Concepção do paciente sobre o alcoolismoNarrativa
- III.Toxicodependência como doençaDSM-5
- IV.Início e trajetória do usoCronologia
- V.Internações e tratamentosHistórico
- VI.Internação atual · H. Tarcísio MaiaClínica
- VII.Comorbidades & particularidadesClínica
- VIII.Modelo da recaídaCadeia
- IX.Gatilhos & autoconhecimentoEixo
- X.Estratégias de enfrentamentoRotina
- XI.Codependência emocional & familiarSistema
- XII.Modelo biopsicossocial-espiritualBPS-E
- XIII.Rede de apoio familiarVínculos
- XIV.Trajetória profissionalEstresse
- XV.Plano pós-altaProjeto
- XVI.Avaliação da internaçãoRapport
- XVII.Encerramento da entrevistaVínculo
- XVIII.Síntese clínica do casoDiagnóstico
- XIX.Cenários de prova · DIJCTreino
- XX.Pontos-chave & glossárioResumo
Apresentação do caso & abertura da escuta
A primeira tarefa do entrevistador não é diagnosticar — é fazer-se digno de receber a narrativa do outro.
1.1 Apresentação dos estudantes
A entrevista é aberta de modo cordial. O estudante (Leo Zenon) se identifica junto com colegas e explicita o objetivo da conversa, pedindo consentimento antes de qualquer aproximação clínica.
Note o cuidado ético na abordagem: pedido explícito de consentimento ("se o senhor tiver disponibilidade para conversar um pouquinho com a gente"). Esse é o primeiro pilar da entrevista clínica em Psicologia Médica — respeitar a autonomia do paciente internado.
A literatura recomenda que o protocolo ideal de apresentação inclua, além da identificação como acadêmico de medicina e do pedido de autorização, informar explicitamente o ano (ou período) que cursa. Garante transparência: o paciente muitas vezes desconhece as qualificações dos estudantes e o que estão autorizados a fazer.
Fonte: Psicologia Médica · Aula Relação Médico-Paciente · Entrevista Clínica
1.2 Pergunta inicial aberta
A condução começa com uma pergunta aberta, não diretiva, que permite ao paciente construir a sua própria narrativa antes de qualquer enquadramento técnico.
O Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) distingue doença (disease — patologia biomédica) de enfermidade (illness — manifestação subjetiva e significado do sofrimento). A pergunta aberta explora justamente a experiência da enfermidade: medos, ideias e expectativas antes do direcionamento técnico.
Concepção do paciente sobre o alcoolismo
A definição que emerge é psicossocial — não farmacológica.
2.1 Visão pessoal do Sr. Carlos
O paciente define alcoolismo a partir de uma leitura psicossocial:
- "Algo que pode estar associado a uma necessidade da pessoa."
- A pessoa "está utilizando alguma substância para buscar algo que talvez não esteja encontrando na vida dela no dia a dia."
A percepção do paciente — uso como busca por algo que falta ou alívio de estressores — encontra respaldo fisiopatológico. O DSM-5 explica que, em vez de o indivíduo ativar o sistema de recompensa por meio de comportamentos adaptativos, o uso de drogas ativa diretamente as vias de recompensa, atuando como mecanismo compensatório.
2.2 Experiência familiar com a doença
Sr. Carlos traz, espontaneamente, um relato familiar que ilustra dois conceitos importantes:
Cruzadouso simultâneo de substância lícita (álcool) e ilícita
Pai etilista, com dependência química associada. Padrão cruzado = policonsumo.
"Não percebe o mal"negação como mecanismo central da doença
O pai está em seu primeiro mês de abstinência — o caminho de aceitação foi longo e doloroso.
Mas eu percebo que não é por mal, sabe? Não é uma coisa que ele escolheu passar. Sr. Carlos · sobre o pai
A frase "não é uma coisa que ele escolheu passar" sintetiza a tese central da aula: dependência química é doença, não opção moral.
