Arquivo Clínico Vol. I · Caso N.º 001 · Beira-Leito 2026 · 04 · 27
Cadernos de Psicologia Médica
Aula N.º 012026.1 · Hospital
01 Aula N.º 001
Estudo de Caso · Beira-Leito Entrevista clínica · paciente etilista crônico

Sr. Carlos, 55— ou: como uma vida inteira de álcool se conta em primeira pessoa, do divórcio à hepatopatia, da solidão à reconstrução.

Atividade prática conduzida à beira-leito, no Hospital Tarcísio Maia, com paciente internado por complicações do alcoolismo crônico. A entrevista, conduzida pelos estudantes de medicina, expõe na própria voz do Sr. Carlos os conceitos centrais da dependência química — insight, recaída, codependência familiar — e desenha um caso paradigmático para a Psicologia Médica.

A toxicodependência, independente de ser droga lícita ou ilícita, é uma doença. Sr. Carlos · paciente entrevistado
Paciente Sr. Carlos55 anos
Diagnóstico EtilismoF10.2 · K70
Internação 19 diasHospital T. Maia
Disciplina Psic. Médica2026.1 · Aula 1

Sumário

XX capítulos
  1. I.Apresentação do caso & enquadramentoEntrevista
  2. II.Concepção do paciente sobre o alcoolismoNarrativa
  3. III.Toxicodependência como doençaDSM-5
  4. IV.Início e trajetória do usoCronologia
  5. V.Internações e tratamentosHistórico
  6. VI.Internação atual · H. Tarcísio MaiaClínica
  7. VII.Comorbidades & particularidadesClínica
  8. VIII.Modelo da recaídaCadeia
  9. IX.Gatilhos & autoconhecimentoEixo
  10. X.Estratégias de enfrentamentoRotina
  11. XI.Codependência emocional & familiarSistema
  12. XII.Modelo biopsicossocial-espiritualBPS-E
  13. XIII.Rede de apoio familiarVínculos
  14. XIV.Trajetória profissionalEstresse
  15. XV.Plano pós-altaProjeto
  16. XVI.Avaliação da internaçãoRapport
  17. XVII.Encerramento da entrevistaVínculo
  18. XVIII.Síntese clínica do casoDiagnóstico
  19. XIX.Cenários de prova · DIJCTreino
  20. XX.Pontos-chave & glossárioResumo
I Capítulo · Enquadramento

Apresentação do caso & abertura da escuta

A primeira tarefa do entrevistador não é diagnosticar — é fazer-se digno de receber a narrativa do outro.

1.1 Apresentação dos estudantes

A entrevista é aberta de modo cordial. O estudante (Leo Zenon) se identifica junto com colegas e explicita o objetivo da conversa, pedindo consentimento antes de qualquer aproximação clínica.

Sou Leo Zenon, estudante de medicina, estamos com meus colegas. E aí, hoje a gente está tendo a oportunidade de estar nessa atividade de psicologia médica para a gente entender como você, paciente, agora está se sentindo. Abertura · estudante de medicina
Importante para a prova
O consentimento como primeiro pilar

Note o cuidado ético na abordagem: pedido explícito de consentimento ("se o senhor tiver disponibilidade para conversar um pouquinho com a gente"). Esse é o primeiro pilar da entrevista clínica em Psicologia Médica — respeitar a autonomia do paciente internado.

Complemento · Apresentação ideal

A literatura recomenda que o protocolo ideal de apresentação inclua, além da identificação como acadêmico de medicina e do pedido de autorização, informar explicitamente o ano (ou período) que cursa. Garante transparência: o paciente muitas vezes desconhece as qualificações dos estudantes e o que estão autorizados a fazer.

Fonte: Psicologia Médica · Aula Relação Médico-Paciente · Entrevista Clínica

1.2 Pergunta inicial aberta

A condução começa com uma pergunta aberta, não diretiva, que permite ao paciente construir a sua própria narrativa antes de qualquer enquadramento técnico.

O que você entende de alcoolismo?Pergunta de partida
Complemento · MCCP

O Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) distingue doença (disease — patologia biomédica) de enfermidade (illness — manifestação subjetiva e significado do sofrimento). A pergunta aberta explora justamente a experiência da enfermidade: medos, ideias e expectativas antes do direcionamento técnico.

II Capítulo · Narrativa

Concepção do paciente sobre o alcoolismo

A definição que emerge é psicossocial — não farmacológica.

