IAula
PParasitologia Médica · 2026.1 Vol. I · 04 · maio · 2026
Doença parasitária · que mais mata no mundo

Malária. o sangue, o vetor & o trópico.

Patogenia, diagnóstico, tratamento e epidemiologia em uma única peça editorial — pensada para a prova da Profa.

Cerca de meio milhão de mortes ao ano, principalmente em crianças. No Brasil predomina o P. vivax; no mundo, o P. falciparum mata. Esta edição costura a biologia do parasito à clínica do paroxismo, à microscopia da gota espessa e à geografia da Amazônia Legal.

P. falciparum P. vivax P. malariae Anopheles Gota espessa DIJC
Mortes/ano≈ 500 mil
BrasilVivax predominante
Padrão-ouroMicroscopia
VacinaSó falciparum
Resumo executivo

Sete coisas para nunca esquecer.

  • Malária mata mais que qualquer outra doença parasitária — em torno de 500 mil óbitos/ano, sobretudo crianças.
  • No Brasil, três espécies: P. vivax (predominante), P. falciparum (mais grave) e P. malariae (raríssima).
  • Sequestro de hemácias é a marca clássica do falciparum — base da malária cerebral, placentária e pulmonar.
  • Hipnozoítos existem em vivax (e ovale) → exigem primaquina para evitar recidiva.
  • Padrão-ouro do diagnóstico: gota espessa + esfregaço.
  • Cloroquina ainda em vivax/malariae; falciparum usa artemisinina (ACT).
  • Vacina existe — é só para falciparum, por isso não consta no calendário brasileiro.
1 Magnitude da doença

Doença milenar, mortalidade contemporânea.

A malária acompanha a espécie humana há tanto tempo que moldou a própria biologia da hemácia. Hoje continua sendo a doença parasitária que mais mata no mundo.

Impacto evolutivo

O sangue como campo de batalha.

Em regiões endêmicas, doenças hereditárias da hemácia (como a falciforme) chegaram a representar vantagem adaptativa: indivíduos com defeito de hemácia tinham, em determinados contextos, mais chance de sobreviver do que aqueles plenamente suscetíveis à malária. Há trabalhos que sugerem que a própria dispersão da humanidade está ligada a populações fugindo da doença.

É uma doença que não é de agora, há muito tempo nos acompanha, modificou com tudo que nós fizemos.

— Profa., aula de 04/05/2026
Importante para prova

A malária é a doença parasitária que mais mata no mundo: ≈ 500 mil mortes/ano, principalmente crianças. Em segundo lugar viria a amebíase, com cerca de 6 vezes menos mortes (≈ 100 mil óbitos/ano).

2 Espécies relevantes

Três Plasmodium no Brasil.

A geografia decide tudo. No mundo, falciparum é a estrela da gravidade. No Brasil, vivax é o protagonista da rotina ambulatorial.

Mais graveMundo

P. falciparum

Brasil
Minoritário; recuou desde os anos 40
Ciclo
48 h — terçã maligna
Vacina
Sim (RTS,S/AS01)
Marca
Sequestro de hemácias e malária cerebral
PredominanteBrasil

P. vivax

Brasil
Maioria absoluta dos casos
Ciclo
48 h — terçã benigna
Vacina
Não
Marca
Hipnozoítos hepáticos → recidiva
Mais branda (aguda)Rara

P. malariae

Brasil
Rara — co-infecção mista mais comum que isolada
Ciclo
72 h — quartã
Vacina
Não
Marca
Crônica → nefrite por imunocomplexos
Importante para prova

A vacina existe para falciparum (a espécie mais grave do mundo). No Brasil, ela não se justifica em massa porque aqui predomina o vivax.

Pegadinha — não simplifique

O P. vivax não é sempre “intermediário”: a literatura contemporânea reconhece quadros graves e fatais (renais, pulmonares, cerebrais). E o P. malariae não é “inofensivo”: na crônica, deposita imunocomplexos no glomérulo e leva a síndrome nefrótica (nefrite da malária quartã).

3 Ciclo biológico

Da picada ao paroxismo, em sete passos.

O parasito “aposta” na fase hepática — uma única célula parasitada gera dezenas de milhares de parasitos. Depois é o reino das hemácias, em ciclos rápidos.

Fluxo simplificado · esquizogonia humana
  1. Picada do Anopheles

    A fêmea do mosquito inocula esporozoítos no tecido subcutâneo do hospedeiro (não diretamente no vaso).

