Vol. I 2026.1 — Boletim Acadêmico — Nº 01 mai/26
Psicologia Médica · Aula 01

Quem cuida
de quem cuida?

Saúde mental do médico e do estudante de Medicina — uma cartografia do mal-estar contemporâneo

DisciplinaPsicologia Médica
Data18 · mai · 2026
EixoMacro & Microanálise
FocoCuidador adoecido
Aprovadop/ revisão de prova
"Não existe um bom profissional sem uma boa pessoa.
A formação humana é o todo; a formação profissional é apenas um detalhe disso."
01
Capítulo PrimeiroA provocação central

A aula nasce de uma pergunta-guia incômoda, proposta como provocativa, mas necessária: quem cuida da saúde dos médicos? Quem cuida do estudante de Medicina? Quem cuida do cuidador?

A crítica à lógica formativa

Compêndio · Aulus Gellius
A tríade do humanismo

O humanista clássico se sustenta sobre paideia (conhecimento cultural amplo), philanthropia (empatia, identificação com a condição humana) e techné (competência técnica). Isolar a técnica é falhar como médico.

Errata · Atenção clínica
Barreiras psicológicas ao autocuidado médico

A cultura da profissão cria obstáculos internos: prepotência terapêutica (fantasia de onipotência), terror da sala de espera (medo do estigma) e conspiração do silêncio (ocultar enfermidades dos pares). Tudo isso retarda o pedido de ajuda e agrava o quadro.

Estrutura da fala

1º Movimento

Macroanálise

Que sociedade vivemos hoje — e que mal-estar específico ela produz.

2º Movimento

Microanálise

Como esse mal-estar atinge o profissional e o estudante — e como reconhecer o próprio sofrimento.

❦ ❦ ❦
02
Capítulo SegundoAdoecimento como resposta ao meio

O adoecimento não vem de dentro para dentro — é sempre uma resposta que o sujeito dá ao meio, dentro de um conjunto de símbolos, relações e contextos culturais.

⚠ Importante para prova
Cada época que vivemos produz um mal-estar específico para cada época. Freud · O Mal-Estar na Civilização (1930)

Implicação: certas doenças são produzidas pelas relações e pela forma como lidamos com a natureza. Para entender o adoecimento contemporâneo, é preciso entender qual é o mal-estar do nosso tempo.

DSM-5 · Cultura & Sofrimento
Conceitos Culturais de Sofrimento

O DSM-5 reconhece formalmente que a cultura molda a experiência e a expressão dos sintomas. Por isso introduziu a seção "Conceitos Culturais de Sofrimento" — englobando síndromes culturais, expressões idiomáticas e explicações causais locais.

03
Capítulo TerceiroO referencial mobilizado

Byung-Chul Han — três obras-chave

Obra I

Sociedade do Cansaço

A positividade excessiva como nova forma de adoecimento.

Obra II

Sociedade Paliativa

Recusa cultural da dor e do sofrimento.

Obra III

Agonia de Eros

O desaparecimento do Outro e das paixões.

Sobre Eros / paixão

Errata · Precisão freudiana
Eros não inclui ódio

Na teoria psicanalítica clássica, Eros designa as pulsões de vida (sexualidade, amor, autopreservação, união). Paixões negativas (ódio, agressividade, destrutividade) pertencem à pulsão antagônica: Thanatos. É incorreto atribuir destrutividade a Eros.

Quando o outro perde a importância na minha vida, só sobrei eu. E eu não sinto a motivação necessária para fazer mais nada.

Outros autores mobilizados

§§§
04
Capítulo QuartoQue sociedade é essa?

A sociedade disciplinar (modelo antigo)

⚠ Tese estrutural
Liberdade e segurança são impossíveis de trabalhar juntas.
Sociedade disciplinar
  • Padrões rígidos
  • Identidades bem definidas
  • Vigilância externa
  • Punição pública
  • Liberdade restrita
  • Segurança alta
  • Sentimento: culpa por trair-se
Sociedade atual
  • Padrões diluídos, fluidos
  • Identidades em construção
  • Auto-vigilância
  • Punição autoinfligida
  • Liberdade ampliada
  • Segurança baixa
  • Sentimento: cansaço, esgotamento, depressão

O sentimento de culpa em Freud

A balança nunca se equilibra — lidar com a culpa é uma das tarefas psíquicas centrais.

