P Aula 08 / 12 · Parasitologia Médica · Sem. 2026.1
29 · IV · 2026
Plate VIII Protozoologia Compêndio universitário · revisão
VIII
Cap. de Parasitologia
Encerramento dos protozoários intestinais

Amebas, Vida Livre,
Balantidíase & Coccidioses — do portador assintomático às amebas que entram pelo nariz e ao oocisto que escapa do tratamento de água —

Da lógica tissular vs. luminar que herdamos da amebíase às amebas de vida livre, do ciliado dos suínos ao novo vocabulário do filo Apicomplexa — uma cartografia da última aula sobre protozoários intestinais antes da entrada em Toxoplasma e Plasmodium.

10
Capítulos
21
Pontos-chave
05
Casos DIJC
52
Correções & complementos
Capitulum Primum
I.
Recap · tratamento da amebíase

O princípio dos dois grupos de drogas

A professora retoma o tratamento da amebíase porque a lógica vai se repetir nos demais protozoários: o que decide a droga não é a espécie — é a localização que ela consegue alcançar.

Antes de fechar o ciclo dos protozoários intestinais, vale relembrar a hierarquia: a giardíase é a mais prevalente, mas a Entamoeba histolytica permanece como a forma mais grave, considerada a segunda maior causa de morte por protozoários no mundo, atrás somente da malária.

Grupo I · Tissular (insular)
Metronidazol · Tinidazol
Onde age
No tecido — atravessa o intestino e atinge o parasito que invadiu a mucosa.
Indicação
Pacientes com sintomatologia (colite, abscesso hepático).
Limite
É quase totalmente absorvido no delgado — não alcança parasitos na luz do cólon.
Grupo II · Luminar
Paromomicina · Teclozana
Onde age
Na luz intestinal — droga que não é absorvida permanece no lúmen.
Indicação
Portadores assintomáticos; complementa o tissular nos casos invasivos.
Atenção
Atua sobre os trofozoítos luminares — nenhum amebicida é cisticida; interrompe a formação de novos cistos.
!Correção · esquema obrigatório

No paciente sintomático (colite ou doença extraintestinal), o metronidazol/tinidazol deve sempre ser associado a um amebicida luminal — caso contrário, sobram trofozoítos no cólon e há recidiva. A combinação não é opcional.

§ 1.2 · Mecanismo

Metronidazol — a toxicidade depende de ativação + acesso

  • É ingerido como pró-fármaco inativo.
  • Reduzido pela via da piruvato ferredoxina-oxidorredutase dos protozoários anaeróbios → forma reativa que lesa o DNA e bloqueia a produção de ATP.
  • Não basta a molécula ser tóxica: ela precisa chegar ao parasito. Daí a divisão tissular vs. luminar.

provaPortador assintomático NÃO se trata com metronidazol. O parasito está na luz intestinal, e ali a droga absorvida no delgado não chega. Trata-se com luminar (paromomicina).

+Complemento OMS

Em áreas endêmicas, a OMS não recomenda tratar sistematicamente os assintomáticos: ~90% dessas infecções são de Entamoeba dispar, espécie classicamente não patogênica.

"Imagina, você faz um exame de rotina, encontra a Entamoeba sem sintomatologia — então é portador, e nessa situação eu vejo prescrição de metronidazol. Faz sentido isso? Não." Profa. — pegadinha clínica
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Capitulum Secundum
II.
Amebas comensais · não patogênicas

Sentinelas do fecalismo

Não causam doença diretamente — mas, quando aparecem no exame, denunciam que a transmissão fecal-oral está ativa naquela população. Onde elas circulam, circulam também os patógenos.

§ 2.1 · Inquérito Caraúbas/RN

Quem aparece nos exames

1ª · mais frequente
Endolimax nana
3ª mais frequente
Entamoeba coli
Outras
Iodamoeba bütschlii
+ Entamoeba hartmanni, E. dispar
Exceção · oral
Entamoeba gingivalis
Habita a boca — também aparece em escarro/lavado broncoalveolar.
+Complemento · diagnóstico diferencial

A E. gingivalis em material respiratório pode ser confundida morfologicamente com a E. histolytica, levando a falso diagnóstico de abscesso pulmonar amebiano. Reconhecê-la corretamente evita conduta letal.