  2. Migração tecidual

    Esporozoítos atravessam ativamente células até atingir capilares e migrar pela corrente sanguínea.

  3. Amplificação hepática

    Uma única célula hepática parasitada produz 10.000 a 40.000 parasitos; em falciparum, até 40.000.

  4. Invasão de hemácias

    Merozoítos liberados invadem hemácias e iniciam a esquizogonia eritrocitária.

  5. Ciclos repetidos

    48 h em falciparum e vivax; 72 h em malariae. Nova ruptura, nova febre.

  6. Hipnozoítos (só vivax/ovale)

    Parte dos parasitos hepáticos fica latente — base biológica das recidivas tardias.

  7. Gametócitos circulantes

    Formas sexuadas atingem o sangue periférico — material que o mosquito vai recolher na próxima picada e fechar o ciclo.

Correção que cai

A figura nova mostrada em aula sugeriu que “esporozoítos se formam na medula óssea” — está incorreto. Esporozoítos surgem da esporogonia no oocisto, na parede do estômago do Anopheles. A medula óssea, no humano, é reservatório/sítio de maturação de gametócitos (sobretudo de P. vivax) — não local de formação de esporozoítos.

4 Identificação morfológica

Lâmina, leitura editorial.

A interpretação nunca se baseia em uma única hemácia. Procure padrão.

EsfregaçoFalciparum

P. falciparum

Trofo
Anel; dupla cromatina e formas marginais (accolé/appliqué)
Gametócito
Meia-lua — clássico e patognomônico
Hemácia
Não deformada, não aumentada
Granulação
De Maurer
Plus
Múltiplos parasitos por hemácia, mais frequente aqui
EsfregaçoVivax

P. vivax

Trofo
Irregular/ameboide — “queria ser anel, mas é irregular”
Hemácia
Deformada e aumentada
Granulação
De Schüffner (rosadas, citoplasmáticas)
Formas
Todas circulam: trofos jovens, maduros, esquizontes, gametócitos
Plus
Sem fenômeno significativo de sequestro profundo
EsfregaçoMalariae

P. malariae

Trofo
Em banda equatorial (típico do maduro)
Hemácia
Sem deformação
Granulação
Pontilhado de Ziemann (escasso, difícil de corar)
Formas
Trofos jovens são raros no esfregaço
Plus
Crônica → atenção a lesão renal
— quadro comparativo —
Forma de meia-lua (gametócito)
P. falciparumSim — clássica
P. vivaxNão
P. malariaeNão
Hemácia deformada/aumentada
P. falciparumNão
P. vivaxSim
P. malariaeNão
Granulações
P. falciparumMaurer
P. vivaxSchüffner
P. malariaeZiemann · discretas
Trofozoíto maduro
P. falciparumAnel (jovem) → escasso no periférico
P. vivaxIrregular / ameboide
P. malariaeBanda
Múltiplos parasitos por hemácia
P. falciparumFrequente
P. vivaxPouco frequente
P. malariaePouco frequente

Se eu acho a deformação, não vou em cima de uma célula só, ela é o padrão.

— Profa., sobre interpretação de lâmina
5 Patogenia

A destruição é obrigatória.

Sem destruir hemácias, o parasito não se multiplica. A questão é entender por que o estrago é maior do que parece.

5.1 · Destruição de hemácias

Padrão obrigatório, em ciclos rápidos.

A esquizogonia eritrocitária ocorre a cada 48 a 72 h. Cada hemácia rota libera novos merozoítos — o número exato por esquizonte varia por espécie (~22 em falciparum, ~16 em vivax, ~8 em malariae) — e cada onda derruba uma quantidade enorme de células.

— por que a anemia é tão grave —
1 Destruição direta

As hemácias parasitadas rompem a cada ciclo eritrocitário.

2 Hiperatividade do baço (com bônus imunológico)

O parasito libera moléculas que se fixam em hemácias sadias, e o hospedeiro produz autoanticorpos com afinidade cruzada — o baço acaba fagocitando hemácias sem parasito junto.

3 Tempestade de citocinas → diseritropoiese

Citocinas pró-inflamatórias desregulam a medula óssea, reduzindo a produção de novas hemácias. Tecnicamente: diseritropoiese.

Multiplica isso por três: é três vezes maior a quantidade de hemácias destruídas em função da presença do parasito.