  1. Se eu escuto o outro / me sacrifico → sou valorizado como altruísta, mas sinto que traí a mim mesmo.
  2. Se eu priorizo a mim mesmo → ganho liberdade, mas sou rotulado como narcisista e sinto culpa por trair o outro.
Ninguém se livra do sentimento de culpa.
Compêndio · Psicanálise
Id, Ego, Superego e a culpa

Tecnicamente, a culpa (ansiedade moral) surge do conflito entre o Id (pulsões instintivas) e o Superego (moralidade e proibições civilizatórias introjetadas). O Superego pune o Ego sempre que o Id ameaça transgredir a norma social internalizada.

Frustração como operador civilizatório

A frustração é fundamental para o convívio social — ela troca um pouco de liberdade por segurança.

O paradoxo contemporâneo

Direitos sociais, liberdades e culto às diferenças aumentaram. Mas simultaneamente aumentaram: insegurança pública, violência doméstica, adoecimentos psíquicos. O foco se deslocou da construção coletiva para a liberdade individual — e o preço foi a segurança.

05
Capítulo QuintoO mal-estar da nossa época

Do cérebro infectado ao cérebro vivo

Antes
  • Doenças infecciosas predominantes
  • Ciência respondia bem (vacinas, antibióticos)
  • Cérebro neurológico — lesões, anomalias
Hoje
  • Doenças subjetivas / emocionais
  • Ciência tradicional encontra limites
  • Cérebro psíquico — depressão, ansiedade, transtornos
A ciência entende a fisiologia da vida, mas não entende as emoções.
Errata · DSM-5
A subjetividade é mensurável

É incorreto dizer que a subjetividade "não é mensurável" hoje. O DSM-5 traz escalas transversais de sintomas (Nível 1 e Nível 2) e a WHODAS 2.0 para quantificar e graduar vivências subjetivas como ansiedade, depressão, raiva e dor.

Quem administra o tempo — mas não o vive

⚠ Conceito de Han

A doença da positividade

A pessoa não percebe que está adoecendo porque o ritmo de vida lhe parece positivo. Ex: "para virar médica, estudo 30 horas por dia" — internamente, isso é bom. Mas o que se faz para chegar lá já está adoecendo.

É ruim, mas é bom. É bom, mas é ruim.

Mecanismo (Weber): racionalidade com finalidade — meios calculados para um fim específico. O sujeito sacrifica sono, lazer, vínculos sem perceber a destruição em curso.

DSM-5 · Diferencial
TPOC, perfeccionismo e Burnout

O Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva (TPOC) caracteriza-se por dedicação excessiva ao trabalho em detrimento do lazer. O indivíduo racionaliza o comportamento e não percebe o esgotamento crônico (Burnout) que dele decorre.

Ego inflado, Superego enfraquecido

Estrutura I

Ego narcísico

Impera, exige destaque, perfeição, alcance de metas.

Estrutura II

Superego diminuído

Cede suas barreiras morais diante do narcisismo. Por isso o narcisista pode ser agressivo ou preconceituoso sem perceber.

❦
06
Capítulo SextoCansaço físico × cansaço psíquico
Cansaço físico
  • Trabalhador braçal · escala 6×1
  • Reconhecido socialmente
  • Não é o foco da discussão
Cansaço psíquico
  • Adoecimento típico da sociedade atual
  • Surge da perda dos padrões de identidade
  • Foco central — o cuidador adoecido

Mecanismo do adoecimento psíquico

Perda dos padrões (filho, pai, certo, errado) → queda de segurança → aumento de liberdade → sujeito perdido → busca por algo a que se apegar. Duas saídas possíveis:

Saída A Utopia

Projetar um ideal mesmo impossível à frente — algo que move a vida.