2.1 Visão pessoal do Sr. Carlos

O paciente define alcoolismo a partir de uma leitura psicossocial:

Complemento · Sistema de recompensa

A percepção do paciente — uso como busca por algo que falta ou alívio de estressores — encontra respaldo fisiopatológico. O DSM-5 explica que, em vez de o indivíduo ativar o sistema de recompensa por meio de comportamentos adaptativos, o uso de drogas ativa diretamente as vias de recompensa, atuando como mecanismo compensatório.

2.2 Experiência familiar com a doença

Sr. Carlos traz, espontaneamente, um relato familiar que ilustra dois conceitos importantes:

Pai · Caso paterno
Cruzadouso simultâneo de substância lícita (álcool) e ilícita

Pai etilista, com dependência química associada. Padrão cruzado = policonsumo.

Defesa · Negação
"Não percebe o mal"negação como mecanismo central da doença

O pai está em seu primeiro mês de abstinência — o caminho de aceitação foi longo e doloroso.

Ele demorou muito para aceitar o que realmente estava fazendo isso com ele.
Mas eu percebo que não é por mal, sabe? Não é uma coisa que ele escolheu passar. Sr. Carlos · sobre o pai
Importante para a prova

A frase "não é uma coisa que ele escolheu passar" sintetiza a tese central da aula: dependência química é doença, não opção moral.

Complemento · Negação como defesa do ego

A literatura define a negação como um mecanismo de defesa inconsciente contra a tomada de consciência da enfermidade. O paciente expulsa da consciência aspectos angustiantes e passa a agir como se não estivesse sob ameaça. No adoecimento crônico e nas dependências, é a principal barreira ao tratamento.

III Capítulo · Conceituação

Toxicodependência como doença

Em linguagem leiga, porém precisa: a conceituação biopsicossocial da dependência.

A toxicodependência, independente de ser droga lícita ou ilícita, é uma doença. Sr. Carlos
Complemento · Atualização DSM-5
Transtornos por Uso de Substâncias

Embora o paciente use os termos "dependência química", "toxicodependência" e "alcoolismo crônico", é importante atualizar a nomenclatura. O DSM-5 eliminou as antigas categorias de "abuso" e "dependência", substituindo-as pela categoria mais abrangente de "Transtornos por Uso de Substâncias" (no caso, Transtorno por Uso de Álcool, classificado em leve, moderado ou grave).

O manual omite os termos "adição" e "dependência" da terminologia oficial pela definição vaga e conotação negativa.

Complemento · Bases neurobiológicas

A síntese de que a dependência é doença, e não escolha, encontra respaldo nas alterações dos circuitos cerebrais de recompensa, que comprometem os mecanismos de inibição e persistem mesmo após desintoxicação. Resultado: autoadministração compulsiva e fissura (craving) incontrolável — comportamento que transcende o controle volitivo ou falha moral.

3.1 Espectro de doenças comportamentais e adições

O paciente equipara o alcoolismo a outras síndromes de dependência reconhecidas pelos grupos de mútua ajuda — "tudo isso é uma doença".

Sigla · AA
Alcoólicos AnônimosÁlcool
Sigla · NA
Narcóticos AnônimosDrogas ilícitas
Sigla · DASA
Dep. Amor & SexoDependência afetiva / sexual
Sigla · JA
Jogos AnônimosJogos de azar / apostas
Sigla · CCA
Comedores CompulsivosCompulsão alimentar
Modelo · 12 passos
Mútua ajudafenomenologia comum entre adições
Pegadinha · Distinção DSM-5

Embora o paciente classifique "tudo isso" como doença, a literatura faz uma distinção importante: até o momento, apenas o Transtorno do Jogo tem evidências suficientes para ser incluído na categoria de Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos do DSM-5. Adição sexual não tem evidências suficientes; compulsão alimentar tem classe própria nos Transtornos Alimentares.

3.2 Autodefinição diagnóstica

O paciente se autoclassifica:

Importante para a prova

A autoidentificação denota insight sobre a doença — fator de bom prognóstico. Na Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers, o insight ocorre quando a pessoa abandona suas defesas e reconhece a situação com clareza, evoluindo para uma nova percepção do "eu".

IV Capítulo · Cronologia

Início e trajetória do uso

4.1 Idade de início

Importante para a prova
Início muito precoce — 10 anos de idade

Aos 10 anos já havia iniciado o consumo de álcool. Aos 55 anos atuais, são ~45 anos de uso acumulado.

O DSM-5 aponta que a idade precoce de início está associada a desenvolvimento mais rápido e curso mais grave do transtorno por uso de álcool, além de altos níveis de impulsividade, desinibição comportamental e problemas de conduta preexistentes.