— Profa., sobre o porquê da anemia exuberante
— o diferencial do falciparum —
Importante para prova · Sequestro

O P. falciparum faz sequestro de hemácias. Moléculas de superfície (PfEMP1 e família) se ligam a receptores endoteliais — a hemácia parasitada adere ao vaso e some do baço. Atualização contemporânea: hoje sabemos que P. vivax também é capaz de citoaderência (ICAM-1, CSA) — base das complicações graves do vivax.

Consequência diagnóstica: na lâmina de falciparum aparecem geralmente apenas anel + meia-lua — formas intermediárias estão aderidas ao endotélio.

5.3 · Cascata vascular no SNC

Como o sequestro vira malária cerebral.

Hemácia parasitada cola no endotélio → rosetas (hemácias sadias aderem em torno) → redução da luz do microvaso → resposta inflamatória → ruptura → quadro agudo. O receptor classicamente associado ao endotélio cerebral é o ICAM-1 (não CD36, que é abundante em outros leitos vasculares). A clínica é de encefalopatia isquêmica/inflamatória — TNF-α, hipóxia tecidual, acidose láctica e consumo de glicose.

Por que falciparum prefere vasos pequenos

O calibre do microvaso é compatível com o tamanho da hemácia, e os receptores de predileção são abundantes nesses leitos. Não é uma adesão aleatória — é adesão preferencial dirigida pelo parasito.

5.4 · Por que falciparum é grave já na primoinfecção

Indivíduo não-imune não tem desconto.

Em áreas endêmicas, quem sobrevive a múltiplas infecções por falciparum desenvolve premunição — imunidade clínica não-esterilizante, que mantém parasitemia baixa e protege contra formas graves. Por isso a doença mata sobretudo crianças < 5 anos nesses lugares: quem chega ao fim da infância já se “selecionou”. Atenção: primoinfecção é altíssimo risco — mas “malária grave” é diagnóstico operacional (coma, IRA, hipoglicemia, parasitemia > 100.000/µL).

5.5 · Hemoglobinopatias e proteção

Por que a hemácia falciforme protege.

A vantagem clínica é específica do P. falciparum e ocorre primariamente nos heterozigotos (HbAS — traço falciforme). Em hipóxia, a HbS oxida e altera o microambiente eritrocitário (com queda intensa de potássio intracelular), matando o parasito. Homozigotos (HbSS) têm doença grave e não ganham vantagem clínica.

— gestante: três sequestros em paralelo —
Importante para prova · Malária na gestante

Em gestante, falciparum é grave por mecanismos próprios — em particular pelo sequestro placentário mediado por uma variante específica de PfEMP-1 (a VAR2CSA) que se liga ao sulfato de condroitina A (CSA) do sinciciotrofoblasto.

A Sequestro placentário

Microcirculação útero-placentária comprometida (analogia clínica com pré-eclâmpsia/Doppler). Resultado: aborto, parto prematuro, restrição de crescimento, baixo peso ao nascer.

B Sequestro pulmonar

Maior adesão na barreira hematoaérea → edema pulmonar, raro fora da gestação e frequente no fim da gestação (com diafragma já comprimido).

C Sequestro cerebral

Mantido como em qualquer adulto.

Correção fina — “imunidade perdida na gestação”

Não se perde a imunidade sistêmica. A primigesta é vulnerável porque sua premunição prévia não cobre as linhagens com VAR2CSA, que aderem exclusivamente à placenta. Multigestas vão acumulando anticorpos contra essas variantes a cada gestação.

5.7.2 · Pergunta de aluna · antecipar o parto?

Quem está fazendo o dano é o parasito.

“Para livrar a gestação seria preciso eliminar o parasito.” Importante: como a citoaderência placentária depende exclusivamente da ligação VAR2CSA → CSA do sinciciotrofoblasto, a saída da placenta no parto remove o substrato físico-receptor dessa população específica de parasitos. O ponto da Profa. continua valendo: o tratamento é antiparasitário; antecipar o parto não é a primeira escolha.

5.7.1 · Malária congênita

Rara — e não pelo motivo intuitivo.

A transmissão fetal é incomum porque a placenta intacta atua como barreira física e imunológica eficiente, e não simplesmente porque a doença mata a gestante antes. Diferente da toxoplasmose, na malária o quadro mais grave para a gestante é o final da gestação.

— outras complicações de falciparum —
RenalIRA

Insuficiência renal

Em falciparum é majoritariamente necrose tubular aguda por hipoperfusão, hemólise e obstrução microvascular — não primariamente imunocomplexos (esses são marca do malariae).