Saída B Retopia

Voltar a modelos do passado (avós, pais, médicos de sucesso) como referência rígida.

⚠ Importante para prova
Uma pessoa apaixonada nunca entra em depressão, porque tem uma coisa a alcançar.
  • A paixão é, em si, impossível — por isso salva.
  • "Algumas coisas só são importantes por serem impossíveis."
  • Quando o objetivo se realiza, o desejo morre — e pode vir o vazio.
A realização mata o desejo. Só não morre o desejo que você reprime.
Errata · DSM-5
Paixão não confere imunidade

Clinicamente, é incorreto dizer que uma pessoa apaixonada nunca entra em depressão. O Transtorno Depressivo Maior é multifatorial (genético, biológico, ambiental); ter objetivos não impede o adoecimento. Os sintomas nucleares — anedonia e letargia — podem justamente aniquilar a paixão preexistente.

O fracasso no sucesso

O estudante luta cinco anos por algo. Na hora em que conquista, pode entrar em depressão — não estava preparado para viver aquilo que tanto pediu; só estava acostumado ao ritmo de cobrança.

Macabéa & a pergunta fundamental

Macabéa, você é feliz? E para que serve a felicidade? E depois que é feliz, o que acontece? Clarice Lispector · A Hora da Estrela

Para muitas pessoas adoecidas, a dor virou a estrutura da própria vida. Quando o problema desaparece, elas se desorientam — porque a vida foi construída sobre a dor. Nem toda pessoa doente quer se curar — porque a cura exige reinventar a vida.

Compêndio · Ganho secundário
A doença como identidade

Pacientes crônicos podem acomodar-se na enfermidade porque ela traz compensações inconscientes — afeto, atenção, isenção de responsabilidades. Quando a identidade gira em torno do "papel de doente", a cura passa a representar uma ameaça: a perda das concessões e a exigência de autonomia.

§ § §
07
Capítulo SétimoAs quatro formas de sofrimento

Freud descreveu três; Byung-Chul Han identifica uma quarta, contemporânea.

Forma 01 · Freud

Do corpo / natureza

Doenças, biologia, fragilidade orgânica. Resposta: medicina e ciência.

Forma 02 · Freud

Do mundo externo

Catástrofes, riscos ambientais. Resposta: tecnologia e infraestrutura.

Forma 03 · Freud

Das relações com o outro

Amor não correspondido, traição, abandono, trauma da infância. Resposta: psicologias clássicas, psicanálise.

Forma 04 · Han ★

Sofrimento virtual / imaginário

Inimigos imaginários, perseguições mentais, validações inexistentes, redes sociais. Resposta: ainda não temos.

⚠ Inovação de Han sobre Freud

O sujeito sofre por amizades que não existem, por validações de seguidores, por brigas inteiras criadas mentalmente (parceiro demora a responder → conflito completo na cabeça). O sujeito virou seu próprio inimigo:

  • Quer dizer algo e diz outra coisa.
  • Acha que gosta e no fundo não gosta.
  • Quer ser de um jeito e não consegue.
  • Não escolhe a profissão racionalmente — escolhe por motivos que não sabe.
Você não manda na sua própria vida.
Errata · Vocabulário clínico
"Delírio" não é antecipação ansiosa

É incorreto chamar de delírio a antecipação de uma briga porque o parceiro demora a responder. No DSM-5, delírio é sintoma psicótico — crença falsa e fixa, refratária a evidência. O exemplo descreve uma distorção cognitiva (catastrofização / adivinhação) ou ruminação ansiosa.

Depressão × Ansiedade — tempos psíquicos

Depressão
  • Mente fixada no passado
  • No que faltou, no que não foi
  • Anedonia, letargia
Ansiedade
  • Mente fixada no futuro
  • Antecipa o pior para se preparar
  • Expectativa apreensiva (TAG)
⚠ Frases-âncora de Han
Onde há Eros, não há depressão. — Onde há expressão, não há depressão.

