Ficha de prova · Edição revisada
Parasitologia Médica Aula · 13 maio 2026 2026.1

Pulgas & Piolhos Ectoparasitas hematófagos de importância médica

Material de revisão de alta densidade para a prova: morfologia, ciclo, espécies-chave, peste, tungíase, pediculose e casos clínicos no estilo da professora. Tudo pronto para escanear no celular antes de entrar.

02grupos centrais
05espécies-âncora
2005último caso humano de peste · BR
~7 anoslimiar imunológico — pulicose infantil
01

IntroduçãoPor que estudar pulgas e piolhos juntos

O fio condutor do grupo

  • Insetos pequenos, difíceis de ver a olho nu.
  • Não voam — pulgas saltam, piolhos rastejam.
  • Adultos hematófagos (sangue como única fonte alimentar do estágio adulto).
  • Alta dependência do hospedeiro — passam a vida ligados a ele.
  • Nomenclatura popular já entrega: pulga da galinha, pulga do cachorro, pulga do rato.
Pegadinha técnica A generalização de que todo o grupo é hematófago obrigatório em todos os estágios está errada. Piolhos (Anoplura) sim — pulgas não: as larvas de pulga têm vida livre, com aparelho bucal mastigador, e comem matéria orgânica ressecada (especialmente fezes parcialmente digeridas dos adultos).
Outra pegadinha Pulgas não são altamente específicas: têm um hospedeiro preferencial, mas atacam outros (incluindo o ser humano) na falta dele. É exatamente essa baixa especificidade que as torna boas vetoras de zoonoses (peste). Piolhos sim — esses são altamente específicos.

1.2Percevejos de cama (Cimicidae)

  • Importância médica ainda em discussão; tema entrando em pauta com a resistência a inseticidas.
  • Reações alérgicas severas à saliva: urticária generalizada, crises asmáticas (relatos de letalidade).
  • Infestações crônicas: distúrbios nervosos e anemia ferropriva pela espoliação noturna.
  • Hoje, o impacto principal é o incômodo — mas o cenário pode mudar.
02

PulgasMorfologia, ciclo e parasitismo

Morfologia

Insetos <1 cm, achatados lateralmente (deslizam entre pelos), cor marrom-escura. Não voam — saltam.

O salto · Resilina

Proteína desorganizada em repouso que muda estrutura sob tensão e funciona como elástico biológico nas articulações das patas — permite saltos de várias vezes o próprio tamanho.

Importante para a prova A pulga não voa. Salta com auxílio de uma proteína elástica (resilina), localizada nas membranas articulares das patas (cutícula não esclerotizada).

2.2Holometabolia · ciclo completo

ovo → larva (L1, L2, L3) → pupa → adulto. Cada fase é morfologicamente muito distinta.

Holometábolos · pulgas

Cada fase muito diferente — desafio até reconhecer como o mesmo organismo.

Paurometábolos · barbeiros

Ninfas semelhantes ao adulto, no mesmo ecótopo, com a mesma dieta hematófaga. (Nomenclatura mais rigorosa que “hemimetábolos”.)

!

Tunga penetrans é exceção: tem só 2 estágios larvais (não 3).

!

Antes da pupa, a L3 tece um casulo oval e pegajoso que retém poeira e areia — não é simples poeira passiva.

2.3Aparelho bucal

  • Tipo perfurante, protegido por lábio.
  • Estiletos perfuram a pele e formam um canalículo de alimentação.
  • Palpos sensoriais detectam pressão e localizam o sangue.

2.4Pulgas como parasitos temporários

  • Larvas → comem fezes dos adultos (sangue pré-digerido), no ambiente.
  • Pupas → não se alimentam.
  • Adultos → exclusivamente sangue.
Cuidado conceitual “Parasito temporário” = aquele que visita o hospedeiro só para se alimentar e o abandona — não é definido pela fase do ciclo. Tunga penetrans (fêmea fecundada) é parasito permanente: penetra na epiderme e ali fica até morrer.

2.5Ciclo no ambiente

adulto (♂+♀) → cópula → ovos → L1 → L2 → L3 → casulo → pupa → adulto

  • Cada fêmea pode pôr ~1.000 ovos ao longo da vida.
  • Sobrevida no ambiente: 1,5 a 2 anos, conforme alimentação.
  • Adultos comem no hospedeiro; ovos caem da pelagem e o desenvolvimento das fases imaturas ocorre fora do hospedeiro (frestas, ninhos, camas).
Para a prova Para controlar infestação é preciso quebrar o ciclo no ambiente — atacar só os adultos não resolve.
03

Quadros clínicosReações à picada da pulga

3.1Hipersensibilidade à saliva

  • A reação é resposta imune à saliva da pulga.
  • Crianças até ~7 anos reagem mais — sistema de tolerância imunológica imaturo.
  • Com a exposição repetida, citocinas regulatórias modulam a resposta.