4.2 Curso clínico — uso social → patológico

22 anos
Uso social — durante o casamento
Bebida socialmente integrada à vida conjugal e ao trabalho.
2017 · gatilho
Divórcio
Ruptura do vínculo conjugal de longa duração — primeiro grande estressor.
2020 · gatilho
Luto + pandemia da COVID-19
"Acabou com meus projetos, tudo isso fechado." Isolamento, perda de projetos, vácuo afetivo.
2020 →
Uso compulsivo diário
"Visitava os clientes durante o dia, de manhã. E à tarde ia para a conveniência."
2020/2021
Primeira internação voluntária
Reconhecimento do quadro e busca de tratamento — ainda custeado pelo próprio.
2026 · atual
Internação por complicação clínica
Hospital Tarcísio Maia — inanição, fratura, hepatopatia alcoólica.

4.3 Marco do divórcio e da pandemia

Visitava os clientes durante o dia, de manhã. E à tarde ia para a conveniência.Rotina de consumo

4.4 Sintomas de dependência fisiológica

Sinais clássicos da síndrome de dependência do álcool (CID-10 F10.2):

Critério · Compulsão
"Era necessário""Era necessário eu beber. Era necessário."
Critério · Abstinência
Tremores"Eu me tremia, se não beber."
Critério · Saliência
Rotina centrada"Eu dormia para beber e acordava para beber."
Critério · Prejuízo
ComprometimentoVisitas a clientes com "uma caquinha de álcool"
Importante para a prova

Esses são critérios diagnósticos clássicos: tolerância, abstinência, perda de controle, saliência (a substância passa a organizar o dia), continuação apesar do prejuízo.

Complemento · DSM-5 · 4 grupos

Para sistematizar os critérios, o DSM-5 organiza os Transtornos por Uso de Substâncias em quatro grupos funcionais:

  • Baixo controle — uso maior que pretendido, fissura
  • Deterioração social — comprometimento ocupacional, isolamento
  • Uso arriscado — uso mantido apesar do prejuízo persistente
  • Critérios farmacológicos — tolerância e abstinência
Complemento · Fissura (craving)

A fala "Era necessário eu beber. Era necessário." ilustra com precisão um critério formalmente adicionado no DSM-5: a fissura (craving) — desejo intenso ou necessidade impulsiva de usar a droga, que envolve condicionamento clássico e ativação de estruturas de recompensa. A fissura persiste após a desintoxicação e é o principal sinalizador de recaída iminente.

V Capítulo · Histórico

Histórico de internações e tratamentos

5.1 Linha do tempo das internações

2020/2021
Voluntária · 6 meses
Clínica custeada pelo próprio paciente. Primeira tentativa estruturada de cessação.
~2021
Compulsória · 3 meses
Fortaleza — Instituto / Volta à Vida. Internação à força.
2024
Internação · 9 meses
São José do Mipibu. Período prolongado de afastamento.
2024
Ambulatorial · 15 dias
CAPS-AD · Mossoró (próx. ao Otavá Mall). Curta passagem.
2026 · atual
Clínica/Ortopedia · 19 dias até a entrevista
Hospital Tarcísio Maia. Manejo combinado: trauma + alcoolismo.

5.2 Saída descontrolada da primeira clínica

Após 6 meses de internação voluntária:

Quando eu saí, saí batendo em todo mundo. Não foi surto, não.Após a alta
Não, isso acontece com pessoas de confiança. As pessoas que não são de confiança não fazem isso, não.Sr. Carlos

→ Reflete a dor da traição percebida dentro do núcleo de apoio — fenômeno comum em famílias de dependentes.

5.3 Recaídas mesmo com consciência da doença

Importante para a prova

A consciência cognitiva da doença não previne recaída.

Quando você não está disposto a parar 100%, você usa qualquer desculpa para usar.

A motivação para mudança precisa ser integral, não apenas racional.

5.4 Experiência com o CAPS-AD

Sigla
CAPS

Centro de Atenção Psicossocial.

Modalidade
CAPS-AD

Modalidade voltada a álcool e drogas.

Não tem habilidade para tratar. Passei para ver se eu ficava longe do álcool. Fiquei. Mas eu estou longe, igual aqui. Para mim, estando aqui, eu nem lembro.Crítica do paciente

→ Crítica importante: o afastamento físico do ambiente de uso é eficaz, mas não substitui a abordagem terapêutica continuada.