MetabólicaHipoglicemia

Hipoglicemia

Gasto inflamatório altíssimo, reposição de hemácias, consumo direto de glicose pelo parasito e inibição da gliconeogênese hepática pelo TNF-α.

AcidoseLactato

Acidose metabólica

Causa primária: hipóxia tecidual por sequestro/rosetas → metabolismo anaeróbico massivo. Soma-se enzima do parasito que produz lactato e perda do tampão hemoglobínico.

HemostasiaCIVD

Plaquetopenia · CIVD

Adesão constante consome plaquetas; a medula bagunçada produz menos. Múltiplos pontos de adesão → microtrombos → coagulação intravascular disseminada.

6 Sintomatologia

O paroxismo, cronometrado.

Anamnese epidemiológica é decisiva: paciente vindo de área de transmissão fecha o raciocínio antes mesmo da microscopia.

6.1 · Incubação

Curta — mas com pegadinha do vivax.

Os primeiros ciclos eritrocitários costumam ser assintomáticos; os sintomas surgem quando a parasitemia ultrapassa o limiar pirogênico (~10–100/µL). Em P. vivax e P. ovale, hipnozoítos hepáticos podem fazer a doença se manifestar semanas ou meses depois.

— periodicidade clássica —
P. falciparum
a cada 48 h · 1º e 3º dia
Terçã maligna
P. vivax
a cada 48 h · 1º e 3º dia
Terçã benigna
P. malariae
a cada 72 h · 1º e 4º dia
Quartã
Realidade contemporânea

O padrão terçã/quartã rígido é cada vez menos visto na prática — diagnóstico/tratamento precoces pegam o paciente em fase de assincronismo, e o que predomina é uma febre irregular cotidiana.

6.4 · O paroxismo, em três tempos

Calafrio → calor → sudorese profusa.

A lise dos esquizontes libera GPI e hemozoína, que ativam macrófagos a despejarem TNF-α e IL-1. A subida térmica vem com tremores; o pico, com calor intenso, taquicardia, pele vermelha, sede e olhos avermelhados; a queda, com sudorese maciça (“enrola-desenrola, troca de lençol molhado”). Pouco responsiva a antitérmicos comuns.

É uma febre agulhada. O corpo está quente e a pessoa fica com olhos avermelhados, taquicardia, muita sede.

— Profa.
Premunição na clínica

Esse quadro exuberante é típico de primoinfectados/não-imunes (viajantes, brasileiros do extra-amazônica). Em populações cronicamente expostas a paroxística pode ser frustra ou ausente — premunição segurando os sintomas.

7 Diagnóstico

Padrão-ouro é microscopia.

Gota espessa identifica e quantifica; esfregaço resolve dúvidas morfológicas. Teste rápido entra onde não há microscópio.

Gota espessa · padrão-ouro
Mais sensível, padrão da OMS.

3 a 5 µL de sangue (cerca de uma gota), com lise das hemácias por solução hipotônica. Concentra parasitos e permite quantificar parasitemia — fundamental para classificar gravidade. Identifica a espécie no mundo todo.

A favorSensibilidade alta; volume ~3–5× maior que o esfregaço; é o método primário de identificação de espécie.
LimitesHemácias lisadas → não vê deformação eritrocitária; exige profissional muito treinado.
Esfregaço · auxiliar
Vê o parasito dentro da hemácia.

1 a 2 µL, sem lise. Mostra forma e granulação da hemácia, deformação, halo. Excelente para dirimir dúvidas morfológicas quando a gota distorce os parasitos.

A favorDiferencia espécie pela morfologia da célula hospedeira (Schüffner em vivax, deformação, etc.).
LimitesSensibilidade baixa; só detecta com parasitemia alta.

A gota espessa eu vejo só o parasito, só a tripinha. O esfregaço me dá tudo: forma da hemácia, granulação, deformação.

— Profa.
7.1.2 · Teste rápido (imunocromatográfico)

Onde não há microscópio.

Indicado para áreas remotas (Amazônia, garimpos). Detecta antígenos do parasito. A literatura laboratorial classifica isso como diagnóstico direto (e não “indireto”, como às vezes se diz). Tipicamente 4 bandas:

  • HRP-2 — específica de falciparum
  • Pan-malárico — antígeno comum a todos os Plasmodium
  • Demais bandas: variações por kit (Pf/Pv traz pDHL específica de vivax)
Importante para prova · limites do teste rápido

No formato clássico Pf/Pan, o teste distingue só falciparum vs. não-falciparum — pouco útil onde predomina vivax. Cepas com deleção de HRP-2 dão falso-negativo nesse formato. O formato moderno Pf/Pv com pDHL resolve parte do problema, mas reduz a sensibilidade geral.