A literatura define a negação como um mecanismo de defesa inconsciente contra a tomada de consciência da enfermidade. O paciente expulsa da consciência aspectos angustiantes e passa a agir como se não estivesse sob ameaça. No adoecimento crônico e nas dependências, é a principal barreira ao tratamento.
Toxicodependência como doença
Em linguagem leiga, porém precisa: a conceituação biopsicossocial da dependência.
Embora o paciente use os termos "dependência química", "toxicodependência" e "alcoolismo crônico", é importante atualizar a nomenclatura. O DSM-5 eliminou as antigas categorias de "abuso" e "dependência", substituindo-as pela categoria mais abrangente de "Transtornos por Uso de Substâncias" (no caso, Transtorno por Uso de Álcool, classificado em leve, moderado ou grave).
O manual omite os termos "adição" e "dependência" da terminologia oficial pela definição vaga e conotação negativa.
A síntese de que a dependência é doença, e não escolha, encontra respaldo nas alterações dos circuitos cerebrais de recompensa, que comprometem os mecanismos de inibição e persistem mesmo após desintoxicação. Resultado: autoadministração compulsiva e fissura (craving) incontrolável — comportamento que transcende o controle volitivo ou falha moral.
3.1 Espectro de doenças comportamentais e adições
O paciente equipara o alcoolismo a outras síndromes de dependência reconhecidas pelos grupos de mútua ajuda — "tudo isso é uma doença".
Alcoólicos AnônimosÁlcool
Narcóticos AnônimosDrogas ilícitas
Dep. Amor & SexoDependência afetiva / sexual
Jogos AnônimosJogos de azar / apostas
Comedores CompulsivosCompulsão alimentar
Mútua ajudafenomenologia comum entre adições
Embora o paciente classifique "tudo isso" como doença, a literatura faz uma distinção importante: até o momento, apenas o Transtorno do Jogo tem evidências suficientes para ser incluído na categoria de Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos do DSM-5. Adição sexual não tem evidências suficientes; compulsão alimentar tem classe própria nos Transtornos Alimentares.
3.2 Autodefinição diagnóstica
O paciente se autoclassifica:
- "Etilista crônico recorrente."
- Já experimentou drogas ilícitas — "Usei, mas não gostei."
A autoidentificação denota insight sobre a doença — fator de bom prognóstico. Na Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers, o insight ocorre quando a pessoa abandona suas defesas e reconhece a situação com clareza, evoluindo para uma nova percepção do "eu".
Início e trajetória do uso
4.1 Idade de início
Aos 10 anos já havia iniciado o consumo de álcool. Aos 55 anos atuais, são ~45 anos de uso acumulado.
O DSM-5 aponta que a idade precoce de início está associada a desenvolvimento mais rápido e curso mais grave do transtorno por uso de álcool, além de altos níveis de impulsividade, desinibição comportamental e problemas de conduta preexistentes.
4.2 Curso clínico — uso social → patológico
4.3 Marco do divórcio e da pandemia
- Casado por 22 anos com a mãe das duas filhas.
- Após separação em 2017, namora "uma garota da mesma idade" por três anos.
- A COVID-19 "acabou com meus projetos, tudo isso fechado".
- Término do relacionamento → vácuo afetivo.
4.4 Sintomas de dependência fisiológica
Sinais clássicos da síndrome de dependência do álcool (CID-10 F10.2):
"Era necessário""Era necessário eu beber. Era necessário."
Tremores"Eu me tremia, se não beber."
Rotina centrada"Eu dormia para beber e acordava para beber."
ComprometimentoVisitas a clientes com "uma caquinha de álcool"
Esses são critérios diagnósticos clássicos: tolerância, abstinência, perda de controle, saliência (a substância passa a organizar o dia), continuação apesar do prejuízo.