Pulicose

Quadro geral
O que é
Quadro clínico geral causado pelo incômodo das picadas. Em pessoas atópicas, reação dérmica generalizada e intensamente pruriginosa.

Prurigo estrófulo

Infantil · IgE
Quem
Prurigo agudo infantil, especialmente em crianças atópicas. Resposta mediada por IgE.
Lesão
Aparecimento súbito de pápulas elevadas, avermelhadas, com vesícula central típica — podendo ocorrer em áreas distantes da picada.

Prurigo de Hebra

Forma grave
Quadro
Forma crônica e grave em crianças. Pápulas persistentes, prurido intenso → liquenificação, escoriações, crostas.
Sistêmico
Pode haver febre e linfadenopatia inguinocrural.
Para a prova · Pulga × mosquito A picada da pulga é mais irritante que a de mosquito e desencadeia mais hipersensibilidade. Critério morfológico objetivo: pápulas/nódulos ~1 cm de diâmetro são mais característicos da pulga.

3.3Caso clássico de aula

Criança ~5 anos, múltiplas pápulas pruriginosas. Anti-histamínico não resolveu. Diagnóstico diferencial mosquito × pulga → ir até a residência, identificar vetor, quebrar o ciclo no ambiente.

“Como entraram com anti-histamínico e não deu resultado, qual é a estratégia? Eliminar o ciclo do ambiente.”

Por que o anti-histamínico falha sozinho: ele só age na resposta imune. As pulgas adultas no hospedeiro são parcela ínfima da infestação — a esmagadora maioria do ciclo (ovos, larvas, pupas) está disperso no domicílio. Sem descontaminar o ambiente, o paciente continua sendo alvo de novas pulgas que emergem todo dia.

04

VetorialidadeTransmissão de doenças por pulgas

Via 1 · Picada

Inoculação direta da bactéria na saliva ou regurgitação do conteúdo intestinal durante a alimentação.

Via 2 · Fezes

Bactéria nas fezes da pulga contamina a pele lesada pela picada (ou outras vias secundárias, como unhas de gato).

Bartonella · doença da arranhadura do gato — versão correta A bactéria infecta a pulga, multiplica-se no trato digestório dela e é eliminada nas fezes da pulga. O gato contamina unhas e cavidade oral secundariamente com essas fezes depositadas em sua pelagem (ao se coçar / lamber). Não é o gato que excreta Bartonella.
Bloqueio do proventrículo · peste bubônica Yersinia pestis multiplica-se intensamente na pulga e bloqueia mecanicamente o proventrículo. O bloqueio impede que o sangue passe ao estômago — a pulga, faminta, regurgita sangue contaminado de volta para a ferida. Essa é a base anatômica clássica da transmissão.

4.2Principais agentes transmitidos

  • Yersinia pestis → peste (a mais perigosa).
  • Rickettsia mooseri / R. typhi → tifo murino (endêmico). Rickettsia felis → riquetsiose mais recente.
  • Salmonella spp.
  • Francisella (tularemia).
  • Bartonella.
  • Risco de infecções secundárias bacterianas na lesão.

4.3Pulgas como hospedeiras intermediárias

  • Larvas de pulga ingerem ovos no ambiente e abrigam a forma cisticercoide.
  • Cestódeos veiculados: Dipylidium caninum (cães/gatos), Hymenolepis diminuta e — em ciclo heteroxênico — Hymenolepis nana (a tênia mais comum em humanos).
  • Humano se infecta ao ingerir acidentalmente uma pulga.
05

Classificação práticaComo diferenciar as pulgas

Critério 1 · Especificidade

Generalista (a maioria das pulgas) × Altamente específica (mais característico de piolhos). Lembrar: pulgas são baixa especificidade — daí o risco zoonótico.

Critério 2 · Relação com hospedeiro

Permanece no hospedeiro · Visita só para alimentar e foge (deixa só a lesão) · Penetra na pele (Tunga).