Outros limites: testes qualitativos (não quantificam parasitemia, ruim para gravidade) e HRP-2 persiste por semanas após cura → falso-positivo.

Hierarquia diagnóstica

Microscopia (gota espessa ± esfregaço) é o padrão-ouro. Teste rápido é secundário, recomendado apenas onde a microscopia não é viável.

8 Tratamento

Não há fórmula única. Há decisão clínica.

Espécie, peso, gestação, gravidade, idade, exposição prévia e padrão local de resistência — tudo entra na conta.

P. vivaxRecidiva
Cloroquina por 3 dias + primaquina (esquizonticida tecidual contra hipnozoítos hepáticos).
Esquema antigo, ainda usável. Primaquina é contraindicada na gestação, em < 6 meses e em deficiência de G6PD (risco de hemólise).
P. malariaeCloroquina
Cloroquina — esquema mais simples, sem necessidade de cobertura hipnozoiticida.
Atenção à doença crônica (síndrome nefrótica) mesmo após erradicação aguda.
P. falciparumACT
Combinações com artemisinina (ACT). Cloroquina não é mais opção — resistência amplamente descrita.
Dose única de primaquina ao final tem ação gametocitocida (quebra transmissão para o mosquito). Há resistência crescente também aos ACTs.
Importante para prova · primaquina & hipnozoítos

Primaquina é o agente que ataca os hipnozoítos de vivax (e ovale). Sem ela, o paciente recidiva. Em gestante, primaquina é proibida — a literatura preconiza cloroquina semanal supressiva até o fim da gestação/amamentação, com primaquina depois.

Pegadinha · malária mista

Em malária mista (falciparum + vivax), não basta tratar pela espécie mais grave: os ACTs do falciparum não atingem os hipnozoítos do vivax. Esquema correto = ACT + primaquina.

9 Epidemiologia

Geografia, vetor & floresta.

No mundo, a curva caía até 2015 — agora estagnou e volta a subir. No Brasil, tudo gira em torno da Amazônia Legal.

9.1 · Cenário mundial

O freio depois de 2015.

Até cerca de 2015 a queda dos casos era expressiva. A partir daí a curva estagnou e voltou a subir. A mortalidade segue caindo, mas em ritmo bem menor. A meta da OMS hoje (Estratégia Técnica Global 2016–2030) é reduzir incidência e mortalidade em ≥ 90% até 2030 e eliminar a doença em ≥ 35 países.

9.2 · Brasil

Amazônia Legal manda no mapa.

A transmissão se concentra na Amazônia Legal — todos os estados do Norte + parte do Maranhão + Mato Grosso. No interior do Nordeste a limitação não é a temperatura (ela é ideal), e sim a aridez — falta umidade e coleções hídricas para o Anopheles darlingi.

Casos fora da Amazônia são, em regra, importados. Mas existe transmissão autóctone em focos residuais de Mata Atlântica (Sudeste/Sul) — a chamada malária de bromélia, mantida por mosquitos do subgênero Kerteszia, com circulação zoonótica entre humanos e primatas.

P. vivax
predominante
Maioria absoluta
P. falciparum
minoritário
Recuou desde 1940
Mista
circula
Mais que malariae só
P. malariae
rara
Casos esparsos
P. ovale
não autóctone
Apenas importada
Importante para prova · perfil do paciente

Predominantemente trabalhadores rurais, sobretudo em garimpos. Em capitais do Norte (ex.: Manaus) há transmissão urbana e periurbana — sustentada por “pauperização da malária”: migração, ocupação desordenada, falta de saneamento, criadouros artificiais.

Mortalidade tende a ser maior em pacientes não-amazônicos (primoinfecção, sem premunição). Mas atenção: nem toda população amazônica é “premunida” — fluxos migratórios renovam a coorte de não-imunes.

Correção biológica

A ideia de “transmissão transovariana” trazida em aula passada não procede para Plasmodium: o mosquito infectado adquire malária exclusivamente no repasto sanguíneo. Transovariana é mecanismo de outros patógenos (alguns arbovírus, Babesia em carrapatos).

9.5 · Recurso de consulta

Painel epidemiológico do MS.

O Ministério da Saúde mantém um painel epidemiológico de malária com dados por município e padrões locais de resistência — útil para escolher esquema terapêutico em paciente vindo de área específica.

10 Prevenção

Sem vacina prática, evite a picada.