Para sistematizar os critérios, o DSM-5 organiza os Transtornos por Uso de Substâncias em quatro grupos funcionais:
- Baixo controle — uso maior que pretendido, fissura
- Deterioração social — comprometimento ocupacional, isolamento
- Uso arriscado — uso mantido apesar do prejuízo persistente
- Critérios farmacológicos — tolerância e abstinência
A fala "Era necessário eu beber. Era necessário." ilustra com precisão um critério formalmente adicionado no DSM-5: a fissura (craving) — desejo intenso ou necessidade impulsiva de usar a droga, que envolve condicionamento clássico e ativação de estruturas de recompensa. A fissura persiste após a desintoxicação e é o principal sinalizador de recaída iminente.
Histórico de internações e tratamentos
5.1 Linha do tempo das internações
5.2 Saída descontrolada da primeira clínica
Após 6 meses de internação voluntária:
- "Bati comigo verbalmente."
- Acusações de roubo dirigidas a familiares próximos: "Coisas que meus irmãos me roubaram, sabe? Minha filha me roubou."
→ Reflete a dor da traição percebida dentro do núcleo de apoio — fenômeno comum em famílias de dependentes.
5.3 Recaídas mesmo com consciência da doença
A consciência cognitiva da doença não previne recaída.
A motivação para mudança precisa ser integral, não apenas racional.
5.4 Experiência com o CAPS-AD
CAPS
Centro de Atenção Psicossocial.
CAPS-AD
Modalidade voltada a álcool e drogas.
→ Crítica importante: o afastamento físico do ambiente de uso é eficaz, mas não substitui a abordagem terapêutica continuada.
Hospital Tarcísio Maia
6.1 Causa da internação · cadeia causal
- 1Consumo etílico intenso e diáriouso ininterrupto de álcool
- ↓
- 2Inanição"não estava conseguindo comer"
- ↓
- 3Perda ponderal acentuadadesnutrição grave
- ↓
- 4Fraqueza muscularmembros inferiores comprometidos
- ↓
- 5Queda no banheirocom fratura óssea no braço
- ↓
- 6Entrada por traumatologiainvestigação revela hepatopatia alcoólica
6.2 Perda ponderal
6.3 Achados laboratoriais
Padrão clássico: AST > ALT e GGT muito elevada.
6.4 Imagem
- Ultrassonografia abdominal: fígado "realmente muito inflamado".
- Ressonância magnética: realizada com acompanhamento da filha mais nova.
6.5 Procedimentos ortopédicos
- Fratura de braço com colocação de placa metálica ("a platinha").
- Limitação importante de mobilidade no início — "Esse braço é quebrado. Eu não tinha como me apoiar."
6.6 Esquema medicamentoso atual
Amitriptilinasintomas depressivos · dor neuropática
Depakeneácido valproico · estabilização
Clonazepamansiedade · manejo da abstinência
Fenitoínaprofilaxia de convulsões
→ "Para evitar minhas convulsões."
Podem decorrer de:
- Síndrome de abstinência alcoólica (até 48 h após cessação)
- Hipoglicemia (relatada pelo paciente)
- Lesão neurológica crônica associada ao etilismo
Comorbidades & particularidades clínicas
7.1 Hipoglicemia
O paciente relata diagnóstico de hipoglicemia com episódios convulsivos prévios:
Conduta autorrelatada:
- Alimenta-se "a cada duas horas".
- Carrega "uma malinha" com alimentos.
- Itens habituais: maçã, suco.
7.2 Cirurgia bariátrica (2013)
Bariátrica realizada em 2013. Importante: o alcoolismo se intensificou após a cirurgia.
Transferência de adição após bariátrica — particularmente com aumento da absorção de álcool e do efeito sobre o SNC.
7.3 Histórico familiar
Forte agregação familiar de mortalidade relacionada ao álcool:
→ Frase que ilustra a permanência do desejo mesmo na fase terminal da doença.