Lógica do ansioso: "se eu pensar no pior e ele acontecer, estou preparado. Se não acontecer, é lucro." Resultado: o pior já aconteceu dentro da cabeça. Não há final feliz na mente do ansioso.

08
Capítulo OitavoA sociedade sem negatividade

O imperativo da positividade

→ A negatividade da vida foi negada.

⚠ Importante para prova
Se você faz o que todo mundo está fazendo, você já está na doença da positividade — e não percebe.

Receita contraintuitiva: viver o próprio ritmo · permitir-se ser "vagabundo" alguns dias · olhar as estrelas · não entrar no ritmo de todo mundo.

Uma sociedade doente não gera saúde para o indivíduo.

A parábola do médico de aldeia

Um médico recém-formado volta à sua cidade e começa a diagnosticar o que adoece todo mundo. A cidade inteira se reúne na casa dele para se consultar. No fim, só ele está doente — porque é o único que destoa do padrão coletivo.

Quando o mundo não tem saúde, o "doente" pode ser exatamente quem não se encaixa nele.
Errata · Limite clínico
Desvio social ≠ transtorno mental

O DSM-5 estabelece que desvios sociais e conflitos com a sociedade não são, por si só, transtornos mentais. Não se encaixar na norma só configura patologia se houver disfunção biológica, psicológica ou de desenvolvimento subjacente.

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09
Capítulo NonoPsicanálise, medicina & a palavra

As três feridas narcísicas da humanidade

1ª Cosmológica Copérnico

A Terra não é o centro; estamos soltos no espaço, presos pela gravidade.

2ª Biológica Darwin

O homem tem ancestral comum com os macacos; não veio de si mesmo.

3ª Psíquica Freud

O homem não é senhor da própria casa — o inconsciente o governa.

Síntese Determinismo psíquico

A vida mental é majoritariamente inconsciente — o consciente apenas medeia forças que o sujeito desconhece.

Por que Freud é médico (e não filósofo)

Freud era neurobiologista — médico que estudava a vida humana. A psicanálise nasce como ciência que articula mente ↔ corpo ↔ emoção. Essa relação triangular é o seu objeto.

⚠ A descoberta central
Não adianta pensar sobre isso. Você tem que falar para outra pessoa, porque o efeito está na fala.
  • O autoconhecimento isolado é insuficiente.
  • A escuta do outro torna o sujeito atento ao que está manifestando.
  • As coisas mais dolorosas são as que mais custam dizer.

O fundamento "bíblico" da psicanálise

Estado do inconsciente
  • Coisas desorganizadas
  • Coisas indizíveis
  • Coisas inacessíveis à consciência
Equivalente do Gênesis
  • Caos
  • Silêncio
  • Escuridão
A palavra liberta. A palavra é a única forma — portanto, você tem salvação. Fale.

Como nasceu historicamente

  1. Freud atendia mulheres histéricas numa época em que mulher não podia sentir, falar, ser ouvida.
  2. Uma paciente, durante interpretação, gritou: "Cale a boca, deixe-me falar."
  3. Freud obedeceu — escutou por meia hora.
  4. Marcou nova consulta na semana.
  5. Os sintomas dela diminuíram em poucos dias.
⚠ Conclusão histórica
Não foi Freud quem inventou a psicanálise. Foi uma mulher histérica. Freud apenas reconheceu a importância da palavra que ele estava escondendo.
Doenças são palavras não ditas. Jacques Lacan
10
Capítulo DécimoEmoções & fisiologia — Goleman

Fatores que enfraquecem o sistema imunológico

Emoções que adoecem

Cardiovascular

Raiva & hostilidade

Emoções mais comuns nas horas anteriores a ataques cardíacos.

Autoagressão

Tristeza & desamparo

Relação com agressão direcionada para si mesmo.

Imune

Agitação & ansiedade

Baixa imunológica, queda hormonal.

Somatização

Supressão do desejo

Agressão e adoecimento conjunto; preocupação excessiva tem impacto cardiovascular.