A prevenção brasileira ainda se apoia em medidas mecânicas e comportamentais — e em diagnóstico/tratamento precoces, que são a maior arma de saúde pública.

Importante para prova · vacina

Existe vacina, mas só para P. falciparum (RTS,S/AS01). Não consta no calendário brasileiro porque (a) aqui predomina vivax e (b) a própria vacina tem eficácia baixa a moderada e imunidade que decai — a OMS restringe a recomendação a crianças de áreas de média/alta transmissão na África Subsaariana.

Crepúsculo17h e madrugada

Hábito do vetor

Anofelinos têm dois picos crepusculares — vespertino e matutino. A proteção precisa cobrir os dois extremos do dia e a madrugada.

MecânicaBorrifação

Mosquiteiros & telas

Mosquiteiros impregnados são fortes na África. No Brasil, a maior queda histórica veio da borrifação intradomiciliar + diagnóstico/tratamento precoces. Há resistência crescente dos vetores aos inseticidas.

PessoalDEET

Repelente

DEET 20–50% pode proteger por 6 a 13 h — bem mais que as “3–4 h” do senso comum. Roupas de manga longa pouco viáveis no calor amazônico.

EcologiaAnopheles darlingi

Criadouros

O principal vetor brasileiro prefere águas doces, limpas e parcialmente ensolaradas — remansos de rios e lagos — e não poças sombreadas no fundo da floresta densa.

Medida epidemiológica decisiva

Tratar todos os pacientes diagnosticados que retornam de áreas endêmicas. Em áreas sem o vetor isso evita letalidade individual; em áreas receptivas (que ainda têm Anopheles competente), evita a reintrodução do parasito.

⌘ DIJC · cenários de prova

Casos clínicos com cara de Profa.

Cinco vinhetas montadas a partir do material da aula. Em cada caso: D (doença + parasito), I (identificação parasitológica), J (justificativa da escolha) e C (conduta).

Como ler Os blocos D/I/J/C seguem o raciocínio que a Profa. costuma cobrar: primeiro fechar a doença, depois o achado parasitológico que prova, em seguida o porquê biológico daquele tratamento e, no fim, a conduta — sempre considerando peso, gestação e disponibilidade local.

Garimpeiro do sul do Pará, 32 anos.

Falciparum cerebral
I

Volta de período em garimpo na floresta. Há 5 dias com calafrios, picos febris a cada 48 h, cefaleia intensa. Hoje admitido com confusão mental, parasitemia > 5%, hipoglicemia e acidose. PA 80×50.

Doença + parasito

Malária grave por Plasmodium falciparum com malária cerebral e disfunção sistêmica.

Identificação parasitológica

Gota espessa: trofozoítos em anel (com dupla cromatina) e gametócito em meia-lua; várias hemácias com mais de um parasito; ausência de formas intermediárias no periférico (sequestro).

Justificativa

Sequestro mediado por PfEMP1 → adesão a ICAM-1 cerebral, rosetas e obstrução microvascular; hipóxia tecidual sustenta a acidose láctica e a hipoglicemia (TNF-α inibe gliconeogênese).

Conduta

Internar; artesunato EV seguido de ACT VO; suporte hemodinâmico, glicose, manejo da acidose; dose única de primaquina ao final (gametocitocida) — atenção a G6PD.

Primigesta de 22 anos, 32 semanas, vinda de Cruzeiro do Sul.

Falciparum placentário · pulmonar
II

Febre intermitente há 1 semana, dispneia progressiva nas últimas 24 h, estertores difusos, SpO₂ 88%. USG obstétrico: restrição de crescimento, alteração de Doppler de artéria umbilical.

Doença + parasito

Malária grave por P. falciparum em gestante: sequestro placentário + edema pulmonar.

Identificação parasitológica

Esfregaço com anéis e meia-lua; o achado-chave é a vinheta clínica + epidemiologia. Pode haver parasitemia periférica baixa apesar de placenta cheia.

Justificativa

Variante VAR2CSA da PfEMP1 liga-se ao CSA do sinciciotrofoblasto — explica a vulnerabilidade da primigesta apesar de premunição prévia. Aumento de adesão na barreira hematoaérea explica o edema pulmonar tardio.

Conduta

Internar em UTI; antimalárico parenteral (artesunato); suporte ventilatório/diurético com cautela; primaquina é proibida; acompanhamento obstétrico — antecipação de parto não substitui tratamento antiparasitário (mas a expulsão da placenta retira o substrato CSA).

