Introdução: posicionando os acarídeos
Da enorme diversidade de insetos e aracnídeos, só uma minoria tem importância médica. A aula encerra esse bloco e foca nos acarídeos — o grupo Acari/Acarina, que reúne carrapatos e ácaros.
Como distinguir inseto de aracnídeo
A cabeça é definida pela presença da massa de tecido nervoso (o "cérebro"). Onde está essa massa, ali é a cabeça. Nos aracnídeos, palpos e quelíceras são peças sensoriais/de preensão — não uma cabeça verdadeira.
Organização do corpo dos aracnídeos
Falar em "cabeça, tórax e abdômen" no acarídeo é impreciso. O corpo é o idiossoma (fusão de prossoma + opistossoma) e, à frente, o gnatossoma (capítulo / "falsa cabeça") com as peças bucais.
E mais: nem sempre são 4 pares de patas. Na ordem Acari, larvas têm só 3 pares (hexápodes); ninfas e adultos têm 4 pares (octópodes) — fonte clássica de confusão com insetos.
Divisões do corpo do acarídeo
Carrapatos: a picada importa
O carrapato é o ácaro hematófago do grupo. Para o ser humano, três aspectos da picada pesam.
- 1Reação local / incômodo — muita gente reage à picada.
- 2Transmissão de doenças — vírus, bactérias e protozoários.
- 3Toxina paralisante na saliva — descrita sobretudo na América do Norte, mas também documentada no Brasil (gênero Amblyomma).
A toxina paralisante
À medida que o carrapato se alimenta, inocula uma toxina e a paralisia progride. Bem documentada em animais; poucos relatos em humanos.
A toxina tem meia-vida muito curta → não há efeito prolongado. Removido o carrapato, a sintomatologia regride.
Se o carrapato não for achado e retirado a tempo, o quadro pode evoluir com toxemia (deglutição/respiração comprometidas) e letalidade elevada (~13%, gênero Dermacentor/EUA).
Dias na zona rural → 2 dias de dificuldade para andar, depois para segurar objetos e alteração visual (na verdade, ptose palpebral por fraqueza muscular). Retirou 5 carrapatos jovens, mas os sintomas persistiam.
O humano costuma ser atacado por formas jovens, minúsculas, que passam despercebidas. Larvas e ninfas são as mais perigosas porque ficam fixadas por dias sem serem notadas. Adultos também atacam — mas, por serem grandes, são vistos e removidos antes de completar o repasto.
Carrapatos como vetores
O ser humano não é vetor — é hospedeiro/reservatório. Em peste e doenças associadas a piolhos, quem transmite (vetor) são pulgas e piolhos-do-corpo; o homem é apenas o reservatório infectado.
Diversidade e distribuição
Carrapatos veiculam vírus, bactérias, protozoários (e até helmintos). A distribuição não é uniforme no mundo.
1. Febre maculosa — bacteriana, grave.
2. Doença de Lyme — com perfil próprio no Brasil (Baggio-Yoshinari).
Doenças de animais que podem acometer humanos, mas sem a mesma frequência aqui: erliquiose e babesiose.
O tempo de fixação é determinante
A transmissão não é por "regurgitação" de saliva: a saliva é ativamente secretada e inoculada de forma contínua durante o repasto. Patógenos (Rickettsia, Babesia) invadem as glândulas salivares e são injetados na ferida.
Exceção à regra do tempo: há vírus com transmissão descrita em ~15 minutos. "Tempo como aliado" generaliza, mas não é 100%.
Corpo mole × corpo duro
Todos têm exoesqueleto. A diferença que importa é a presença de escudo.
Nos argasídeos, "pica e sai" vale só para ninfas e adultos (10–30 min). As larvas fixam-se firmemente por 4–5 dias. Além disso, eles secretam líquido coxal, via de transmissão de espiroquetas (febre recorrente, Borrelia duttoni).
O escudo: macho × fêmea
Aqueles carrapatos gigantescos e ingurgitados são sempre fêmeas. O escudo pequeno permite a expansão. Sequência: enche de sangue → copula sobre o hospedeiro → enche de ovos → solta-se para a postura no solo.