Para a prova · forma das lesões As lesões de pulga não têm formato patognomônico confiável (apesar do que circula na internet). Reação varia por individualidade. Exceção: tungíase tem aspecto inconfundível — nódulo branco em pérola com ponto negro central (segmento abdominal exposto da fêmea para respirar e oviposicionar).
06

Espécies-âncoraPulex, Ctenocephalides, Xenopsylla

Atalho morfológico · ctenídios

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Pulex irritans

Sem ctenídios · ser humano

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Ctenocephalides

Genal + pronotal · cão/gato

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Xenopsylla cheopis

Sem ctenídios · ratos

Diferenciação fina · Pulex × Xenopsylla Como ambas não têm ctenídios, a chave entomológica usa: sutura mesopleural vertical presente em Xenopsylla e ausente em Pulex; cerdas occipitais formando “V” em Xenopsylla; espermateca fortemente pigmentada na Xenopsylla.

Pulex irritans

Pulga do humano
Hospedeiro
Ser humano (historicamente). Generalista.
Status
Doença negligenciada: associada a piores condições de moradia. Pisos lisos e higiene quebraram o ciclo.
Saliva
Tolerância relativa por coevolução, mas em atópicos provoca pulicose (reação dérmica generalizada e pruriginosa).
Vetorial
Pode transmitir peste, mas não é a melhor transmissora. Atua como hospedeiro intermediário de Dipylidium caninum e Hymenolepis nana.
Importância
Sobretudo a quantidade de picadas na pessoa exposta.

Ctenocephalides sp.

Cão / gato
Etimologia
“Cteno-” = pente · “-cephalides” = cabeça → com pente na cabeça.
Estrutura
Dois ctenídios: genal (borda inferior da cabeça) e pronotal (1º segmento torácico) — fixam no pelo.
Espécies BR
Ctenocephalides felis felis é a mais frequente, parasitando inclusive cães. Diferenciar C. canis × C. felis exige microscopia (1º dente do ctenídio genal e quetotaxia da tíbia posterior).
Humano
Acomete por proximidade. Picada mais irritante que a de Pulex (menor adaptação imunológica). Não fixa no humano — pele lisa não permite uso dos ctenídios — alimentação só ocasional.
Vetorial
Importante para Dipylidium caninum. Pesquisas com PCR detectaram DNA de Leishmania chagasi em pulgas de cães; hipótese de transmissão mecânica do calazar canino entre cães por ingestão da pulga no grooming.

Xenopsylla cheopis

Pulga dos ratos
Hospedeiro
Ratos sinantrópicos / domésticos — pulga do ciclo urbano da peste.
Importância
A mais perigosa das três. Pulga muito sensível a Yersinia pestis.
Morfologia
Sem ctenídios. Sutura mesopleural vertical presente. Espermateca fortemente pigmentada. Cerdas occipitais em “V”.
Atenção
O ciclo silvestre da peste no Brasil é mantido por Polygenis (P. bohlsi, P. tripus) — não por Xenopsylla.

6.3.1Roedores sinantrópicos relevantes

  • Rattus norvegicus · ratazana · esgotos, galerias subterrâneas.
  • Rattus rattus · rato de telhado · partes altas.
  • Mus musculus · camundongo · armários, espaços intermediários.
Sinantropia — definição mais rigorosa Habilidade de animais originalmente silvestres em frequentar/colonizar habitações humanas, processo desencadeado pela alteração do meio ambiente natural pelo próprio homem. Não é só “convívio sem opção”.
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PesteYersinia pestis no Brasil

Para a prova A peste existe no Brasil. Focos naturais com Y. pestis circulando em ratos silvestres no Nordeste — e também em focos residuais no Sudeste: norte de MG e serra do RJ (Teresópolis, Nova Friburgo). Último caso humano: 2005, Ceará.

7.2Ciclo natural · da mata até o homem

Silvestre. Y. pestis circula entre ratos silvestres (reservatórios resistentes). Vetor: Polygenis spp. (P. bohlsi, P. tripus).
Ponte. Roedores silvestres atraídos a anexos peridomiciliares (paióis, casas de farinha) — exemplo: alguém leva um preá silvestre para casa. Pulgas trocam de hospedeiro.
Urbano. Polygenis introduz o bacilo nos ratos sinantrópicos (altamente suscetíveis). Esses ratos adoecem e morrem em massa (epizootia).
Surto humano. Sem hospedeiro, Xenopsylla cheopis passa a picar avidamente o ser humano — deflagra o surto.
Pessoa-pessoa. Estabelecida a infecção, há transmissão por via respiratória (forma pneumônica, contagiosa).

Vias de transmissão

Picada da pulga infectada (principal); literatura não descarta fezes ou ingestão de alimento contaminado; via respiratória entre humanos.