Emoções que curam

+

Otimismo

Efeito curador documentado.

+

Confiança

Reforço do sistema imune.

+

Alegria & aceitação

Recuperação acelerada e estabilização emocional.

+

Amor

Efeito comprovado em pacientes com câncer — auxilia no tratamento.

DSM-5 · Hostilidade & coração
Fatores Psicológicos que Afetam Outras Condições Médicas

O estresse crônico e traços de personalidade (hostilidade, padrão Tipo A) afetam adversamente condições clínicas — podem precipitar angina e aumentar substancialmente o risco de morbimortalidade por infarto agudo do miocárdio.

⚠ Princípio-síntese
O que você enterra, não morre — enraíza.

Emoções não expressas são enterradas vivas e retornam pelas piores formas. Você não se livra do que sentiu — apenas arquivou. De um jeito ou de outro, vai viver o que um dia surgiu em você.

§ ❦ §
11
Capítulo Décimo PrimeiroO sintoma na medicina & na psicanálise

Crítica à medicina que só trata efeitos

A medicina cirúrgica trata o efeito, não a causa. O sintoma é a voz daquilo que não tem voz — pista, sinal, manifestação de algo escondido.

Não é doença

Febre

É sinalização de algo escondido.

Não é diagnóstico

Dor de cabeça

É pista de outra causa subjacente.

Não é problema isolado

Insônia

É manifestação de algo recalcado.

A escuta do corpo

Não existe medicina sem escuta. O corpo fala — mas a escuta não é do ouvido; é da admissão, da sensibilidade.

O paciente diz uma coisa, o corpo dele diz outra (passa a mão na cabeça enquanto você examina o joelho). ⚠ Sem atenção a isso, não há diagnóstico real.

Compêndio · Não-verbal
55% da comunicação é corporal

O profissional deve perceber inconsistências entre discurso verbal e expressão corporal. A linguagem não verbal costuma ser mais confiável e revela angústias, medos ou defesas que o paciente tenta ocultar conscientemente.

⚠ Definição precisa

A cura da psicanálise

Não é o problema deixar de existir. É: o que dói, deixa de doer. O que incomoda, deixa de incomodar — mas continua lá.

→ Cura do trauma ≠ apagamento do trauma. Cura = o trauma deixa de afetar.

12
Capítulo Décimo SegundoO trauma & o cadáver pesado
⚠ Definição-chave
Trauma é aquilo que você não consegue falar.

Quando se torna dizível, sai da ordem do trauma e entra na ordem do elaborável — inicia-se a integração consciente do conflito.

Etapas típicas em análise

  1. O paciente chega dizendo que sofre por X.
  2. O analista percebe que não é por X, é por outra coisa.
  3. Aos poucos, o paciente começa a suspeitar.
  4. Por fim, formula: "Eu acho que é por causa daquilo."
  5. A cura vem quando o sujeito consegue dizer por que aquilo aconteceu.
Eu falo de postagem, de comentário, de assassinato — falo de tudo. Mas não falo de mim. Quero que me entendam sem que eu precise dizer.

O cadáver pesado · parábola africana

Nas tribos, quando alguém morria, a tribo se reunia para uma única pergunta:

"O corpo do vizinho está pesado ou leve?"

Se pesado, a explicação era:

O cadáver está pesado porque carrega o peso de todas as canções que ele não cantou, das danças que ele não dançou, dos amores que ele não viveu, das palavras que ele não disse. Roberto Calazans · Escola de Psicanálise de Brasília

→ Hoje todos correm para trabalhar, executar, performar. E o cadáver do médico tem sido cada vez mais pesado.

Os 5 maiores arrependimentos dos pacientes terminais

Bronnie Ware · "Antes de Partir"

  1. Não ter tido coragem de viver a vida que eu queria — e não a que esperavam de mim.
  2. Não ter trabalhado tanto.
  3. Ter tido coragem de expressar meus sentimentos.
  4. Ter mantido contato com meus amigos.
  5. Ter me permitido ser mais feliz.
⚠ Observação central

No fim da vida, as pessoas não pedem mais bens, viagens, dinheiro ou carros. Pedem sentimento, perdão, amor, contato. Pedem aquilo que é da ordem do ser, não do ter.