VI Capítulo · Internação atual

Hospital Tarcísio Maia

6.1 Causa da internação · cadeia causal

Cadeia causal · do consumo à internação
  1. 1Consumo etílico intenso e diáriouso ininterrupto de álcool
  2. ↓
  3. 2Inanição"não estava conseguindo comer"
  4. ↓
  5. 3Perda ponderal acentuadadesnutrição grave
  6. ↓
  7. 4Fraqueza muscularmembros inferiores comprometidos
  8. ↓
  9. 5Queda no banheirocom fratura óssea no braço
  10. ↓
  11. 6Entrada por traumatologiainvestigação revela hepatopatia alcoólica

6.2 Perda ponderal

Pré-bariátrica
2013
120 kg
Pós-bariátrica
estável
60–62 kg
Internação atual
entrada
~50 kg · estado de desnutrição
Atual · 19º dia
recuperação
55 kg · ganho de ~5 kg
Minha panturrilha não é essa. Minha panturrilha normal, ela é inchada. Mas eu deixei o exercício.Sr. Carlos

6.3 Achados laboratoriais

Importante para a prova · Padrão de hepatopatia alcoólica

Padrão clássico: AST > ALT e GGT muito elevada.

Laboratório · Marcadores hepáticos Inicial → Atual
TGO (AST)
700 → 70 / 55 muito elevado · quase normalizado
TGP (ALT)
150 → 55 elevado · normalizado
Gama-GT (GGT)
>700 → 480 muito elevado · ainda elevado
Hemograma
Anemia → em recuperação tendência à melhora com realimentação
Eu já considero normal a minha situação. Lembra que tava 700.Sobre a TGO

6.4 Imagem

6.5 Procedimentos ortopédicos

6.6 Esquema medicamentoso atual

Antidepressivo tricíclico
Amitriptilinasintomas depressivos · dor neuropática
Estabilizador de humor
Depakeneácido valproico · estabilização
Benzodiazepínico
Clonazepamansiedade · manejo da abstinência
Anticonvulsivante
Fenitoínaprofilaxia de convulsões

→ "Para evitar minhas convulsões."

Importante para a prova · Convulsões em etilistas

Podem decorrer de:

  • Síndrome de abstinência alcoólica (até 48 h após cessação)
  • Hipoglicemia (relatada pelo paciente)
  • Lesão neurológica crônica associada ao etilismo
VII Capítulo · Comorbidades

Comorbidades & particularidades clínicas

7.1 Hipoglicemia

O paciente relata diagnóstico de hipoglicemia com episódios convulsivos prévios:

Eu já entrei em convulsão com hipoglicemia 62, 59.Sr. Carlos

Conduta autorrelatada:

7.2 Cirurgia bariátrica (2013)

Bariátrica realizada em 2013. Importante: o alcoolismo se intensificou após a cirurgia.

Depois da bariátrica só aumentou.Sr. Carlos
Achado clássico

Transferência de adição após bariátrica — particularmente com aumento da absorção de álcool e do efeito sobre o SNC.

7.3 Histórico familiar

Forte agregação familiar de mortalidade relacionada ao álcool:

2
Primos falecidos por causa do álcool
2
Tios falecidos por causa do álcool
1
Pai etilista, ainda vivo, em abstinência (1 mês)
Morreu dizendo assim, hoje é dia de tomar um.Sobre um familiar

→ Frase que ilustra a permanência do desejo mesmo na fase terminal da doença.

VIII Capítulo · Modelo da recaída

A recaída como processo, não como evento

"A recaída não começa no momento que você leva para a boca. A recaída começa lá no egocentrismo."

Importante para a prova · Conceito-chave
A recaída não começa no momento que você leva para a boca. A recaída começa lá no egocentrismo.

8.2 Cadeia da recaída segundo Sr. Carlos

A doença é egocêntrica · obsessiva · compulsiva
  1. I Egocentrismoira · egoísmo · ganância · avareza · "você não percebe, cara"
  2. ↓
  3. II Obsessão"pelo que você mais quer · relaxar · jogar tudo para o alto · esquecer"
  4. ↓
  5. III Compulsão"o primeiro golpe vem automático · você nem sente"
  6. ↓
  7. IV Primeiro gole"quando você vai perceber, você já está bebendo"

8.3 Aplicação a outras dependências

O paciente generaliza o modelo para JA (Jogos Anônimos) e DASA, citando o "tigrinho" (jogos de azar online):

Esse tigrinho está matando gente.Sobre jogos online

E sobre dependência sexual:

DASA, que amou o sexo demasiado, está botando muita menina por aí a perder. E elas acabam usando outras drogas, que acabam misturando, acabam cruzando também.Sr. Carlos

→ Comportamento de policonsumo / cruzamento entre dependências.