Engenheiro de 40 anos, viajou a Manaus há 5 meses.

Vivax · recidiva
III

Teve quadro febril tratado na época da viagem. Hoje, em Natal, retorna com febre a cada 48 h, sudorese profusa, anemia leve. Não voltou à Amazônia.

Doença + parasito

Recidiva tardia de Plasmodium vivax a partir de hipnozoítos hepáticos.

Identificação parasitológica

Esfregaço: hemácias aumentadas e deformadas, com granulações de Schüffner; trofozoítos irregulares/ameboides; todas as formas circulam.

Justificativa

Tratamento prévio sem hipnozoiticida deixou parasitos latentes no fígado — recidiva tardia clássica do vivax; pacote inicial sem primaquina explica o reaparecimento.

Conduta

Cloroquina 3 dias + primaquina para cura radical (após descartar deficiência de G6PD); notificar; reforçar adesão.

Criança de 8 anos, ribeirinha, há mais de 1 ano com febres intermitentes.

Malariae crônico · nefrótica
IV

Episódios febris esparsos, edema progressivo em membros inferiores e periorbitário, urina espumosa. Proteinúria nefrótica, hipoalbuminemia.

Doença + parasito

Infecção crônica por Plasmodium malariae com síndrome nefrótica (nefrite da malária quartã).

Identificação parasitológica

Esfregaço: trofozoítos em banda equatorial; hemácias sem deformação; pontilhado de Ziemann escasso. Periodicidade febril a cada 72 h se aparecer.

Justificativa

Persistência prolongada do parasito → deposição de imunocomplexos no glomérulo → glomerulopatia. Diferente da IRA do falciparum, que é necrose tubular por isquemia/hemólise.

Conduta

Cloroquina; manejo nefrológico da síndrome nefrótica; vigilância renal a longo prazo; lembrar que erradicar o parasito não desfaz dano glomerular já estabelecido.

Universitária, 21 anos, voltou de expedição em Roraima.

Falciparum · primoinfecção
V

Picadas frequentes nos últimos dias da viagem. 9 dias depois: febre alta, calafrios, cefaleia intensa, taquicardia, olhos avermelhados. Teste rápido (formato Pf/Pan) negativo; clínica e epidemiologia muito sugestivas.

Doença + parasito

Suspeita forte de Plasmodium falciparum em primoinfecção; possível cepa com deleção de HRP-2.

Identificação parasitológica

Solicitar gota espessa + esfregaço imediatos. Se confirmar anel/meia-lua, fecha o diagnóstico apesar do teste rápido negativo.

Justificativa

Não-imune, sem premunição → altíssimo risco de progressão para malária grave. Teste rápido Pf/Pan dá falso-negativo em cepas HRP-2 deletadas; um teste Pf/Pv (com pDHL específica) poderia detectar.

Conduta

Não esperar: tratamento empírico/dirigido com ACT; internar para vigilância de critérios de gravidade; notificar; consultar painel do MS para perfil de resistência regional.

G Glossário

Vocabulário essencial.

Citoaderência
Adesão da hemácia parasitada ao endotélio, escapando do baço. Marca de P. falciparum; P. vivax também é capaz, em menor escala.
CIVD
Coagulação intravascular disseminada — complicação grave de falciparum por adesão e ativação plaquetária constante.
Diseritropoiese
Disfunção da hematopoese induzida por citocinas (TNF-α, IL-1) — base medular da anemia da malária.
Esporozoíto
Forma infectante inoculada pelo mosquito; formada na esporogonia, no oocisto da parede do intestino do Anopheles.
Esquizonte
Forma de divisão assexuada — ocorre tanto no hepatócito (tecidual) quanto na hemácia (eritrocitária).
Gametócito
Forma sexuada precursora; em falciparum tem o clássico formato de meia-lua. Vira gameta funcional só dentro do mosquito.
Gota espessa
Padrão-ouro: 3–5 µL com lise das hemácias; alta sensibilidade, identifica espécie e quantifica parasitemia.
Granulações de Schüffner
Pontilhado rosado na hemácia parasitada — clássico de P. vivax (e ovale).
Hipnozoíto
Forma latente hepática de P. vivax e P. ovale; causa recidivas tardias; alvo da primaquina.
HRP-2
Proteína de falciparum detectada nos testes rápidos; persiste por semanas após cura; cepas com deleção dão falso-negativo no formato Pf/Pan.
Paroxismo malárico
Tríade calafrio → calor → sudorese profusa, sincronizada à ruptura dos esquizontes.
Premunição
Imunidade clínica adquirida, antiparasito e não-esterilizante; mantém parasitemia subclínica e protege contra formas graves. Termo correto para a “semi-imunidade” da aula.
Rosetas
Aglomerados de hemácias sadias em torno de uma parasitada — agravam a obstrução microvascular no falciparum.
Sequestro de hemácias
Adesão preferencial de hemácias parasitadas em microvasos, sobretudo cerebrais (ICAM-1) e placentários (CSA via VAR2CSA).
Terçã / Quartã
Periodicidade febril — terçã = a cada 48 h (vivax e falciparum); quartã = a cada 72 h (malariae).
VAR2CSA
Variante de PfEMP1 que adere ao sulfato de condroitina A (CSA) da placenta; explica a malária da primigesta.
★ Pontos-chave para prova