❦ § ❦
13
Capítulo Décimo TerceiroSíntese — quem cuida do cuidador?

As perguntas terapêuticas fundamentais

Quando alguém chega adoecido (deprimido, ansioso, sem dormir), antes de qualquer intervenção, pergunte:

  1. Quando foi que você parou de dançar?
  2. Quando foi que você parou de cantar?
  3. Quando foi que você deixou de acreditar / ter fé?
  4. Quando foi que você parou de se encantar com uma poesia, com uma música?
  5. Quando foi que você parou de viver com amor — seja qual for o tipo de amor?
DSM-5 · Anedonia
As perguntas rastreiam anedonia

A anedonia é a acentuada diminuição de interesse ou capacidade de sentir prazer em quase todas as atividades — sintoma nuclear obrigatório do Episódio Depressivo Maior. As perguntas acima são, na prática, um rastreio clínico formal.

O homem não se sente feliz quando não consegue ser ele mesmo.
⚠ Importante para prova

As duas leis do cuidador

A primeira lei de quem cuida é se cuidar. — A primeira lei do médico é se escutar.

Limites do autocuidado

O movimento terapêutico básico

Passo 01Silêncio interno

O conflito existe mas não tem palavra.

Passo 02Palavra para o Outro

Verbalização para escuta qualificada.

Passo 03Narrativa sobre a dor

Catarse / ab-reação.

Passo 04A dor se transforma

O sintoma perde força.

Compêndio · Grupos Balint
O Outro institucionalizado

Michael Balint estruturou os Grupos Balint para que médicos pudessem verbalizar e elaborar pontos cegos e emoções contratransferenciais despertadas pela prática clínica — em ambiente de escuta e suporte entre pares. Fator de proteção formal contra o Burnout.

A postura do médico que cuida de si

Errata · Limites do volitivo
Paixão não substitui tratamento

Clinicamente, a busca voluntária por "paixões" não cura uma síndrome depressiva instalada. A própria doença aniquila biologicamente a capacidade de mobilizar interesse e prazer (anedonia, letargia). É indispensável tratamento psicofarmacológico e psicoterápico — não apenas esforço volitivo.

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14
Apêndice · Diagnóstico instantâneoDIJC · Cenários de prova