Aparelho bucal, picada e fixação
A picada não alcança os vasos: forma-se uma "lagoa" de sangue mantida fluida pela saliva (anticoagulante) → reação inflamatória ao redor.
Alguns ainda secretam um "cimento" rico em carboidratos que endurece, reforçando a fixação.
Como remover corretamente
- !Não puxar bruscamente nem quebrar o carrapato — peças bucais retidas aumentam a inflamação.
- !Pinça na base (junto à pele), sem apertar o abdômen (evita forçar conteúdo infectante para dentro).
- !Destruir/queimar o carrapato após a retirada.
O ácaro não deve ser tracionado (puxado/alavancado). O correto é torcê-lo em torno do próprio eixo longitudinal com a pinça até que se desprenda — assim não rompe nem deixa peças bucais na pele.
Ciclo do carrapato
A fêmea sempre põe os ovos no solo (ambiente), nunca no hospedeiro. Por isso, a fonte de infecção é o ambiente. Um animal com carrapato em casa contamina o solo com centenas/milhares de ovos → risco para toda a comunidade familiar.
Ixodídeos não põem "tudo de uma vez": a postura é contínua, ao longo de dias, e a massa é bem maior que 700–900 ovos — tipicamente 3.000 a 10.000 ovos (o Amblyomma sculptum/cajennense, 6.000–8.000).
Transmissão transovariana
Foi dito em sala que a transovariana seria "mais difícil" para bactérias — o oposto é verdadeiro na febre maculosa: a Rickettsia rickettsii usa essa via tão bem que o carrapato vira reservatório natural. (Comparação: no Aedes/dengue, ~20% dos ovos.)
Carrapatos de 1, 2 e 3 hospedeiros
A classificação conta quantos hospedeiros diferentes os estágios precisam parasitar. Como nos contaminamos pelo ambiente, isso define o risco humano.
Rhipicephalus (Boophilus) microplus — o carrapato do boi. Muito específico → pouco relevante para o humano, mas é o ectoparasito mais importante da pecuária sul-americana (babesiose bovina, espoliação).
No carrapato de 3 hospedeiros, as formas jovens (larva, ninfa) inespecíficas atacam o humano. Adultos também atacam — mas, por serem grandes, são vistos e removidos antes de transmitir. Os jovens, minúsculos, ficam fixados dias despercebidos (lembre o 6º carrapato do estudante).
Principais carrapatos de importância médica
Amblyomma — "carrapato estrela"
O Amblyomma não gosta do semiárido (quente demais). Como é o vetor clássico da febre maculosa, esta não tem transmissão relatada na nossa região.
A febre maculosa não depende só do Amblyomma: a R. rickettsii também é transmitida pelo Rhipicephalus sanguineus (carrapato do cão), cosmopolita e urbano. O risco existe mesmo sem o carrapato-estrela.
Rhipicephalus sanguineus — "vermelho do cão"
Recife: de casa em casa, acharam pessoas parasitadas que não sabiam — "se a gente procurar, a gente acha".
Goiânia: 47 trabalhadores de canis/clínicas; ~68–71% já tinham encontrado carrapatos; achadas 3 larvas e 1 ninfa parasitando pessoas.
As doenças transmitidas
Analogias didáticas da professora
Dizer que babesiose/erliquiose "não se estabelecem no Brasil" está incorreto: há casos humanos autóctones documentados de babesiose (1º em 1983, PE; depois RJ e SP) e de infecção por Ehrlichia. A babesiose é diferencial da malária, porém com hemólise mais branda e sem o comprometimento cerebral do P. falciparum.
Por que (relativamente) protegidos?
Uma mutação ou a entrada de um novo parasito pode mudar tudo. A sorologia da população "encontra contato", mas a doença não se estabelece amplamente. Meta: prevenir ao máximo.
Febre maculosa
Doença de Lyme & "Lyme-like" brasileira
Lyme é a doença de carrapato mais comum do mundo, mas no Brasil tem perfil diferente — mesmo parasito + outras espécies/ambiente = doença distinta, daí o nome próprio Baggio-Yoshinari.