!Atualização · E. dispar

A visão clássica colocava E. dispar como inofensiva. A literatura contemporânea já descreve participação em colite não-disentérica, diarreia crônica, lesão de mucosa e até envolvimento em abscesso hepático.

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Capitulum Tertium
III.
Amebas de vida livre

Raras — e devastadoras

Cumprem todo o ciclo no ambiente, sem precisar de hospedeiro. Quando, por acaso, atingem o homem, têm letalidade altíssima e diagnóstico tardio.

Habitat
Mar, piscinas, água de torneira, águas termais, solo, poeira
Achado curioso
Encontradas inclusive em pessoas saudáveis
!Mecanismo de escape

Em ambiente hostil (medicamento, cloro, mudança de pH) algumas amebas de vida livre alternam trofozoíto ↔ cisto dentro do hospedeiro: encistam, resistem, desencistam quando o ambiente melhora. Resultado: quadro crônico, tratamento ineficaz.

!Correção · não é regra geral

A dupla forma intracorporal vale para Acanthamoeba e Balamuthia. A Naegleria fowleri não forma cisto no hospedeiro — é encontrada nos tecidos humanos exclusivamente como trofozoíto invasivo. Por isso seu curso é fulminante, não crônico.

As três espécies estudadas
i.

Acanthamoeba sp.

Ceratite · EGA em imunossuprimidos
Alta · imunossup.
Porta de entrada
Córnea (lesões pelo manuseio de lentes de contato); pele e via inalatória pulmonar nas formas sistêmicas.
Mecanismo da ceratite
Microlesões repetidas no epitélio corneano abrem porta; solução de lentes contaminada com água de torneira → ameba multiplica na própria solução. Pode levar à perda do olho.
Encefalite Granulomatosa (EGA)
Quadro crônico; em imunossuprimidos a disseminação ocorre por via hematogênica a partir de pele ou pulmão — quase nunca a partir do foco corneano.
ii.

Balamuthia mandrillaris

Lesões cutâneas evolutivas → SNC
Alta
Porta de entrada
Lesões na pele e inalação pelo trato respiratório inferior; depois disseminação hematogênica.
Casuística
Sem casuística brasileira relevante; mais frequente em material acadêmico estrangeiro. Descrita também em crianças imunocompetentes.
Particularidade clínica
Diferente da Acanthamoeba, causa EGA também em adultos sadios e imunocompetentes.
iii.

Naegleria fowleri

MEAP · meningoencefalite amebiana primária
~100 % letal
Porta de entrada
Mucosa nasal, em atividades recreativas em água doce, morna, parada.
Trajeto invasivo
Mucosa → nervo olfatório → atravessa a placa cribriforme do etmoide → bulbo olfatório → córtex cerebral.
Forma flagelada
Em água pobre em nutrientes, o trofozoíto se diferencia em forma biflagelada — alta mobilidade, facilita o encontro com a mucosa nasal do banhista.
Curso
Sintomas inespecíficos (gripe, coriza, cefaleia) → coma → óbito em ~7 dias. Diagnóstico raramente fechado em vida.
Cloro
Sensível ao cloro, mas em piscinas coletivas o cloro é consumido pela matéria orgânica → risco em piscinas mal cloradas.
+Caso brasileiro relatado

Primeiro caso oficialmente confirmado no Ceará, em criança de 15 meses, atribuído a contato com reservatório de água da comunidade. Buscas ativas posteriores identificaram a ameba em diversos pontos — o gargalo permanece em identificar quais cepas efetivamente causam doença.

!Correção · tratamento da MEAP

A literatura é categórica: a Anfotericina B convencional (intravenosa + intratecal, precoce) é o pilar terapêutico. Não é "qualquer droga do coquetel" — é ela que sustenta a sobrevida nos raríssimos casos curados.

provaEm águas doces, mornas, paradas (lagos rasos, fontes termais, reservatórios mal manejados), evite atividade que force água pelo nariz. É a única profilaxia eficaz contra a Naegleria.