O problema do diagnóstico tardio

Doença rara → casuística pequena → profissionais sem experiência clínica recente. Diagnóstico depende de dedução epidemiológica. A peste tem tratamento, mas é grave.

“Doenças que não estão acometendo a população têm um pequeno problema: elas não têm diagnóstico rápido. Vocês são preparados com base na casuística.”
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Tunga penetransO bicho-de-pé

Tunga penetrans

Tungidae · pulga penetrante
Morfologia
Compacta: os 3 segmentos torácicos juntos são mais curtos que o 1º segmento abdominal — diferencial taxonômico.
Quem parasita
Tanto macho quanto fêmea são hematófagos obrigatórios. Mas só a fêmea fecundada penetra ativa e permanentemente na epiderme. Macho e fêmea não fecundada são ectoparasitos temporários no ambiente.
Lesão
Após penetrar, a fêmea hipertrofia o abdome (neosoma) para abrigar e desenvolver os ovos. Lesão típica: nódulo branco em pérola com ponto negro central (segmentos abdominais expostos para respirar, excretar, eliminar ovos).
Ciclo no humano
Penetração → crescimento (~7–15 dias) → oviposição → morte da fêmea → reação tecidual prolongada (até ~7 semanas).

8.3Complicações

  • Deformações locais; infestações maciças (relato: 16 pessoas com >50 lesões em uma favela do Ceará).
  • Porta de entrada para tétano (Clostridium tetani), gangrena gasosa (C. perfringens) e micoses profundas (Paracoccidioides brasiliensis).
  • Quadros graves podem evoluir para sepse e autoamputação de dígitos.
  • Manuseio inadequado dispersa ovos no ambiente.

8.4Epidemiologia · zoonose ativa

  • Doença negligenciada: moradores de rua, vulnerabilidade socioambiental, pisos de terra.
  • Atua como zoonose: cães, gatos, ratos (urbano) e suínos (rural) com altíssimas taxas de infestação contaminam continuamente o solo com ovos.

8.5Tratamento & prevenção

  • Remoção mecânica com agulha estéril, alargando cuidadosamente a epiderme para extrair o inseto íntegro.
  • Aplicar antibiótico tópico/bacteriostático no orifício obrigatoriamente.
  • Riscos do método “tradicional”: porta de entrada para infecção, dispersão de ovos, ruptura do parasito (fragmentos retidos → reação severa e superinfecção).
  • Prevenção: uso de calçados + quebra do ciclo no ambiente.
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PiolhosPediculus & Pthirus

9.1Cabeça × corpo · a mesma espécie?

  • Pediculus humanus capitis → couro cabeludo (menor, ambiente restrito).
  • Pediculus humanus corporis → roupas (maior, ambiente espaçoso).
  • Taxonomia molecular: geneticamente indistinguíveis. O piolho-do-corpo surge a partir do piolho-da-cabeça em superlotação e más condições de higiene — variantes capazes de ingerir mais sangue colonizam fibras das roupas.

9.2Como o piolho se fixa

Garra tarsal articulada que se opõe a um processo tibial — a clássica “pinça tíbio-tarsal”. O inseto fica abraçado ao fio.

  • Cabeça → fixa no fio de cabelo. (Por isso raspar a cabeça é tratamento clássico.)
  • Corpo → fixa nas fibras da roupa — não consegue se prender em pelos esparsos.
Para a prova O piolho-do-corpo vive na roupa, não no corpo. Ao examinar o paciente despido, não se verão piolhos — só as lesões.

9.3Dependência da temperatura

  • Precisa da temperatura alta do hospedeiro; em ~8 h fora dele já está debilitado.
  • Não é parasito de ambiente — é parasito do hospedeiro.
  • Comportamento ativo em fugir do hospedeiro com febre alta ou resfriamento cadavérico — implicação direta na disseminação do tifo exantemático em epidemias.

9.4Lêndeas

  • Lêndea = ovo do piolho, cimentado ao fio (cabeça) ou às fibras (corpo).
  • Posta rente ao couro cabeludo (zona quente). Conforme o cabelo cresce, a lêndea se distancia da raiz → estima quando a infestação começou.
Para a prova · cuidado com a régua Lêndea próxima ao couro cabeludo → infestação ativa. Acima de 0,7 cm da base do fio: já não há temperatura adequada — provável lêndea morta ou vazia (e não a marca de “1 cm” que circula popularmente).

9.5Terminologia

O termo correto é infestação (não “infecção”) para ectoparasitos.