20 perguntas-âncora

essencial
  1. Tese central de Freud (1930)?Cada época produz um mal-estar específico — adoecimento é sempre resposta ao meio, não puramente biológico.
  2. Liberdade × Segurança?Forças inversamente proporcionais. Sociedade disciplinar dava segurança em troca de liberdade; a sociedade atual ampliou liberdade e produziu insegurança e adoecimento psíquico.
  3. Sentimento de culpa em Freud?Inegociável — se priorizo o outro, traio a mim; se priorizo a mim, traio o outro. Conflito Id × Superego.
  4. Sociedade do Cansaço (Han)?Adoecimento contemporâneo vem do excesso de positividade, da autoexploração e da racionalidade orientada a metas.
  5. Quarta forma de sofrimento (Han)?Sofrimentos virtuais / imaginários — o sujeito se tornou seu próprio inimigo.
  6. Depressão × ansiedade — tempos psíquicos?Depressão fixa no passado; ansiedade fixa no futuro. Ambas afastam do presente.
  7. "Onde há Eros, não há depressão"?A paixão — mesmo impossível — mobiliza o desejo e funciona como força de vida contra o esgotamento depressivo.
  8. A realização mata o desejo?Sim — só o desejo reprimido não morre. Aplicação direta ao "fracasso no sucesso" do estudante.
  9. Três feridas narcísicas?Copérnico (cosmológica), Darwin (biológica), Freud (psíquica — "o homem não é senhor da própria casa").
  10. Quem inventou a psicanálise?Uma paciente histérica gritou "deixe-me falar" — Freud apenas reconheceu o poder da fala.
  11. Fórmula de Lacan?"Doenças são palavras não ditas." A fala diante do Outro reorganiza o caos interno.
  12. Raiva, hostilidade & coração (Goleman)?Emoções mais presentes nas horas anteriores a ataques cardíacos. DSM-5: Fatores Psicológicos que Afetam Outras Condições Médicas.
  13. Emoções curadoras?Otimismo, confiança, alegria, aceitação, amor — efeito imunológico documentado.
  14. "O que se enterra não morre — enraíza"?Emoções reprimidas retornam como sintoma (somatização / corpo como idioma de sofrimento).
  15. Sintoma na medicina / psicanálise?Voz daquilo que não tem voz — sinalização de causa escondida. Não é a doença, é a pista.
  16. Cura ≠ apagamento?Curar = o que doía deixa de doer, embora continue presente.
  17. Definição de trauma?Aquilo que não se consegue falar. Quando se torna dizível, sai da ordem do trauma e entra na ordem do elaborável.
  18. Parábola das tribos africanas?O cadáver pesa pelas canções não cantadas, danças não dançadas, palavras não ditas. O cadáver do médico atual está cada vez mais pesado.
  19. 5 arrependimentos (Bronnie Ware)?Não viver a própria vida · ter trabalhado tanto · não ter expressado sentimentos · não ter mantido amigos · não ter se permitido ser feliz.
  20. A primeira lei do cuidador?É se cuidar. A primeira lei do médico é se escutar — porque não existe medicina sem escuta, e a escuta começa em si mesmo.

Pegadinhas frequentes (errata consolidada)

Pegadinha 01

Eros ≠ inclui ódio

Eros = pulsões de vida. Ódio, agressividade e destrutividade pertencem a Thanatos.

Pegadinha 02

"Delírio" ≠ catastrofização

Delírio é crença falsa e fixa, sintoma psicótico. Antecipar uma briga é distorção cognitiva / ruminação ansiosa.

Pegadinha 03

Paixão ≠ antídoto à depressão

Clinicamente, a anedonia impede a paixão. Depressão exige tratamento — não esforço volitivo.

Pegadinha 04

Desvio social ≠ doença

DSM-5: destoar da norma só é patológico se houver disfunção biológica, psicológica ou de desenvolvimento subjacente.

Pegadinha 05

Subjetividade É mensurável

O DSM-5 tem escalas transversais (Nível 1/2) e WHODAS 2.0 para quantificar ansiedade, depressão, raiva, dor.

Pegadinha 06

Falar = sair do trauma

Quando se consegue verbalizar, o conteúdo sai do não-elaborado (e não entra). Inicia-se a elaboração.

★
Apêndice IIGlossário-relâmpago
Freud

Mal-estar

Sofrimento específico que cada época produz a partir da configuração das relações sociais.

Freud / Han

Eros

Paixão, vínculo, pulsão de vida — força que mobiliza o sujeito.

Foucault

Sociedade disciplinar

Sociedade da norma, da vigilância externa e da punição visível.

Han

Sociedade do Cansaço

Sociedade do excesso de positividade, da autoexploração e do desempenho.

Han

Positividade Tóxica

Imposição cultural de ser sempre produtivo, alegre, perfeito — recusa do negativo.

Han

Quarta forma de sofrimento

Sofrimentos virtuais / imaginários — acréscimo de Han a Freud.

Han

Retopia

Apego nostálgico a modelos do passado como referência rígida (oposto da utopia).

Clínica

Sintoma

Voz daquilo que não tem voz — sinalização de uma causa escondida.

Psicanálise

Cura

Não desaparecimento do problema — perda do efeito doloroso sobre o sujeito.

Psicanálise

Trauma

Aquilo sobre o qual não se consegue falar.

Weber

Racionalidade c/ finalidade

Ação orientada por meios calculados para alcançar fins específicos.

Han

Narcisismo contemporâneo

Ego inflado com superego enfraquecido — gera autoagressão e agressão ao outro.