Prevenção e controle
- 1Atuar nos animais — tratar e proteger os pets (preocupação coletiva, mesmo sem transmissão a humanos aqui).
- 2Controle da vegetação — ovos e formas livres estão no ambiente.
- 3Roupas claras e fechadas em áreas de mato (facilitam ver o carrapato); cuidado com entradas pelo calçado.
- 4Remoção rápida e correta com pinça (torcer, não puxar).
Em risco: botas de cano alto, calça por dentro do calçado, vedando o encontro com fita adesiva; impregnar o tecido com repelente. A doença "viaja" com o carrapato ainda preso (episódio de House).
Outros ácaros — "piolho de pão"
Ácaros pequeníssimos, de formato oval, com peças bucais grandes. Popularmente chamados de "piolho de pão" — mas não são piolhos (são ácaros). Surtos geram manchetes; causam picadas/irritação em grande número.
Estes ácaros de produtos armazenados/poeira não são hematófagos: têm vida livre (fungos, matéria orgânica). Podem picar acidentalmente e causar dermatites/alergia — ex.: Tyrophagus putrescentiae ("coceira dos padeiros"), Pyemotes tritici ("sarna dos grãos").
Demodex — o ácaro dos folículos
Praticamente todos os adultos o possuem sem problema ("os nossos demônios"). O problema surge com aumento exagerado da população → dermatoses como rosácea, acne/comedões, blefarite, hordéolo (terçol).
Controle: lavagem do rosto e redução de oleosidade diminuem a população (fezes e cascas de ovos somam ao processo inflamatório). Cada animal tem sua espécie; a do cão, no humano, é autolimitante.
Sarcoptes scabiei — sarna / escabiose
O parasito mais importante desta aula para nós. Diferente do Demodex, o Sarcoptes scabiei var. hominis é praticamente o mesmo no mundo todo.
Altamente contagiosa por contato (crianças juntas, mesma cadeira). O contato explica a transmissão; a sintomatologia depende da fêmea.
Não é só "transmite melhor entre iguais": há barreira biológica. Variedades animais não completam o ciclo no humano → infestação frustra e autolimitada, restrita às áreas de contato, sem galerias típicas. A via principal é o contato direto e prolongado pessoa a pessoa (fômites = via secundária).
Morfologia
Patogenia — o túnel da fêmea
O prurido intenso vem sobretudo de hipersensibilidade (tipos I, III, IV) aos produtos do metabolismo e à saliva inoculada — não apenas das fezes/cascas no túnel.
Dermatoscopia visualiza os túneis (a fêmea fica na extremidade anterior). O quadro clínico (túneis + prurido) costuma bastar. Confirmação: raspado ou fita adesiva sobre as casquinhas → lâmina. Exame negativo não exclui.
Distribuição das lesões
O dorso (costas) não é tipicamente poupado — pode ser acometido junto com tronco, pernas e nádegas.
Sarna crostosa (norueguesa)
Quadro exuberante com grandes crostas e altíssima carga parasitária.
Ocorre em imunossuprimidos ou em uso de corticoide — e também em institucionalizados / distúrbios neurológicos-psiquiátricos (não conseguem se coçar → remoção mecânica falha). Exige isolamento e desinfecção rigorosa. Responde ao tratamento quando a doença de base melhora.
Higiene, suscetibilidade, infecção secundária
Sarna não é, por si, indicador de falta de higiene — todos podem ter o parasito. O que pesa é carga aumentada persistente, imunossupressão ou maior suscetibilidade. A higiene diária só reduz a população jovem. Em condições precárias → infecções bacterianas secundárias.
Ambiente & surtos
Há divergência na literatura sobre sobrevida fora do hospedeiro — mas não passa de ~3 dias. Depende de ventilação/clima (clima quente → resiste menos). Em surto escolar: suspender, limpar e desinfetar faz sentido, mas o pilar é tratar simultaneamente todos os casos e contactantes, mesmo assintomáticos.
