Parasitologia Médica · 2026.1

Acarídeos de Importância Médica

Carrapatos, ácaros e sarna — quem pica, quem transmite, quem só coça.
Aula revisada Acari / Acarina Sarcoptes · Demodex Febre maculosa · Lyme-BR
01

Introdução: posicionando os acarídeos

Da enorme diversidade de insetos e aracnídeos, só uma minoria tem importância médica. A aula encerra esse bloco e foca nos acarídeos — o grupo Acari/Acarina, que reúne carrapatos e ácaros.

Como distinguir inseto de aracnídeo

Inseto adulto
CorpoTrês regiões nítidas: cabeça, tórax e abdômen
Patas3 pares saindo do tórax + antenas
Aracnídeo
MarcaNão há cabeça individualizada (fundida ao tórax)
Patas4 pares, sem antenas
◆ Conceito-chave

A cabeça é definida pela presença da massa de tecido nervoso (o "cérebro"). Onde está essa massa, ali é a cabeça. Nos aracnídeos, palpos e quelíceras são peças sensoriais/de preensão — não uma cabeça verdadeira.

Organização do corpo dos aracnídeos

Escorpiões
CorpoCefalotórax + abdômen dividido; última porção forma a cauda
Aranhas
CorpoCefalotórax + abdômen separados por uma cintura
Acarídeos
CorpoRegiões fundidas em estrutura única (idiossoma) + gnatossoma anterior
⚠ Pegadinha de prova

Falar em "cabeça, tórax e abdômen" no acarídeo é impreciso. O corpo é o idiossoma (fusão de prossoma + opistossoma) e, à frente, o gnatossoma (capítulo / "falsa cabeça") com as peças bucais.

E mais: nem sempre são 4 pares de patas. Na ordem Acari, larvas têm só 3 pares (hexápodes); ninfas e adultos têm 4 pares (octópodes) — fonte clássica de confusão com insetos.

Divisões do corpo do acarídeo

Gnatossoma
FunçãoRegião anterior com as peças bucais
Idiossoma
PodossomaParte com patas (~cefalotórax)
OpistossomaParte sem patas (~abdômen)
Roteiro dos acarídeos a estudar
Carrapatos (hematófagos)→ Ácaros menores que picam→ Sarna + Demodex→ Ácaros de poeira (alergia)
02

Carrapatos: a picada importa

O carrapato é o ácaro hematófago do grupo. Para o ser humano, três aspectos da picada pesam.

A toxina paralisante

À medida que o carrapato se alimenta, inocula uma toxina e a paralisia progride. Bem documentada em animais; poucos relatos em humanos.

◆ Conceito-chave

A toxina tem meia-vida muito curta → não há efeito prolongado. Removido o carrapato, a sintomatologia regride.

⚠ Não subestime

Se o carrapato não for achado e retirado a tempo, o quadro pode evoluir com toxemia (deglutição/respiração comprometidas) e letalidade elevada (~13%, gênero Dermacentor/EUA).

Caso ilustrativo — estudante de medicina, 28 anos

Dias na zona rural → 2 dias de dificuldade para andar, depois para segurar objetos e alteração visual (na verdade, ptose palpebral por fraqueza muscular). Retirou 5 carrapatos jovens, mas os sintomas persistiam.

Investigação→6º carrapato oculto, fixado há dias→retirada→regressão total
★ Importante para prova

O humano costuma ser atacado por formas jovens, minúsculas, que passam despercebidas. Larvas e ninfas são as mais perigosas porque ficam fixadas por dias sem serem notadas. Adultos também atacam — mas, por serem grandes, são vistos e removidos antes de completar o repasto.

03

Carrapatos como vetores

Para humanos
Vetor nº 1Mosquitos
Carrapatos2º lugar — "esquecidos"
Para animais
Vetor nº 1Carrapatos — transmissão muito eficiente
⚠ Erro conceitual frequente

O ser humano não é vetor — é hospedeiro/reservatório. Em peste e doenças associadas a piolhos, quem transmite (vetor) são pulgas e piolhos-do-corpo; o homem é apenas o reservatório infectado.

Diversidade e distribuição

Carrapatos veiculam vírus, bactérias, protozoários (e até helmintos). A distribuição não é uniforme no mundo.

★ Confirmadas por carrapato no Brasil

1. Febre maculosa — bacteriana, grave.
2. Doença de Lyme — com perfil próprio no Brasil (Baggio-Yoshinari).

Doenças de animais que podem acometer humanos, mas sem a mesma frequência aqui: erliquiose e babesiose.

O tempo de fixação é determinante

Fixa-se→alimenta-se→inocula saliva infectante→+ horas/dias = + risco→retirar o quanto antes
⚠ Correção importante

A transmissão não é por "regurgitação" de saliva: a saliva é ativamente secretada e inoculada de forma contínua durante o repasto. Patógenos (Rickettsia, Babesia) invadem as glândulas salivares e são injetados na ferida.