9.6Os três piolhos · comparativo

P. humanus capitis · cabeça

Não é higiene
Local
Couro cabeludo · regiões mais quentes (occipital, retroauricular, têmporas).
Mobilidade
Móvel pelo cabelo.
Higiene
NÃO é falta de higiene — afeta principalmente escolares.
Doenças
Não significativamente.
Tratamento
Pente fino (1ª linha), creme/óleo, retirada manual; pediculicida só em casos selecionados.
Faixa
Maior pico no Brasil pode ser pré-escolar (1–5 anos), com pico secundário aos 8 — vigilância em creches também.

P. humanus corporis · corpo

Vetor importante
Local
Vive na roupa (fibras, costuras), migra ao corpo só para alimentar.
Higiene
SIM: associado a más condições de higiene e ausência de troca de roupa.
Doenças
Tifo epidêmico (Rickettsia prowazekii) e febre das trincheiras (Bartonella quintana) → transmissão pelas fezes nas escoriações de coçadura. Febre recorrente (Borrelia recurrentis) → esmagamento mecânico do piolho sobre a pele.
Tratamento
Trocar/ferver roupas (ou ≥ 70 °C por 1 h) — lêndeas estão cimentadas em dobras e costuras; lavagem comum não basta.
Brasil
Não é padrão geral, mas relatado em centros urbanos do Sul/Sudeste em populações marginalizadas (moradores de rua, prisioneiros).

Pthirus pubis · chato

Sexual
Local
Região pubiana; também cílios, sobrancelhas, axilas, barba.
Mobilidade
Quase imóvel — pode ficar fixo na mesma posição por dias, peças bucais inseridas continuamente.
Reprodução
~30 ovos em toda a vida; ciclo < 30 dias.
Transmissão
Predominantemente sexual; fômites têm papel limitado por baixa sobrevivência fora do hospedeiro.
Tratamento
Tópico local.
Alerta médico-legal · Pthirus pubis em criança Encontro do parasito ou de suas lêndeas em crianças (sobretudo em cílios e sobrancelhas) deve levantar suspeita imediata e obrigatória de abuso sexual infantil. Não tratar como achado “casual” doméstico.

9.8Caso clínico de aula

Senhora de 74 anos, “areia nos olhos” + prurido → encontrado Pthirus pubis nos cílios. Pensar em queda do piolho durante banho com migração para outra região, contato familiar e — em criança — alerta médico-legal.

9.9Vias de transmissão · piolhos

Cabeça

Contato direto; objetos compartilhados (pente, boné, capacete) — papel limitado por baixa sobrevivência fora do hospedeiro.

Corpo

Roupas, lençóis, contato próximo prolongado. Aqui sim a via indireta é decisiva.

Pubiano

Contato sexual (principal); fômites limitados; contato próximo familiar.

Patologia da picada

Saliva injetada já no início da hematofagia → prurido intenso. Sem desenvolvimento de tolerância. Coçadura → escoriações → impetigo (S. aureus).

10

Tratamento dos piolhosEstratégia atual

10.1Piolho do corpo

  • Higienizar/trocar a roupa adequadamente — fervura ou ≥ 70 °C por 1 h.
  • Lembrar que o piolho está na roupa, não no corpo.

10.2Piolho da cabeça · mudança de paradigma

Para a prova Pediculicidas químicos NÃO devem ser primeira opção. Risco de resistência (“super piolhos”) e de intoxicação.

Pente fino

Mais eficiente
Como
Cabelo úmido + creme/óleo (sufoca e dificulta locomoção) → passar pente fino.
Frequência
1× por semana (ex.: sábado, no banho).

Catação manual

Tradicional
Status
Eficiente, mas menos viável hoje.

Pediculicida (deltametrina)

Casos selecionados
Quando
Grande infestação, criança em situação especial. Risco de intoxicação fatal em automedicação.

Cortar o cabelo

Limitado
Detalhe
Só tem valor terapêutico se raspado / até ~8 mm do couro cabeludo.

Ar quente (secador)

Físico
Onde brilha
Letal especialmente para lêndeas (estacionárias no fio).

10.3Retirada de lêndeas

  • Foco apenas nas lêndeas próximas ao couro cabeludo (viáveis).
  • Passar o pente no sentido inverso ao crescimento — para “raspar” a lêndea.
Cuidado · vinagre A literatura parasitológica considera falsa a ideia de que vinagre (ácido acético) descola/dissolve a cola da lêndea. Nenhuma substância dissolve o cemento sem agredir o cabelo.