Tratamento
Uso indiscriminado/automedicação gerou relatos de resistência à ivermectina (ex.: Pernambuco). Como é praticamente o único oral, deve ser preservado. Associar: banhos, água quente, lavar/passar a ferro roupas, toalhas e roupas de cama.
Ácaros do ecossistema domiciliar
São de vida livre, não parasitam — mas causam alergia em sensíveis. Aspirados → alergias respiratórias; também manifestações cutâneas e digestivas.
Não estão só em casa suja — existem também em casas limpas. A higiene reduz a população, mas não os elimina.
Alimentação e proliferação
Há várias espécies (Dermatophagoides e congêneres); cada localidade tem o seu grupo predominante → o teste alérgico (e a imunoterapia) deve usar os ácaros mais frequentes da região.
Controle ambiental
O controle é essencialmente ambiental: evitar tapetes/carpetes; expor colchão e travesseiro ao sol; faxina e ventilação frequentes; limpeza com pano úmido. (A literatura admite ainda fungicidas como adjuvante.) Curiosidade: parte significativa do peso de um travesseiro velho são ácaros e resíduos.
Casos clínicos — método DIJC
Como ler cada caso
Para cada vinheta, identifique a doença e o parasito, justifique do ponto de vista parasitológico e defina a conduta.
Pontos-chave para a prova
- 1Aracnídeos não têm cabeça individualizada e têm 4 pares de patas (exceto larvas de Acari, com 3 pares); insetos têm 3 regiões, 3 pares e antenas.
- 2A cabeça é onde está a massa nervosa.
- 3Acarídeo = gnatossoma (peças bucais) + idiossoma (podossoma com patas / opistossoma sem patas).
- 4O humano é mais acometido por formas jovens minúsculas e despercebidas.
- 5Toxina paralisante de meia-vida curta → regride com a retirada (6º carrapato).
- 6Mosquitos = vetores nº 1 do humano; carrapatos = nº 1 dos animais e 2º do humano.
- 7Mais tempo fixado = mais risco → remover rápido; saliva é inoculada (não regurgitada); exceção: vírus em ~15 min.
- 8Mole/argasídeo = sem escudo, baixo risco; duro/ixodídeo = com escudo, fixa-se, alto risco.
- 9Carrapatos ingurgitados gigantes são fêmeas; macho tem escudo total, fêmea parcial.
- 10A fêmea põe ovos no solo, nunca no hospedeiro → fonte = ambiente.
- 113 hospedeiros = maior risco (jovens inespecíficos); 1 hospedeiro (R. microplus, do boi) = pouco relevante ao humano.
- 12Remoção: pinça na base, sem apertar abdômen, torcer no eixo (não puxar); destruir o carrapato.
- 13Amblyomma (estrela, escudo ornamentado, febre maculosa, foge do semiárido) e R. sanguineus (vermelho do cão, cosmopolita, 3 hospedeiros).
- 14Babesiose ≈ "malária dos animais" (hemácias); erliquiose ≈ "HIV dos animais" (defesas) — ambas com casos humanos documentados no Brasil.
- 15Febre maculosa: riquétsia, endotélio, letalidade ~32%; Baggio-Yoshinari: "Lyme-like" por Borrelia, crônica, dermato-articular.
- 16"Proteção" brasileira frágil → hipótese mais provável: parasitos adaptados aos animais, menos patogênicos.
- 17Sarna = contato direto; fêmea escava túneis; sintomas por hipersensibilidade a fezes/ovos/saliva.
- 18Sarna ≠ falta de higiene; carga alta liga-se a imunossupressão/corticoide → sarna crostosa/norueguesa.
- 19Tratamento: tópico ± ivermectina oral (cuidado com resistência e contraindicações); tratar contactantes; água quente/ferro nas roupas.
- 20Demodex: folículos/glândulas sebáceas, quase universal, assintomático; excesso → dermatoses.
- 21Ácaros de poeira: vida livre, alergia (não infecção), comem descamação + fungos, pioram na umidade; controle ambiental.