IX Capítulo · Eixo emocional

Gatilhos & autoconhecimento

9.1 Definição do gatilho

O pior gatilho sou eu mesmo. Eu sou o pior gatilho.Sr. Carlos

9.2 Gatilho central — a solidão

Importante para a prova · Eixo emocional do caso
Eu tenho que aprender a viver minha solitude. […] O meu problema, eu sei muito bem o que é. É que eu não consigo ficar só.

9.3 Origem do problema

O paciente, baseado em sua formação como terapeuta, defende uma tese clara:

Quando vocês pegarem alguém com vício, preste atenção. A pré-infância dele, a infância dele, é ali que está o problema dele.Recomendação ao estudante

→ Recomenda encaminhamento ao psicólogo para investigar fatores precoces.

X Capítulo · Rotina protetora

Estratégias de enfrentamento

10.1 Rotina pré-recaída

Quando estava bem, Sr. Carlos mantinha:

  1. Escrita diária — autoavaliação do dia anterior + intenção do dia presente + identificação de erros.
  2. Academia — acordava antes das 4h, treinava às 5h.
  3. Alimentação leve antes do treino — mamão, banana, achocolatado.
  4. Café da manhã estruturado.
  5. Reuniões em grupos de mútua ajuda (AA).
  6. Meditação, oração e leitura.
Eu tenho mais de 150 textos. Posso colocar um livro, se eu quiser.Sobre a escrita reflexiva

10.2 A queda da rotina

Cadeia de abandono · perda dos fatores de proteção
  1. 1Deixou a academia
  2. ↓
  3. 2Deixou de escrever
  4. ↓
  5. 3Deixou de comer adequadamente
  6. ↓
  7. 4Relaxou
  8. ↓
  9. 5Começou a beber
Importante para a prova

A perda dos fatores de proteção (rotina estruturada, espaço social, autorreflexão) precede a recaída material.

10.3 Crítica aos AA

Eu quero escutar recuperação, não quero escutar doença. Doença eu já sei que eu tenho.Crítica madura

→ Aponta a importância do discurso de recuperação, não apenas do relato do sofrimento, em grupos de mútua ajuda.

10.4 Formação como terapeuta

Curso · I
Terapeuta holístico
Curso · II
Toxicodependênciafoco no dependente
Curso · III
Codependência emocional & familiar"o mais lindo que tem"
XI Capítulo · Sistema familiar

Codependência emocional e familiar

11.1 Conceito · duas abordagens

Foco · O dependente
Toxicodependência

Controle de crise, contenção, medicação, internação.

Foco · A família
Codependência

Investigação dos vínculos, padrões transgeracionais, papéis disfuncionais.

11.2 Caso clínico ilustrativo

Quem está doente é a filha, com depressão, bebendo muito, sempre precisando da ajuda da mãe. […] A mãe era do mesmo jeito quando era criança. Então ela só transferiu.Caso transgeracional

→ Padrão transgeracional: a mãe transferiu para a filha o papel de "doente da família".

11.3 Tese central

Importante para a prova
A família inteira adoece.

Não é possível tratar o dependente isoladamente. Toda a família precisa ser olhada como sistema.

XII Capítulo · BPS-E

Modelo biopsicossocial-espiritual

A dependência não é apenas doença física. É emocional, social e cultural.

12.1 Quatro dimensões

⊕
Corpo
Doença física
♡
Emocional
Sofrimento psíquico
⌬
Social
Vínculos · trabalho
✦
Espiritual
Alma · cultura
A doença do vício não é uma doença só física. É uma doença emocional, social e cultural.Sr. Carlos

12.2 Origem na pré-infância

Reforça que a investigação precisa retroceder à pré-infância:

Tem que trabalhar bem isso para entender até onde vai o começo da doença.Sr. Carlos
XIII Capítulo · Vínculos

Rede de apoio familiar

13.1 Composição da rede

Filha mais velha
27 anosgrávida de 7 meses

Não pôde ir ao hospital pelo risco da exposição. Relação descrita como "meio carrancuda, irônica" — mais tensa.

Filha mais nova
18 anos"mais carinhosa, mais sensata"

Acompanhou a ressonância. Vínculo mais próximo, presente nas investigações clínicas.