10.4O problema da resistência

  • “Super piolhos” resistentes a piretróides (permetrina) já documentados em EUA, Reino Unido, Israel, República Tcheca, Argentina.
  • Uso indiscriminado de inseticidas → falha terapêutica, intoxicação severa (couro cabeludo é altamente vascularizado) e seleção de cepas resistentes — com relatos de óbito no Brasil pela automedicação.

10.5População-alvo da prevenção

  • Idade escolar (ensino fundamental I) — ambiente de maior transmissão.
  • No Brasil, vigilância igualmente intensa em creches e berçários (1–5 anos).
  • Pediatras orientam família e escola.
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Atenção clínicaPegadinhas, anamnese e exame

11.1Anamnese · animais e ambiente

Em lesões pruriginosas múltiplas, sempre investigar contato com animais e o ambiente.

“Você não teve nada disso? Não teve a ver com outros animais? Do rato, do cachorro, do gato, ou essas bem generalistas?”

11.2Mosquito × pulga · padrão clínico

Mosquito

Reação geralmente mais branda · adultos toleram melhor · anti-histamínico costuma resolver.

Pulga

Reação mais intensa · crianças reagem fortemente · anti-histamínico pode não bastar — precisa quebrar o ciclo ambiental.

11.3Sinais de infestação por piolho

  • Lêndeas próximas ao couro cabeludo.
  • Áreas preferidas: occipital, retroauricular, têmporas.
  • Casos atípicos: Pthirus pubis em cílios/sobrancelhas — alerta médico-legal em crianças.
Para a prova · perícia / corpo de delito Em lesões corporais suspeitas, examinar as roupas: o piolho-do-corpo está nas fibras, não na pele.
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DIJCCasos no estilo da prova

Como ler cada caso

D = Diagnóstico (doença + parasito) · I = Identificação morfológica/etiológica · J = Justificativa parasitológica · C = Conduta (manejo + quebra de ciclo).

Caso 01

Criança de 5 anos com pápulas múltiplas e prurido refratário a anti-histamínico

Mãe traz à UBS criança de 5 anos com múltiplas pápulas eritematosas pruriginosas em pernas e tronco há 3 semanas. Já fez 2 ciclos de anti-histamínico oral sem melhora. Em casa, cão e gato domiciliados.
DDiagnóstico

Pulicose com prurigo estrófulo (prurigo agudo infantil) por Ctenocephalides felis felis.

IIdentificação

Pulga com ctenídios genal e pronotal (pente na cabeça e no 1º segmento torácico) — fixa-se no pelo do animal, não no humano.

JJustificativa

Resposta IgE em criança atópica → pápulas vesiculadas em áreas distantes. Anti-histamínico só age na resposta imune; reexposição contínua mantém o quadro porque ovos/larvas/pupas estão dispersos no domicílio.

CConduta

Tratar a criança (sintomáticos) + tratar o ambiente (quebra do ciclo) + tratar cão e gato. Inseticida só nos adultos não resolve — atacar também imaturos.

Caso 02

Sertão do CE — homem com bubão inguinal, febre alta e contato com preá

Lavrador, 38 anos, sertão do Ceará. Há 4 dias com febre alta, calafrios e bubão inguinal doloroso. Relata mortandade de ratos no quintal e que a esposa trouxe um preá silvestre capturado no mato para engorda.
DDiagnóstico

Peste bubônica por Yersinia pestis. Considerar evolução para forma pneumônica (transmissão respiratória) entre contatos.

IIdentificação

Vetor doméstico: Xenopsylla cheopis (ciclo urbano). Vetor silvestre: Polygenis spp. (P. bohlsi, P. tripus) — não Xenopsylla.

JJustificativa

Ponte silvestre → urbano: ratos sinantrópicos suscetíveis adoecem em massa; Xenopsylla, sem hospedeiro, pica o ser humano. Bloqueio do proventrículo faz a pulga regurgitar bacilos na ferida.

CConduta

Notificação imediata; antibioticoterapia (tratamento existe e é eficaz); isolamento respiratório; vigilância dos contatos; controle de roedores e desinfestação. Lembrar — último caso BR foi em 2005, CE.

Caso 03

Morador em situação de rua com tifo exantemático e múltiplas escoriações

Homem em situação de rua, centro de capital do Sudeste. Febre alta, exantema, prostração; à inspeção, múltiplas escoriações no tronco e roupas que não troca há semanas. Não se observam ectoparasitos sobre a pele despida.
DDiagnóstico

Tifo epidêmico por Rickettsia prowazekii. Diferencial: febre das trincheiras (Bartonella quintana) e febre recorrente (Borrelia recurrentis).