A recaída como processo, não como evento
"A recaída não começa no momento que você leva para a boca. A recaída começa lá no egocentrismo."
8.2 Cadeia da recaída segundo Sr. Carlos
- I Egocentrismoira · egoísmo · ganância · avareza · "você não percebe, cara"
- ↓
- II Obsessão"pelo que você mais quer · relaxar · jogar tudo para o alto · esquecer"
- ↓
- III Compulsão"o primeiro golpe vem automático · você nem sente"
- ↓
- IV Primeiro gole"quando você vai perceber, você já está bebendo"
8.3 Aplicação a outras dependências
O paciente generaliza o modelo para JA (Jogos Anônimos) e DASA, citando o "tigrinho" (jogos de azar online):
E sobre dependência sexual:
→ Comportamento de policonsumo / cruzamento entre dependências.
Gatilhos & autoconhecimento
9.1 Definição do gatilho
9.2 Gatilho central — a solidão
9.3 Origem do problema
O paciente, baseado em sua formação como terapeuta, defende uma tese clara:
→ Recomenda encaminhamento ao psicólogo para investigar fatores precoces.
Estratégias de enfrentamento
10.1 Rotina pré-recaída
Quando estava bem, Sr. Carlos mantinha:
- Escrita diária — autoavaliação do dia anterior + intenção do dia presente + identificação de erros.
- Academia — acordava antes das 4h, treinava às 5h.
- Alimentação leve antes do treino — mamão, banana, achocolatado.
- Café da manhã estruturado.
- Reuniões em grupos de mútua ajuda (AA).
- Meditação, oração e leitura.
10.2 A queda da rotina
- 1Deixou a academia
- ↓
- 2Deixou de escrever
- ↓
- 3Deixou de comer adequadamente
- ↓
- 4Relaxou
- ↓
- 5Começou a beber
A perda dos fatores de proteção (rotina estruturada, espaço social, autorreflexão) precede a recaída material.
10.3 Crítica aos AA
→ Aponta a importância do discurso de recuperação, não apenas do relato do sofrimento, em grupos de mútua ajuda.
10.4 Formação como terapeuta
Terapeuta holístico
Toxicodependênciafoco no dependente
Codependência emocional & familiar"o mais lindo que tem"
Codependência emocional e familiar
11.1 Conceito · duas abordagens
Toxicodependência
Controle de crise, contenção, medicação, internação.
Codependência
Investigação dos vínculos, padrões transgeracionais, papéis disfuncionais.
11.2 Caso clínico ilustrativo
→ Padrão transgeracional: a mãe transferiu para a filha o papel de "doente da família".
11.3 Tese central
Não é possível tratar o dependente isoladamente. Toda a família precisa ser olhada como sistema.
Modelo biopsicossocial-espiritual
A dependência não é apenas doença física. É emocional, social e cultural.
12.1 Quatro dimensões
12.2 Origem na pré-infância
Reforça que a investigação precisa retroceder à pré-infância:
Rede de apoio familiar
13.1 Composição da rede
27 anosgrávida de 7 meses
Não pôde ir ao hospital pelo risco da exposição. Relação descrita como "meio carrancuda, irônica" — mais tensa.
18 anos"mais carinhosa, mais sensata"
Acompanhou a ressonância. Vínculo mais próximo, presente nas investigações clínicas.
87 anosresidente em Natal
Suporte afetivo central. Acompanha quando ele a visita.
Vínculo distantecitados, mas sem proximidade atual
13.3 Solidão como condição estrutural
- Mora sozinho.
- Mãe mora em Natal.
- Não tem cônjuge.
Ao mesmo tempo em que a solidão é seu maior gatilho, ele se nega a ficar dependente de outros. Esse paradoxo é o coração emocional do caso.
13.4 Posição cética sobre amizade
→ Possível sinal de desencanto interpessoal decorrente de quebras de confiança ao longo da trajetória da doença.