Mãe
87 anosresidente em Natal

Suporte afetivo central. Acompanha quando ele a visita.

Irmãos / irmã
Vínculo distantecitados, mas sem proximidade atual

13.3 Solidão como condição estrutural

Não posso ficar dependente de ninguém não.Sr. Carlos
Paradoxo clínico

Ao mesmo tempo em que a solidão é seu maior gatilho, ele se nega a ficar dependente de outros. Esse paradoxo é o coração emocional do caso.

13.4 Posição cética sobre amizade

Não existe amizade, não. Se você pensar que existe amizade, tira esse negocinho da sua cabeça.Sr. Carlos

→ Possível sinal de desencanto interpessoal decorrente de quebras de confiança ao longo da trajetória da doença.

XIV Capítulo · Estressor

Trajetória profissional

Formação
Engenheiro mecânico
Ativo
Petrobras · prestação de serviço
Viagens pelo país — fase de maior estabilidade profissional.
2012–2013
Desaceleração do setor
2015
Saída da empresa
—
Outra empresa "se esfarelou"
~1 ano
Trabalho na ilha de exportação de sal
Areia Branca/RN.
2020
Projeto eólico interrompido pela COVID-19
Atual
Documentação para empresas / consultoria
Observação clínica

A perda profissional na pandemia coincide com o agravamento do quadro etílico — fator estressor concreto alinhado ao gatilho emocional.

XV Capítulo · Projeto

Plano pós-alta

15.1 Expectativa de alta

Provavelmente eu vou embora amanhã.Sr. Carlos

15.2 Projeto pessoal estruturado

Sr. Carlos diz ter um projeto "praticamente pronto", baseado em três pilares:

Pilar I
Trabalhar a almaespiritualidade
Pilar II
Trabalhar o emocional
Pilar III
Trabalhar o social

15.3 Retomada de hábitos

Músculo aí tem memória, né? Recuperar é muito mais fácil crescer de novo do que já foi maior.Sobre a reabilitação física

15.4 Postura ativa

Eu não tenho a opção de ficar sentado e não conseguir fazer. Tem que ser feito.Sr. Carlos
XVI Capítulo · Avaliação

Avaliação da internação atual

Equipe
"Nada a reclamar, não."
Cuidados clínicos
Bons; melhora ponderal e laboratorial.
Distância de gatilhos
"Aqui eu nem lembro do cigarro, nem lembro do álcool."
Ponto negativo
"Está faltando um braço balançado." (queixa pontual)
Apetite
Recuperado.
XVII Capítulo · Encerramento

Encerramento da entrevista

17.1 Inversão de papéis

Momento importante

O paciente devolve a pergunta aos estudantes:

A pergunta é outra. Tem alguma coisa que vocês gostariam de fazer ali? Alguma pergunta?

17.2 Pergunta dos estudantes

Os estudantes perguntam se ele se sentiu desconfortável. A resposta vem com humor:

Eu estou muito ocupado. Faço o dia deitado, dormindo. Estou muito ocupado. Aí vocês atrapalharam o meu sono.Resposta com ironia

→ Ironia leve indica bom rapport estabelecido.

17.3 Encerramento com agradecimento

Agradeço demais a disponibilidade do senhor […] é muito importante isso para a nossa formação.Estudante
XVIII Capítulo · Síntese

Síntese clínica do caso

18.1 Diagnóstico clínico provável

CID-10 · F10.2
Síndrome de dependência do álcooletilismo crônico
CID-10 · K70
Doença hepática alcoólicahepatite alcoólica em recuperação
Comorbidade
Hipoglicemiacom risco de convulsão
Comorbidade
Quadro depressivoem uso de amitriptilina
Antecedente
Pós-bariátrico (2013)com perda ponderal grave atual
Atual
Trauma ortopédicofratura de membro superior pós-queda

18.2 Fatores de risco

18.3 Fatores de proteção

XIX Capítulo · DIJC · cenários de prova

Cenários de prova · DIJC

Treino orientado: pegadinhas e perguntas que costumam aparecer sobre este caso.