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Capitulum Quartum
IV.
Balantidíase

O único ciliado patogênico humano

Balantidium coli — raro no homem, frequentíssimo nos suínos. Tratadores de porcos compõem o grupo de risco característico.

Identificação morfológica
Cílios em todo o corpo
Núcleos
Macronúcleo (reniforme) + micronúcleo
Reservatório
Suínos · tratadores no risco
Fezes diarreicas
Trofozoíto resistente · pode aparecer no exame
!Correção · transmissão

A transmissão é exclusivamente fecal-oral (ingestão de cistos em água/alimentos contaminados). Não há transmissão respiratória nem por aspiração de poeira com cistos.

Imunocompetente
Autolimitante
Geralmente assintomático; achado de exame.
Imunossuprimido
Quadro tipo amebíase
Invasão de mucosa via hialuronidase + ação ciliar mecânica → ulcerações profundas, possível disseminação.

provaDiagnóstico diferencial: quadro tipo "amebíase" em imunossuprimido → considerar também Balantidium coli.

!Correção · tratamento de 1ª linha

A droga de primeira escolha na balantidíase é a tetraciclina. O metronidazol é alternativa de segunda linha — não o esquema preferencial.

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Capitulum Quintum
V.
Coccidioses · filo Apicomplexa

Novo filo, novo vocabulário

A partir daqui muda tudo: ciclos com reprodução assexuada e sexuada no mesmo hospedeiro (em geral); termos novos que vão se repetir em Toxoplasma e Plasmodium.

§ 5.2.1 · Esquizogonia

Reprodução assexuada — 1 originando muitos

Fluxo · esquizogonia
  1. Esporozoíto entra na célula.
  2. Vira trofozoíto (parasito em crescimento).
  3. Fraciona o núcleo formando massa multinucleada → esquizonte.
  4. Cada núcleo se delimita formando vários merozoítos.
  5. Célula rompe; merozoítos liberados infectam novas células e repetem.

provaAntes (giárdia, amebas, balantídio) o protozoário se dividia por divisão binária (1 → 2). Aqui é 1 → muitos numa única célula. É isso que explica a velocidade de destruição celular.

!Correção · esquizonte

O esquizonte não é "a célula contendo o parasito". É o próprio parasito em fase de maturação assexuada — uma única massa citoplasmática multinucleada, antes da delimitação dos merozoítos.

§ 5.2.2 · Gametogonia

Reprodução sexuada — quando o ambiente fica hostil

  • Alguns merozoítos viram macrogametócito → amadurece em macrogameta (única célula, imóvel = feminino).
  • Outros viram microgametócito → divide-se intensamente, libera vários microgametas flagelados (masculinos).
  • Microgameta fecunda macrogameta → zigoto → adquire parede resistente → oocisto.
  • Oocisto eliminado nas fezes.

provaCisto vs. oocisto — não confundir. Cisto (amebas, giárdia, balantídio) vem de forma assexuada que se protege. Oocisto (coccídios) vem de reprodução sexuada.

Tempo de esporulação no ambiente
Cryptosporidium
já infectante nas fezes
Cystoisospora (antiga Isospora)
24–48 h
Cyclospora
1–2 semanas

provaComo o oocisto de Cryptosporidium já sai pronto, há autoinfecção e transmissão pessoa-a-pessoa direta — algo impossível para os demais.

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Capitulum Sextum
VI.
Cryptosporidium · ciclo específico

O parasito da posição impossível

Localização única no organismo: intracelular extracitoplasmática. Logo abaixo da membrana apical, parece "colado" do lado de fora da célula epitelial — e é essa posição que explica o quadro clínico.

!Localização-chave

O Cryptosporidium fica dentro da célula, mas fora do citoplasma. Posição apical, abaixo da membrana — interfere diretamente nas enzimas de borda em escova (lactase, dissacaridases).