Trajetória profissional
A perda profissional na pandemia coincide com o agravamento do quadro etílico — fator estressor concreto alinhado ao gatilho emocional.
Plano pós-alta
15.1 Expectativa de alta
15.2 Projeto pessoal estruturado
Sr. Carlos diz ter um projeto "praticamente pronto", baseado em três pilares:
Trabalhar a almaespiritualidade
Trabalhar o emocional
Trabalhar o social
15.3 Retomada de hábitos
- Voltar para os AA — reunião no "grupo central".
- Retomar a caminhada → reconstruir musculatura.
- Retomar a musculação.
- Retomar a escrita diária.
- Meditação, oração e leitura.
15.4 Postura ativa
Avaliação da internação atual
Encerramento da entrevista
17.1 Inversão de papéis
O paciente devolve a pergunta aos estudantes:
17.2 Pergunta dos estudantes
Os estudantes perguntam se ele se sentiu desconfortável. A resposta vem com humor:
→ Ironia leve indica bom rapport estabelecido.
17.3 Encerramento com agradecimento
Síntese clínica do caso
18.1 Diagnóstico clínico provável
Síndrome de dependência do álcooletilismo crônico
Doença hepática alcoólicahepatite alcoólica em recuperação
Hipoglicemiacom risco de convulsão
Quadro depressivoem uso de amitriptilina
Pós-bariátrico (2013)com perda ponderal grave atual
Trauma ortopédicofratura de membro superior pós-queda
18.2 Fatores de risco
- História familiar positiva forte (pai, primos, tios).
- Início precoce do uso (10 anos).
- Solidão estrutural (mora só, divorciado).
- Bariátrica prévia (transferência de adição).
- Múltiplas recaídas.
- Estressor agudo: COVID-19 + perda profissional + término amoroso.
18.3 Fatores de proteção
- Insight elevado (autoidentificação como "etilista crônico recorrente").
- Formação como terapeuta em codependência — vocabulário e modelos clínicos próprios.
- Rede de apoio: duas filhas e mãe presentes.
- Histórico de períodos prolongados de abstinência (até 8 meses fora de clínica).
- Capacidade de autorreflexão e escrita.
- Espiritualidade ativa.
Cenários de prova · DIJC
Treino orientado: pegadinhas e perguntas que costumam aparecer sobre este caso.
-
Qual a categoria diagnóstica atual no DSM-5 para o quadro do Sr. Carlos? Como se classifica em gravidade?Transtorno por Uso de Álcool, classificado em leve, moderado ou grave (no caso, grave). O DSM-5 aboliu as categorias de "abuso" e "dependência" e fundiu-as numa categoria única.
-
Por que o início precoce do uso de álcool (aos 10 anos) é um dado clínico relevante?Está associado a desenvolvimento mais rápido e curso mais grave do transtorno na vida adulta, com altos níveis de impulsividade, desinibição e problemas de conduta preexistentes.
-
Onde, segundo o paciente, começa a recaída? Descreva a cadeia."A recaída não começa no momento que você leva para a boca." Cadeia: egocentrismo → obsessão → compulsão → primeiro gole. A doença é egocêntrica, obsessiva e compulsiva.
-
Quais critérios diagnósticos clássicos de dependência do álcool aparecem no caso?Tolerância, abstinência (tremores), compulsão/fissura, perda de controle, saliência (rotina centrada na bebida) e continuação apesar do prejuízo. Em DSM-5: baixo controle, deterioração social, uso arriscado e critérios farmacológicos.
-
Que padrão laboratorial é característico de hepatopatia alcoólica? Cite o caso.AST > ALT e Gama-GT muito elevada, frequentemente com anemia. No caso: AST 700 → 70/55; ALT 150 → 55; GGT >700 → 480 (ainda elevada).