Probabilidades de prova
Treino · DSM-5 · Entrevista · Cadeia da recaída
  1. Qual a categoria diagnóstica atual no DSM-5 para o quadro do Sr. Carlos? Como se classifica em gravidade?
    Transtorno por Uso de Álcool, classificado em leve, moderado ou grave (no caso, grave). O DSM-5 aboliu as categorias de "abuso" e "dependência" e fundiu-as numa categoria única.
  2. Por que o início precoce do uso de álcool (aos 10 anos) é um dado clínico relevante?
    Está associado a desenvolvimento mais rápido e curso mais grave do transtorno na vida adulta, com altos níveis de impulsividade, desinibição e problemas de conduta preexistentes.
  3. Onde, segundo o paciente, começa a recaída? Descreva a cadeia.
    "A recaída não começa no momento que você leva para a boca." Cadeia: egocentrismo → obsessão → compulsão → primeiro gole. A doença é egocêntrica, obsessiva e compulsiva.
  4. Quais critérios diagnósticos clássicos de dependência do álcool aparecem no caso?
    Tolerância, abstinência (tremores), compulsão/fissura, perda de controle, saliência (rotina centrada na bebida) e continuação apesar do prejuízo. Em DSM-5: baixo controle, deterioração social, uso arriscado e critérios farmacológicos.
  5. Que padrão laboratorial é característico de hepatopatia alcoólica? Cite o caso.
    AST > ALT e Gama-GT muito elevada, frequentemente com anemia. No caso: AST 700 → 70/55; ALT 150 → 55; GGT >700 → 480 (ainda elevada).
  6. Cite três causas possíveis de convulsão num etilista crônico.
    (1) Síndrome de abstinência alcoólica (até 48 h após cessação); (2) hipoglicemia; (3) lesão neurológica crônica associada ao etilismo.
  7. O que é "transferência de adição" e como ela aparece neste caso?
    Substituição de uma compulsão por outra. Bariátrica em 2013 seguida de intensificação do alcoolismo — explicada também pelo aumento da absorção de álcool e do efeito sobre o SNC pós-procedimento.
  8. Por que o insight do paciente é considerado fator de bom prognóstico?
    Porque indica abandono das defesas (Rogers) e nova percepção do "eu", permitindo decisões livres direcionadas a novos objetivos (abstinência). A frase "eu sou etilista crônico recorrente" é um exemplo de insight pleno.
  9. Pegadinha: o paciente equipara AA, NA, DASA, JA e CCA como "doenças". O DSM-5 concorda?
    Parcialmente. O DSM-5 só inclui o Transtorno do Jogo na categoria de Transtornos Aditivos comparáveis às substâncias. Adição sexual não tem evidência suficiente; compulsão alimentar está em outra classe (Transtornos Alimentares).
  10. Qual o gatilho central do Sr. Carlos e qual o paradoxo associado?
    A solidão ("eu não consigo ficar só"). Paradoxo: ao mesmo tempo em que ela é o maior gatilho, ele se recusa a ficar "dependente de ninguém". Planejar pós-alta exige mapear suporte social.
  11. Por que tratar somente o paciente é insuficiente? Cite a tese central da aula.
    "A família inteira adoece." A codependência emocional e familiar produz padrões transgeracionais (como o caso da mãe que "transferiu" o papel de doente para a filha). O sistema todo precisa ser tratado.
  12. O que precede a recaída material, segundo o curso clínico do Sr. Carlos?
    A perda dos fatores de proteção: cadeia deixou a academia → deixou de escrever → deixou de comer → relaxou → começou a beber.
  13. Como deve ser conduzida a abertura da entrevista clínica em Psicologia Médica?
    Identificação (incluindo ano/período) → pedido de consentimento → pergunta aberta inicial ("o que o senhor entende de…?") → escuta ativa → exploração da experiência da enfermidade (illness) antes do enquadramento técnico (MCCP).
  14. O que é o termo leigo "cruzado" usado pelo paciente? Como se chama na clínica?
    Uso simultâneo de substâncias lícitas e ilícitas — corresponde ao Uso de Múltiplas Substâncias / poliabuso. O DSM-5 recomenda diagnosticar e registrar cada transtorno separadamente.
  15. Cite as quatro dimensões do modelo BPS-E discutido pelo paciente.
    Corpo (físico) · Emocional · Social · Espiritual/Cultural. A doença do vício "não é uma doença só física" — é também emocional, social e cultural.
XX Capítulo · Resumo