§ 6.2 · Sequência do ciclo

Por que o quadro é tão persistente

Ciclo · seis estações
  1. Esporozoíto entra na célula → trofozoíto.
  2. 1ª esquizogonia → merozoítos de 1ª geração.
  3. 2ª esquizogonia → merozoítos de 2ª geração.
  4. Merozoítos de 2ª geração se diferenciam em gametócitos.
  5. Fecundação → oocisto.
  6. Formam-se dois tipos de oocisto.
Tipo I · parede grossa
Eliminado nas fezes
Já maduro e infectante → transmissão pessoa-a-pessoa direta.
Tipo II · parede fina
Rompe no intestino
Libera esporozoítos no próprio lúmen → autoinfecção interna contínua.
+Complemento · amplificação

Os merozoítos de 1ª geração podem reciclar o ciclo assexuado, reinfectando enterócitos e originando novos merontes tipo I. Soma-se à autoinfecção interna → multiplicação exponencial da carga parasitária.

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Capitulum Septimum
VII.
Coccidioses · patogenia & clínica

Diarreia coleriforme, intolerância à lactose

Destruição cíclica do epitélio do delgado → inflamação, diarreia, reposição acelerada com células imaturas que não digerem nem absorvem direito.

"O Cryptosporidium está mais para o que o Vibrio cholerae faz do que para o que a giardíase faz." Profa. — comparação clínica
Diarreia coleriforme
Aquosa, perda intensa de eletrólitos
A água segue os eletrólitos. Pode ser fulminante por desidratação grave.
Intolerância à lactose
Marca de criptosporidiose
Pela posição apical do parasito → comprometimento das enzimas de borda em escova. Conduta de suporte: dieta sem lactose.
!Correção · mecanismo da hipersecreção

A literatura atual afasta a hipótese de uma enterotoxina secretada pelo parasito. A diarreia profusa é mediada pela resposta inflamatória do hospedeiro — prostaglandinas, citocinas (TNF-α) e neuropeptídios como a Substância P.

+Complemento · arquitetura intestinal

A má absorção é estruturalmente causada pela atrofia das vilosidades (encurtamento, fusão e perda) somada à hiperplasia das criptas — reduz drasticamente a área absortiva.

§ 7.2.3 · Vias exclusivas

Cryptosporidium — o único coccídio com

  • Transmissão pessoa-a-pessoa (oocisto já infectante).
  • Transmissão zoonótica (animais ↔ pessoas).
  • Transmissão respiratória por aerossol → multiplica-se também em epitélio respiratório.
+Complemento · imunossuprimido

Em CD4+ < 50/mm³, o Cryptosporidium dissemina para o trato hepatobiliar (colangite esclerosante, colecistite acalculosa), pancreático (pancreatite) e respiratório (pneumonia).

Outros sinais comuns ao grupo
  • Diarreia, vômitos, náuseas, dor abdominal, desconforto.
  • Perda de peso pela destruição do epitélio absortivo.
  • Cyclospora → fadiga / exaustão acentuada, sem patogenia conhecida que explique.
  • Cystoisospora belli → frequentemente induz eosinofilia marcante e cristais de Charcot-Leyden nas fezes (diferencial laboratorial).
Imunocompetente
Auto­limitante
Frequentemente assintomático; quando sintomático, a resposta imune resolve. Hidratação + suporte.
Imunossuprimido
Crônico, com pioras e remissões
Diarreia coleriforme grave no Cryptosporidium; restaurar imunidade é prioridade.
!Correção · imunidade adquirida

A afirmação "memória imune é limitada porque o parasito é superficial" é imprecisa. Estudos epidemiológicos mostram que populações previamente expostas adquirem imunidade protetora que reduz a chance de reinfecção, e não apenas modifica a velocidade da resposta.

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Capitulum Octavum
VIII.
Tratamento das coccidioses

Quem trata cada um

Sulfa-trimetoprima é o cavalo de batalha; Cryptosporidium permanece como o desafio terapêutico.