IIdentificação

Vetor: Pediculus humanus corporis — vive nas roupas, não no corpo. Examinar costuras e dobras das vestes.

JJustificativa

Transmissão das fezes do piolho contaminadas, depositadas durante a alimentação, que penetram pelas escoriações da coçadura. Borrelia entra por esmagamento do piolho sobre a pele.

CConduta

Antibioticoterapia + fervura das roupas (ou ≥ 70 °C por 1 h) — lavagem comum não destrói as lêndeas cimentadas em costuras. Banho do paciente. Acolhimento socioassistencial.

Caso 04

Criança da periferia com nódulos plantares dolorosos e ponto negro central

Menino de 9 anos, comunidade com chão de terra, anda descalço. Apresenta múltiplos nódulos esbranquiçados em regiões plantares e periungueais, cada um com um pontinho negro central. Refere dor ao caminhar; faltou à escola.
DDiagnóstico

Tungíase (bicho-de-pé) por Tunga penetrans.

IIdentificação

Lesão patognomônica: nódulo branco em pérola com ponto negro central (segmentos abdominais expostos da fêmea — respiração, excreção, oviposição). Morfologia: 3 segmentos torácicos juntos < 1º segmento abdominal.

JJustificativa

Apenas a fêmea fecundada penetra ativamente na epiderme — parasitismo permanente (exceção dentro da família). Reservatórios animais (cães, gatos, ratos, suínos) contaminam o solo com ovos.

CConduta

Remoção mecânica com agulha estéril, íntegra (não esmagar) + antibiótico tópico no orifício. Vacina antitetânica em dia (porta de entrada para C. tetani, gangrena gasosa). Prevenção: uso de calçados + manejo do ambiente.

Caso 05

Criança de 7 anos com prurido nos cílios e “areia nos olhos”

Menina de 7 anos levada ao oftalmologista com prurido palpebral e sensação de “areia nos olhos” há 2 semanas. À biomicroscopia, lêndeas e parasitos achatados aderidos aos cílios.
DDiagnóstico

Phthiriasis palpebrarum por Pthirus pubis ("chato") em sítio extragenital.

IIdentificação

Corpo achatado, quase imóvel, fica fixo por dias com peças bucais inseridas; ~30 ovos em toda a vida.

JJustificativa

Pthirus pubis é parasito de transmissão predominantemente sexual. Em criança, o achado obriga suspeita imediata e investigação rigorosa de abuso sexual infantil — não tratar como contaminação familiar casual.

CConduta

Remoção mecânica nos cílios + tratamento tópico local. Notificação obrigatória e acionamento do Conselho Tutelar / serviço de proteção; investigação multiprofissional. Avaliar contactantes domiciliares.

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Pontos-chave18 sentenças para revisão final