-
Cite três causas possíveis de convulsão num etilista crônico.(1) Síndrome de abstinência alcoólica (até 48 h após cessação); (2) hipoglicemia; (3) lesão neurológica crônica associada ao etilismo.
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O que é "transferência de adição" e como ela aparece neste caso?Substituição de uma compulsão por outra. Bariátrica em 2013 seguida de intensificação do alcoolismo — explicada também pelo aumento da absorção de álcool e do efeito sobre o SNC pós-procedimento.
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Por que o insight do paciente é considerado fator de bom prognóstico?Porque indica abandono das defesas (Rogers) e nova percepção do "eu", permitindo decisões livres direcionadas a novos objetivos (abstinência). A frase "eu sou etilista crônico recorrente" é um exemplo de insight pleno.
-
Pegadinha: o paciente equipara AA, NA, DASA, JA e CCA como "doenças". O DSM-5 concorda?Parcialmente. O DSM-5 só inclui o Transtorno do Jogo na categoria de Transtornos Aditivos comparáveis às substâncias. Adição sexual não tem evidência suficiente; compulsão alimentar está em outra classe (Transtornos Alimentares).
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Qual o gatilho central do Sr. Carlos e qual o paradoxo associado?A solidão ("eu não consigo ficar só"). Paradoxo: ao mesmo tempo em que ela é o maior gatilho, ele se recusa a ficar "dependente de ninguém". Planejar pós-alta exige mapear suporte social.
-
Por que tratar somente o paciente é insuficiente? Cite a tese central da aula."A família inteira adoece." A codependência emocional e familiar produz padrões transgeracionais (como o caso da mãe que "transferiu" o papel de doente para a filha). O sistema todo precisa ser tratado.
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O que precede a recaída material, segundo o curso clínico do Sr. Carlos?A perda dos fatores de proteção: cadeia deixou a academia → deixou de escrever → deixou de comer → relaxou → começou a beber.
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Como deve ser conduzida a abertura da entrevista clínica em Psicologia Médica?Identificação (incluindo ano/período) → pedido de consentimento → pergunta aberta inicial ("o que o senhor entende de…?") → escuta ativa → exploração da experiência da enfermidade (illness) antes do enquadramento técnico (MCCP).
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O que é o termo leigo "cruzado" usado pelo paciente? Como se chama na clínica?Uso simultâneo de substâncias lícitas e ilícitas — corresponde ao Uso de Múltiplas Substâncias / poliabuso. O DSM-5 recomenda diagnosticar e registrar cada transtorno separadamente.
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Cite as quatro dimensões do modelo BPS-E discutido pelo paciente.Corpo (físico) · Emocional · Social · Espiritual/Cultural. A doença do vício "não é uma doença só física" — é também emocional, social e cultural.
Pontos-chave para a prova
- Toxicodependência é doença, independentemente de a substância ser lícita ou ilícita — enquadramento clínico, não moral.
- Modelo biopsicossocial-espiritual da dependência: quatro dimensões → física, emocional, social, cultural/espiritual.
- A família inteira adoece — tratamento eficaz integra o sistema familiar (codependência emocional e familiar).
- Recaída começa no egocentrismo, não no primeiro gole. Cadeia: egocentrismo → obsessão → compulsão → uso.
- Critérios de dependência do álcool observados: tolerância, abstinência (tremores), compulsão, perda de controle, saliência, continuação apesar do prejuízo.
- Início precoce (10 anos) é fator de risco maior — idade do início deve ser sempre questionada.
- História familiar forte (2 primos e 2 tios falecidos por álcool; pai etilista) — componente genético e ambiental somados.
- Cirurgia bariátrica pode levar a transferência de adição e aumentar vulnerabilidade ao álcool.
- Hepatopatia alcoólica — padrão laboratorial: AST > ALT, Gama-GT muito elevada, anemia. Reversível com abstinência precoce.
- Convulsões em etilistas podem decorrer de abstinência, hipoglicemia ou lesão neurológica crônica.