Cryptosporidium · imunossuprimido
Sem droga específica eficaz. Conduta = redução de carga + suporte. Em HIV/AIDS, o pilar é a HAART — restaurar CD4+ é o que de fato interrompe a diarreia crônica.
Cyclospora
Sulfametoxazol-trimetoprima (SMX-TMP) — esquema preferencial.
Cystoisospora
SMX-TMP — esquema preferencial.
Esquema alternativo
Nitazoxanida — único agente com algum efeito sobre Cryptosporidium; também atua em giardíase, embora o metronidazol seja melhor para giárdia.
"A nitazoxanida é a única droga que vai apanhar até o Crypto. Individualmente ela mata giárdias, mas o metronidazol é melhor pra giárdia." Profa. — apontamento prático
!Correção · não é a única

A paromomicina (frequentemente segunda escolha) e antibióticos macrolídeos como a azitromicina também demonstram capacidade de redução da carga parasitária na criptosporidiose, isolados ou em combinação.

+Complemento · profilaxia secundária

Em imunossuprimidos com Cyclospora ou Cystoisospora, após o esquema curativo (7–10 dias) é imperativo instituir manutenção contínua com SMX-TMP — as recidivas são elevadíssimas.

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Capitulum Nonum
IX.
Epidemiologia · surto clássico

O surto de Milwaukee

Cidade americana onde cerca de metade da população apresentou diarreia. Caso de referência mundial em criptosporidiose.

Causa
Contaminação do reservatório de água da cidade
Resistência
Tratamento padrão de água não eliminou o oocisto
Solução moderna
Estações usam ozônio para inativar
Distribuição
Coccídios são cosmopolitas
!Atualização epidemiológica

A hipótese inicial culpava fezes de gado leiteiro. Estudos genéticos posteriores mostraram que os parasitos do surto eram predominantemente Cryptosporidium hominis — espécie estritamente antroponótica. A contaminação ocorreu por falhas no tratamento de esgoto humano.

!Correção · não precisa "grande" contaminação

A dose mínima infectante é extremamente baixa: 9 a 30 oocistos (média ~132) já bastam para causar diarreia em imunocompetentes. Por isso surtos podem deflagrar mesmo a partir de contaminações hídricas discretas.

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Capitulum Decimum
X.
Sarcocystis · o coccídio heteroxeno

O coccídio com dois hospedeiros

Até aqui todos os coccídios eram monoxenos. O Sarcocystis rompe esse padrão.

Bovino · intermediário
Sarcocystis hominis
Suíno · intermediário
Sarcocystis suihominis
!Definição-chave em coccídios

Em protozoários do filo Apicomplexa, definitivo vs. intermediário se decide pela forma de reprodução, não pela idade do parasito.

Hospedeiro definitivo
Onde ocorre reprodução sexuada
Hospedeiro intermediário
Onde ocorre reprodução assexuada
§ 10.4 · Homem como definitivo

Ciclo simplificado

Fluxo · sarcocistose intestinal
  1. Ingestão de cistos em carne crua/malcozida (bovino ou suíno).
  2. Cada cisto contém milhares de parasitos.
  3. Todos se transformam em gametas (masculinos e femininos).
  4. Fecundação → oocisto eliminado nas fezes.
  5. Não há fase assexuada no homem → quadro autolimitante.
+Complemento · esporulação in vivo

Diferente da maioria dos coccídios, o oocisto do Sarcocystis esporula ainda na mucosa intestinal humana; as fezes já veiculam formas maduras. A parede frágil rompe no trato digestivo — é comum o achado de esporocistos livres nas fezes.

§ 10.5 · Quadro clínico

Intensidade dependente do inóculo

Pode ser assintomático ou sintomático intenso (diarreia, dor abdominal). A intensidade depende do número de cistos ingeridos — milhares de células destruídas simultaneamente para a gametogonia. Curso curto: o parasito "vai embora" depois de fechar o ciclo, e o diagnóstico raramente é fechado.