Pulgas adultas são hematófagas; larvas não são — comem matéria orgânica/fezes do adulto. Parasito temporário = visita o hospedeiro só para se alimentar (não é definido pela fase do ciclo). Tunga penetrans é exceção (parasito permanente).
Pulgas são holometábolas (ovo → larva → casulo+pupa → adulto), com fases muito distintas — entender isso é a base do controle ambiental.
Controle de infestação por pulgas exige quebrar o ciclo no ambiente; atacar só os adultos não resolve.
Pulex irritans → “pulga do ser humano”, generalista, hoje doença negligenciada; transmite peste mas não é a melhor transmissora; é hospedeira intermediária de Dipylidium e Hymenolepis nana.
Ctenocephalides sp. → cão/gato; ctenídios genal e pronotal fixam ao pelo; não fixa no humano; importante na Dipylidium caninum; pesquisas com PCR sugerem papel mecânico em leishmaniose visceral canina.
Xenopsylla cheopis → ratos sinantrópicos; vetor da peste no ciclo urbano; sem ctenídios; sutura mesopleural vertical; espermateca fortemente pigmentada.
A peste existe no Brasil: focos no Nordeste e residuais no Sudeste (norte de MG, serra do RJ); reservatórios = ratos silvestres; vetor silvestre = Polygenis spp.; último caso humano: 2005, Ceará.
Tunga penetrans (bicho-de-pé): só a fêmea fecundada penetra; lesão típica é pérola com ponto negro central; prevenção pelo uso de calçados; risco de tétano, gangrena gasosa, sepse, autoamputação.
Diferenciação morfológica das pulgas: presença/ausência de ctenídios + sutura mesopleural + espermateca. Pulex sem ctenídios; Ctenocephalides com ctenídios genal+pronotal; Xenopsylla sem ctenídios mas com sutura mesopleural.
Piolho da cabeça (P. h. capitis) NÃO é falta de higiene — afeta principalmente escolares (e pré-escolares no BR).
Piolho do corpo (P. h. corporis) SIM está associado a más condições de higiene; vive nas roupas; vetor de tifo epidêmico (pela fezes) e febre recorrente (pelo esmagamento).
Lêndea próxima ao couro cabeludo = infestação ativa; lêndea acima de ~0,7 cm da raiz é provavelmente morta/vazia (e não “1 cm” da regra popular).
Tratamento de pediculose da cabeça hoje prioriza pente fino + sufocamento (creme/óleo); pediculicidas só em casos selecionados — risco de resistência e intoxicação.
Pthirus pubis (“chato”): transmissão predominantemente sexual; em cílios/sobrancelhas de criança, suspeita obrigatória de abuso sexual infantil.
Picada da pulga é mais irritante que a do mosquito; pápulas/nódulos ~1 cm. Em quadros muito exagerados em criança, suspeitar mais de pulga.
Diferentemente das pulgas, não se desenvolve tolerância à saliva dos piolhos; prurido permanece intenso ao longo da vida.
O termo correto é infestação (não “infecção”) para ectoparasitos.
Em perícia / corpo de delito com lesões pruriginosas, examinar as roupas — o piolho-do-corpo está fixado nas fibras, não na pele.
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GlossárioVocabulário-chave da aula

Holometabolia
Metamorfose completa (ovo → larva → pupa → adulto), com fases morfologicamente muito distintas. É o caso das pulgas.
Paurometabolia
Metamorfose gradual, em que ninfas e adultos compartilham o mesmo ecótopo e a mesma dieta hematófaga (ex.: barbeiros). Mais rigoroso que “hemimetábolo”.
Hemimetabolia (estrita)
Ninfas com ambiente e dieta totalmente diferentes do adulto (ex.: libélulas aquáticas).
Hematófago
Que se alimenta de sangue.
Parasito temporário
Visita o hospedeiro de forma transitória apenas para se alimentar; abandona-o em seguida e vive no ambiente. Não se define pela fase do ciclo.
Ctenídio · genal · pronotal
“Pente” formado por espinhos rígidos. Genal: na borda inferior da cabeça. Pronotal: na placa dorsal do 1º segmento torácico. Característico de Ctenocephalides.
Sutura mesopleural
Sutura vertical que divide a mesopleura. Presente em Xenopsylla cheopis; ausente em Pulex irritans. Critério para diferenciar pulgas sem ctenídios.
Espermateca
Estrutura interna das fêmeas para armazenar espermatozoides. Fortemente pigmentada em Xenopsylla — útil em microscopia.
Sinantrópico
Animal originalmente silvestre que passou a habitar/colonizar o ambiente humano, em geral pela alteração do meio natural pelo próprio homem (ratazana, barata).
Pulicose
Quadro clínico geral causado pela picada de pulgas — em atópicos pode ser dérmica generalizada e intensamente pruriginosa.
Prurigo estrófulo
Prurigo agudo infantil, mediado por IgE; pápulas avermelhadas com vesícula central, em áreas distantes da picada.
Prurigo de Hebra
Forma grave, crônica; pápulas persistentes; liquenificação, escoriações, crostas; possíveis febre e linfadenopatia.
Pediculose
Infestação por piolhos.
Lêndea
Ovo do piolho, cimentado ao fio (cabeça) ou às fibras (corpo).
Pinça tíbio-tarsal
Garra tarsal articulada que se opõe ao processo tibial — mecanismo de fixação dos piolhos ao fio.
Fômites
Objetos inanimados que veiculam parasitos (pente, capacete, roupas). Decisivos só para o piolho-do-corpo.
Doença negligenciada
Acomete preferencialmente populações vulneráveis e recebe pouca atenção de pesquisa/política pública.
Reservatório natural
Organismo no qual o patógeno se mantém na natureza sem grande mortalidade (ex.: rato silvestre para Y. pestis).
Bloqueio do proventrículo
Multiplicação intensa de Y. pestis obstrui o proventrículo da pulga; ela regurgita sangue contaminado na nova picada.
Neosoma
Hipertrofia gigantesca do abdome da fêmea fecundada de Tunga penetrans após penetrar a epiderme.