21 sentenças para fechar a aula.

Cole isso no caderno antes da prova.

Parasitologia Médica · Aula 1 · 2026.1
  1. Malária é a doença parasitária que mais mata no mundo (≈ 500 mil mortes/ano), principalmente crianças.
  2. No Brasil ocorrem três espécies: P. vivax (predominante), P. falciparum (mais grave) e P. malariae (rara).
  3. Ciclo eritrocitário: 48 h em falciparum e vivax, 72 h em malariae — base das febres terçã e quartã (na prática, hoje, predomina febre irregular cotidiana).
  4. Uma única célula hepática parasitada produz 10.000 a 40.000 parasitos (até 40.000 em falciparum).
  5. Anemia da malária é desproporcional: destruição direta + fagocitose esplênica de hemácias sadias (com autoanticorpos) + supressão medular por citocinas (diseritropoiese).
  6. Sequestro de hemácias é a marca do P. falciparum; PfEMP1 → ICAM-1 cerebral e VAR2CSA → CSA placentário; P. vivax também faz, em menor escala.
  7. Toda primoinfecção por falciparum em não-imune é de altíssimo risco; “malária grave” é diagnóstico operacional (coma, IRA, hipoglicemia, parasitemia > 100.000/µL).
  8. Imunidade na malária é lenta, parcial e antiparasito — chama-se premunição; não se perde na gestação, mas a primigesta é vulnerável a linhagens VAR2CSA.
  9. Hemoglobinopatias (traço falciforme, HbAS) protegem especificamente contra P. falciparum — depleção de potássio intracelular mata o parasito.
  10. Hipnozoítos hepáticos existem em P. vivax e P. ovale; exigem primaquina para evitar recidiva.
  11. Diagnóstico padrão-ouro = gota espessa (3–5 µL, lise) — método primário no mundo todo; esfregaço é auxiliar, dirime dúvidas morfológicas.
  12. Teste rápido (Pf/Pan) distingue falciparum vs. não-falciparum; cepas com deleção de HRP-2 geram falso-negativo; o formato Pf/Pv resolve parte (pDHL).
  13. Sinais morfológicos: gametócito em meia-lua = falciparum; hemácia deformada/aumentada com Schüffner = vivax; trofozoíto em banda = malariae.
  14. Complicações de falciparum: malária cerebral, sequestro placentário (primigesta), edema pulmonar, IRA por necrose tubular, hipoglicemia, acidose láctica e CIVD/plaquetopenia.
  15. Paroxismo malárico: calafrio → calor → sudorese profusa; pouco responsivo a antitérmicos comuns; típico de não-imunes.
  16. No Brasil, transmissão se concentra na Amazônia Legal (Norte + parte do Maranhão + Mato Grosso); no interior do Nordeste a limitação é a aridez, não a temperatura.
  17. Existe transmissão autóctone extra-amazônica em focos de Mata Atlântica — malária de bromélia com vetores do subgênero Kerteszia.
  18. Mortalidade tende a ser maior em pacientes não-amazônicos (sem premunição), mas a Amazônia também tem grande coorte de não-imunes (migrantes, garimpeiros).
  19. Vacina existente é só para falciparum e tem eficácia limitada — não consta no calendário brasileiro; OMS recomenda África Subsaariana.
  20. Tratamento: cloroquina ainda em vivax/malariae; falciparum usa ACT com primaquina ao final (gametocitocida); cloroquina não é mais opção em falciparum.
  21. Em malária mista, o esquema correto é ACT + primaquina — tratar só pela espécie mais grave deixa hipnozoítos do vivax; primaquina é contraindicada em gestante, < 6 meses e G6PD.