+Complemento · sarcocistose muscular

O homem pode atuar acidentalmente como hospedeiro intermediário ao ingerir água/vegetais contaminados com oocistos/esporocistos do ambiente. Os esporozoítos invadem a circulação e encistam nos tecidos → sarcocistose muscular (miosite, dor, granulomas eosinofílicos).

provaPrevenção: ingestão de carnes bem cozidas (sarcocistose intestinal); evitar água não tratada e vegetais crus mal higienizados (sarcocistose muscular).

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Capitulum Undecimum
XI.
Glossário

Vocabulário operacional

Os termos que vão se repetir nas próximas aulas (Toxoplasma, Plasmodium) — fixar agora poupa confusão depois.

Trofozoíto
Forma vegetativa, ativa, do protozoário no hospedeiro.
Cisto
Forma de resistência originada de reprodução assexuada (amebas, giárdia, balantídio).
Oocisto
Forma de resistência originada de reprodução sexuada (coccídios).
Esquizogonia
Reprodução assexuada por divisão múltipla dentro de uma célula.
Esporozoíto
Forma infectante liberada do oocisto esporulado.
Esquizonte
O próprio parasito em fase de maturação assexuada — massa multinucleada antes da delimitação dos merozoítos.
Merozoíto
Cada um dos novos parasitos resultantes da esquizogonia.
Gametócito
Célula precursora imatura do gameta (macro ou micro).
Gameta
Forma sexuada madura — macro = feminino imóvel; micro = masculino flagelado.
Hosp. definitivo
Em coccídios: onde ocorre a reprodução sexuada. Em helmintos: onde está a forma adulta.
Hosp. intermediário
Em coccídios: onde ocorre a reprodução assexuada. Em helmintos: onde está a forma jovem/larvária.
Monoxeno
Ciclo com um único hospedeiro.
Heteroxeno
Ciclo com mais de um hospedeiro.
Tissular
Droga que age no tecido (atravessa o intestino).
Luminar
Droga que age na luz intestinal (não é absorvida).
MEAP
Meningoencefalite Amebiana Primária — Naegleria fowleri.
EGA
Encefalite Granulomatosa Amebiana — Acanthamoeba, Balamuthia.
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Capitulum Duodecimum
XII.
Pontos-chave para prova

O que cai

21 itens curados a partir da fala da professora — para ler na véspera.