- CAPS-AD é o serviço ambulatorial do SUS para álcool e drogas — o afastamento do ambiente é parte do efeito terapêutico.
- AA, NA, DASA, JA, CCA — grupos de mútua ajuda; equiparação fenomenológica entre adições químicas e comportamentais.
- Gatilhos podem ser internos (solidão, tédio, frustração) ou externos — muitas vezes o próprio paciente é o gatilho central.
- Solidão é um dos principais gatilhos de recaída — planejar pós-alta exige mapear suporte social.
- Perda da rotina protetora (academia, escrita, espiritualidade, alimentação) precede a recaída material.
- Investigar pré-infância e infância é essencial para entender raízes emocionais da dependência.
- Na entrevista médica: pergunta aberta inicial → escuta ativa → valorização das falas do próprio paciente → respeito ao consentimento.
- Insight do paciente é fator de bom prognóstico; a fala "eu sou etilista crônico recorrente" é exemplo de insight pleno.
- Avaliar sempre comorbidades clínicas (hepatopatia, hipoglicemia, anemia, desnutrição) e psiquiátricas (depressão) no etilista crônico.
- O cuidado psicológico-médico exige abordagem integral: clínica + psicossocial + familiar + espiritual + reabilitação funcional (atividade física, alimentação, rotina, escrita reflexiva).
Glossário
Termos técnicos do caso, em ordem de aparição.
- Toxicodependência
- Estado patológico de dependência compulsiva de uma substância psicoativa, lícita ou ilícita.
- Etilismo crônico
- Padrão prolongado de consumo abusivo de álcool, com tolerância, abstinência e prejuízo social, ocupacional ou de saúde.
- Cruzado / policonsumo
- Uso combinado de mais de uma substância (ex.: álcool + droga ilícita).
- Recaída
- Retorno ao consumo da substância após período de abstinência.
- Gatilho
- Estímulo interno (emoção, lembrança) ou externo (lugar, pessoa, objeto) que dispara a fissura por uso.
- Fissura (craving)
- Desejo intenso e compulsivo pela substância.
- Abstinência
- Período sem consumo da substância; também designa a síndrome física que acompanha a interrupção em dependentes.
- CAPS-AD
- Centro de Atenção Psicossocial — Álcool e Drogas; serviço ambulatorial do SUS.
- AA · NA · DASA · JA · CCA
- Grupos de mútua ajuda baseados no modelo de 12 passos.
- Codependência
- Padrão disfuncional em que membros da família organizam suas vidas em torno do dependente, perpetuando o adoecimento sistêmico.
- Transferência de adição
- Substituição de uma compulsão por outra, frequente após bariátrica.
- TGO/AST · TGP/ALT
- Transaminases hepáticas; marcadores de lesão hepatocelular. Padrão AST > ALT sugere etiologia alcoólica.
- Gama-GT (GGT)
- Enzima hepática sensível à indução por álcool; valores muito elevados sugerem etilismo.
- Hepatite alcoólica
- Inflamação do fígado decorrente do consumo crônico de álcool, reversível com abstinência precoce.
- Síndrome de abstinência alcoólica
- Quadro clínico que pode incluir tremores, ansiedade, sudorese, alucinações e convulsões.
- Hipoglicemia
- Glicemia abaixo de ~70 mg/dL; pode causar mal-estar, sudorese, confusão e convulsão.
- Bariátrica
- Cirurgia para tratamento da obesidade; pode aumentar absorção e efeito do álcool.
- Modelo BPS-E
- Modelo biopsicossocial-espiritual: integra dimensões biológica, psicológica, social e espiritual no entendimento da doença.
- Egocentrismo (na recaída)
- Estado interno marcado por ira, egoísmo e avareza, considerado o início silencioso da recaída.
- Insight
- Capacidade do paciente de reconhecer sua própria condição patológica.