Pontos-chave para a prova

  1. Toxicodependência é doença, independentemente de a substância ser lícita ou ilícita — enquadramento clínico, não moral.
  2. Modelo biopsicossocial-espiritual da dependência: quatro dimensões → física, emocional, social, cultural/espiritual.
  3. A família inteira adoece — tratamento eficaz integra o sistema familiar (codependência emocional e familiar).
  4. Recaída começa no egocentrismo, não no primeiro gole. Cadeia: egocentrismo → obsessão → compulsão → uso.
  5. Critérios de dependência do álcool observados: tolerância, abstinência (tremores), compulsão, perda de controle, saliência, continuação apesar do prejuízo.
  6. Início precoce (10 anos) é fator de risco maior — idade do início deve ser sempre questionada.
  7. História familiar forte (2 primos e 2 tios falecidos por álcool; pai etilista) — componente genético e ambiental somados.
  8. Cirurgia bariátrica pode levar a transferência de adição e aumentar vulnerabilidade ao álcool.
  9. Hepatopatia alcoólica — padrão laboratorial: AST > ALT, Gama-GT muito elevada, anemia. Reversível com abstinência precoce.
  10. Convulsões em etilistas podem decorrer de abstinência, hipoglicemia ou lesão neurológica crônica.
  11. CAPS-AD é o serviço ambulatorial do SUS para álcool e drogas — o afastamento do ambiente é parte do efeito terapêutico.
  12. AA, NA, DASA, JA, CCA — grupos de mútua ajuda; equiparação fenomenológica entre adições químicas e comportamentais.
  13. Gatilhos podem ser internos (solidão, tédio, frustração) ou externos — muitas vezes o próprio paciente é o gatilho central.
  14. Solidão é um dos principais gatilhos de recaída — planejar pós-alta exige mapear suporte social.
  15. Perda da rotina protetora (academia, escrita, espiritualidade, alimentação) precede a recaída material.
  16. Investigar pré-infância e infância é essencial para entender raízes emocionais da dependência.
  17. Na entrevista médica: pergunta aberta inicial → escuta ativa → valorização das falas do próprio paciente → respeito ao consentimento.
  18. Insight do paciente é fator de bom prognóstico; a fala "eu sou etilista crônico recorrente" é exemplo de insight pleno.
  19. Avaliar sempre comorbidades clínicas (hepatopatia, hipoglicemia, anemia, desnutrição) e psiquiátricas (depressão) no etilista crônico.
  20. O cuidado psicológico-médico exige abordagem integral: clínica + psicossocial + familiar + espiritual + reabilitação funcional (atividade física, alimentação, rotina, escrita reflexiva).
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Glossário

Termos técnicos do caso, em ordem de aparição.

Toxicodependência
Estado patológico de dependência compulsiva de uma substância psicoativa, lícita ou ilícita.
Etilismo crônico
Padrão prolongado de consumo abusivo de álcool, com tolerância, abstinência e prejuízo social, ocupacional ou de saúde.
Cruzado / policonsumo
Uso combinado de mais de uma substância (ex.: álcool + droga ilícita).
Recaída
Retorno ao consumo da substância após período de abstinência.
Gatilho
Estímulo interno (emoção, lembrança) ou externo (lugar, pessoa, objeto) que dispara a fissura por uso.
Fissura (craving)
Desejo intenso e compulsivo pela substância.
Abstinência
Período sem consumo da substância; também designa a síndrome física que acompanha a interrupção em dependentes.
CAPS-AD
Centro de Atenção Psicossocial — Álcool e Drogas; serviço ambulatorial do SUS.
AA · NA · DASA · JA · CCA
Grupos de mútua ajuda baseados no modelo de 12 passos.
Codependência
Padrão disfuncional em que membros da família organizam suas vidas em torno do dependente, perpetuando o adoecimento sistêmico.
Transferência de adição
Substituição de uma compulsão por outra, frequente após bariátrica.
TGO/AST · TGP/ALT
Transaminases hepáticas; marcadores de lesão hepatocelular. Padrão AST > ALT sugere etiologia alcoólica.
Gama-GT (GGT)
Enzima hepática sensível à indução por álcool; valores muito elevados sugerem etilismo.
Hepatite alcoólica
Inflamação do fígado decorrente do consumo crônico de álcool, reversível com abstinência precoce.
Síndrome de abstinência alcoólica
Quadro clínico que pode incluir tremores, ansiedade, sudorese, alucinações e convulsões.
Hipoglicemia
Glicemia abaixo de ~70 mg/dL; pode causar mal-estar, sudorese, confusão e convulsão.
Bariátrica
Cirurgia para tratamento da obesidade; pode aumentar absorção e efeito do álcool.
Modelo BPS-E
Modelo biopsicossocial-espiritual: integra dimensões biológica, psicológica, social e espiritual no entendimento da doença.
Egocentrismo (na recaída)
Estado interno marcado por ira, egoísmo e avareza, considerado o início silencioso da recaída.
Insight
Capacidade do paciente de reconhecer sua própria condição patológica.