  1. Tratamento da amebíase segue o princípio da localização: tissular (metronidazol/tinidazol) para invasão de mucosa; luminar (paromomicina) para portador assintomático. Em casos invasivos, combinar as duas classes.
  2. Portador assintomático NÃO se trata com metronidazol — a droga é absorvida no delgado e não atinge a luz onde está o parasito.
  3. Mecanismo do metronidazol: pró-droga ativada por enzima do parasito anaeróbio → lesa o DNA. Toxicidade seletiva = ativação + acesso.
  4. Amebas comensais (Endolimax nana, Entamoeba coli, E. dispar, Iodamoeba, E. hartmanni) não causam doença, mas sinalizam transmissão fecal-oral ativa (sentinelas).
  5. Amebas de vida livre são raras, mas altamente letais; Acanthamoeba e Balamuthia alternam trofozoíto/cisto no próprio hospedeiro — a Naegleria não forma cisto no homem.
  6. Naegleria fowleri → entrada nasal em águas doces mornas → MEAP fulminante, ~100% letal. Atravessa a placa cribriforme.
  7. Acanthamoeba → ceratite em usuários de lentes (solução contaminada por água de torneira); EGA em imunossuprimidos via pele/pulmão.
  8. Balantidium coli → único protozoário ciliado patogênico humano; macro (reniforme) e micronúcleo; reservatório = suínos; quadro grave só em imunossuprimidos. Tetraciclina é a 1ª escolha.
  9. Coccídios (Apicomplexa) introduzem esquizogonia + gametogonia no mesmo ciclo. Termos novos: esporozoíto, trofozoíto, esquizonte, merozoíto, oocisto.
  10. Cisto vs. oocisto: cisto = resistência de reprodução assexuada; oocisto = resistência de reprodução sexuada.
  11. Esporulação: Cryptosporidium já sai infectante (autoinfecção, pessoa-a-pessoa); Cystoisospora 24–48 h; Cyclospora 1–2 semanas.
  12. Cryptosporidium ocupa posição intracelular extracitoplasmática (apical) — exclusiva e diagnóstica.
  13. Cryptosporidium produz dois tipos de oocisto: parede grossa (eliminado) e parede fina (rompe internamente → autoinfecção).
  14. Diarreia do Cryptosporidium é coleriforme, com perda maciça de eletrólitos; pode ser fulminante; comparável ao V. cholerae; mediada pela inflamação do hospedeiro (não por toxina parasitária).
  15. Cryptosporidium é o único coccídio com transmissão pessoa-a-pessoa, zoonótica e respiratória por aerossol.
  16. Intolerância à lactose é característica e mais intensa na criptosporidiose, pela posição apical que compromete a borda em escova.
  17. Tratamento das coccidioses: Cyclospora e Cystoisospora → SMX-TMP; Cryptosporidium → nitazoxanida (limitada); em imunossuprimido o foco é restaurar imunidade (HAART).
  18. Surto de Milwaukee: clássico de criptosporidiose por contaminação de reservatório; o oocisto resiste ao tratamento padrão de água — ozônio é o que inativa.
  19. Sarcocystis é heteroxeno: humano como definitivo (cisto na carne crua → gametogonia → oocisto nas fezes); como intermediário, cistos em musculatura.
  20. Definitivo x intermediário em coccídios = forma de reprodução (sexuada x assexuada); em helmintos = idade do parasito.
  21. Prevenção do Sarcocystis = carne bem cozida (intestinal) + água tratada + vegetais bem higienizados (muscular).
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Capitulum Decimum Tertium · Casuistica
XIII.
DIJC · 5 cenários de prova

Casos clínicos plausíveis

Cinco vinhetas com cara de prova da professora — cada uma decomposta em Diagnóstico, Investigação, Justificativa parasitológica e Conduta.

i. Caso · pediatria · neuro

Lactente de 15 meses, no Ceará, com cefaleia, coriza e rebaixamento súbito após banho em reservatório comunitário

DDiagnóstico

Meningoencefalite Amebiana Primária (MEAP) por Naegleria fowleri.

IInvestigação

LCR turvo com pleocitose neutrofílica, pressão liquórica elevada; visualização direta de trofozoítos amebóides móveis em LCR a fresco. Imagem com edema cerebral em região fronto-orbitária / bulbo olfatório.

JJustificativa parasitológica

Água doce, morna e estagnada do reservatório veicula trofozoítos (e a forma biflagelada). Pela mucosa nasal, a ameba sobe pelo nervo olfatório, atravessa a placa cribriforme do etmoide e destrói o bulbo olfatório e o córtex adjacente. Não forma cisto no homem — daí o curso fulminante (~7 dias).

CConduta

Anfotericina B convencional (intravenosa e intratecal), imediata e precoce — pilar central. Suporte intensivo. Profilaxia: evitar imersão de cabeça em águas doces mornas paradas; investigar reservatório comunitário.

ii. Caso · oftalmologia

Mulher de 27 anos, usuária de lentes de contato gelatinosas, dor ocular intensa, fotofobia e infiltrado corneano refratário a antibacterianos

DDiagnóstico

Ceratite amebiana por Acanthamoeba sp.

IInvestigação

Anamnese: lavava o estojo de lentes com água de torneira e prolongava o uso. Exame: infiltrado corneano em "anel"; raspado para microscopia (cistos de dupla parede) e cultura em ágar não-nutriente com E. coli. PCR confirmatório.

JJustificativa parasitológica

Microlesões repetidas pelo manuseio das lentes abrem porta no epitélio corneano (que íntegro não é invadido). A solução de lente contaminada por água de torneira permite a multiplicação da ameba na própria solução. Disseminação para SNC a partir do foco corneano é evento raríssimo.

CConduta

Tratamento prolongado com biguanidas tópicas (PHMB ou clorexidina) ± diamidinas. Suspender uso de lentes. Educação: nunca usar água de torneira para enxaguar/armazenar lentes; substituir estojo regularmente. Risco real de perda do olho se atraso.

iii. Caso · ocupacional · imuno­supressão

Tratador de suínos, HIV+ com CD4 baixo, diarreia disentérica intensa há 3 semanas; exame de fezes mostra protozoário ciliado com macronúcleo reniforme

DDiagnóstico

Balantidíase invasiva por Balantidium coli — diferencial direto da amebíase no imunossuprimido.

IInvestigação

Parasitológico de fezes: trofozoítos ciliados, móveis, com macronúcleo reniforme e micronúcleo adjacente. Colonoscopia/biópsia: ulcerações profundas tipo amebíase. Excluir E. histolytica por sorologia/PCR.

JJustificativa parasitológica

Reservatório principal são os suínos; transmissão estritamente fecal-oral por ingestão de cistos. No imunossuprimido, o trofozoíto invade a mucosa pela secreção de hialuronidase + ação ciliar mecânica → ulcerações profundas idênticas às da amebíase.

CConduta

Tetraciclina (1ª linha); metronidazol como alternativa de 2ª linha. Suporte hidroeletrolítico, controle de infecções oportunistas, otimização da HAART. Educação ocupacional: EPI no trato com suínos, higiene rigorosa de mãos e alimentos.

iv. Caso · HIV/AIDS · diarreia coleriforme

Paciente com AIDS (CD4 < 50), diarreia aquosa volumosa, perda de 8 kg em um mês, intolerância à lactose; oocistos pequenos ácido-álcool resistentes nas fezes

DDiagnóstico

Criptosporidiose crônica grave por Cryptosporidium sp., com possível disseminação hepatobiliar/respiratória.

IInvestigação

Pesquisa de oocistos em fezes pelo método de Kinyoun (ácido-álcool resistente, pequenos, ~4–6 µm). PCR. Avaliar via biliar (US/CPRE) — colangite esclerosante e colecistite acalculosa em CD4+ < 50. Considerar pesquisa em escarro (transmissão por aerossol).

JJustificativa parasitológica

Posição intracelular extracitoplasmática apical → comprometimento das enzimas de borda em escova (lactase) e atrofia vilosa → intolerância à lactose e má absorção. Diarreia coleriforme mediada por resposta inflamatória do hospedeiro (não por toxina parasitária). Os oocistos de parede fina mantêm autoinfecção interna contínua, perpetuando o quadro.

CConduta

Pilar = otimização da HAART (restaurar CD4+ é o que efetivamente interrompe o quadro). Suporte hidroeletrolítico vigoroso; nitazoxanida como tentativa farmacológica (eficácia limitada no imunossuprimido); paromomicina ± azitromicina como alternativas. Dieta sem lactose. Isolamento de contato.

v. Caso · zoonose alimentar

Adulto saudável, diarreia profusa e dor abdominal 24 h após churrasco com carne bovina malpassada; fezes com esporocistos livres

DDiagnóstico

Sarcocistose intestinal por Sarcocystis hominis (homem como hospedeiro definitivo).

IInvestigação

Parasitológico de fezes: esporocistos livres (parede do oocisto frágil, rompe no trato digestivo). História alimentar dirigida (consumo recente de carne bovina crua/malcozida em ambiente coletivo; outros comensais com sintomas semelhantes).

JJustificativa parasitológica

Sarcocystis é heteroxeno: o bovino é intermediário (cistos em musculatura) e o homem é definitivo. A intensidade dos sintomas é proporcional ao número de cistos ingeridos — milhares de células destruídas simultaneamente para a gametogonia. Não há fase assexuada no homem → quadro autolimitante.

CConduta

Suporte hidroeletrolítico — autolimitante. Educação alimentar: carne bem cozida (intestinal); evitar água não tratada e vegetais crus mal higienizados (profilaxia da forma muscular acidental).