Exceção à regra do tempo: há vírus com transmissão descrita em ~15 minutos. "Tempo como aliado" generaliza, mas não é 100%.

04

Corpo mole × corpo duro

Todos têm exoesqueleto. A diferença que importa é a presença de escudo.

Mole — Argasídeo
EscudoAusente; corpo flexível
CondutaPeças bucais ventrais → "pica e sai", não fixa profundo
RiscoTransmissão menos provável (no Brasil, sem relato de doença); picada incômoda
Duro — Ixodídeo
EscudoPresente; corpo rígido
CondutaFixa-se ao hospedeiro, permanece dias
RiscoMaior chance de transmissão — "os nossos problemas"
⚠ Nuances que a prova adora

Nos argasídeos, "pica e sai" vale só para ninfas e adultos (10–30 min). As larvas fixam-se firmemente por 4–5 dias. Além disso, eles secretam líquido coxal, via de transmissão de espiroquetas (febre recorrente, Borrelia duttoni).

05

O escudo: macho × fêmea

Macho ♂
EscudoOcupa todo o dorso
MotivoMuda pouco de tamanho ao se alimentar
Fêmea ♀
EscudoPequeno (parcial)
MotivoPrecisa crescer muito (sangue + ovos)
★ Importante para prova

Aqueles carrapatos gigantescos e ingurgitados são sempre fêmeas. O escudo pequeno permite a expansão. Sequência: enche de sangue → copula sobre o hospedeiro → enche de ovos → solta-se para a postura no solo.

06

Aparelho bucal, picada e fixação

A picada não alcança os vasos: forma-se uma "lagoa" de sangue mantida fluida pela saliva (anticoagulante) → reação inflamatória ao redor.

Palpos (pedipalpos)
FunçãoSensoriais — não entram na pele (nos machos, também atuam na cópula)
Quelíceras (2 laterais)
FunçãoPeças cortantes que penetram
Hipostômio (central)
FunçãoAssoalho do canal alimentar; espinhos voltados para trás (serrilha) que prendem o carrapato

Alguns ainda secretam um "cimento" rico em carboidratos que endurece, reforçando a fixação.

Como remover corretamente

⚠ Correção sobre a técnica

O ácaro não deve ser tracionado (puxado/alavancado). O correto é torcê-lo em torno do próprio eixo longitudinal com a pinça até que se desprenda — assim não rompe nem deixa peças bucais na pele.

07

Ciclo do carrapato

Estágios
Ovos (no solo)→Larva · 3 pares de patas→Ninfa · 4 pares→Adulto · 4 pares
★ Importante para prova

A fêmea sempre põe os ovos no solo (ambiente), nunca no hospedeiro. Por isso, a fonte de infecção é o ambiente. Um animal com carrapato em casa contamina o solo com centenas/milhares de ovos → risco para toda a comunidade familiar.

⚠ Quantidade & ritmo de postura

Ixodídeos não põem "tudo de uma vez": a postura é contínua, ao longo de dias, e a massa é bem maior que 700–900 ovos — tipicamente 3.000 a 10.000 ovos (o Amblyomma sculptum/cajennense, 6.000–8.000).

Transmissão transovariana

Viroses graves
TransovarianaBem documentada → larvas já nascem infectadas
Febre maculosa (Rickettsia)
TransovarianaMuito eficiente → o carrapato é o próprio reservatório da bactéria
⚠ Atenção (corrige a fala da aula)

Foi dito em sala que a transovariana seria "mais difícil" para bactérias — o oposto é verdadeiro na febre maculosa: a Rickettsia rickettsii usa essa via tão bem que o carrapato vira reservatório natural. (Comparação: no Aedes/dengue, ~20% dos ovos.)

08

Carrapatos de 1, 2 e 3 hospedeiros

A classificação conta quantos hospedeiros diferentes os estágios precisam parasitar. Como nos contaminamos pelo ambiente, isso define o risco humano.

1 hospedeiro
Comporta.Larva → ninfa → adulto no mesmo hospedeiro
Especif.Muito específico
Risco humanoBaixo
2 hospedeiros
Comporta.Larva e ninfa no mesmo hospedeiro; muda final no solo; adulto busca novo hospedeiro
Risco humanoIntermediário
3 hospedeiros
Comporta.Cada estágio em um hospedeiro diferente; mudas no solo
Especif.Adulto + específico; jovens inespecíficos
Risco humanoAlto
Exemplo — 1 hospedeiro

Rhipicephalus (Boophilus) microplus — o carrapato do boi. Muito específico → pouco relevante para o humano, mas é o ectoparasito mais importante da pecuária sul-americana (babesiose bovina, espoliação).

★ Importante para prova

No carrapato de 3 hospedeiros, as formas jovens (larva, ninfa) inespecíficas atacam o humano. Adultos também atacam — mas, por serem grandes, são vistos e removidos antes de transmitir. Os jovens, minúsculos, ficam fixados dias despercebidos (lembre o 6º carrapato do estudante).

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Principais carrapatos de importância médica

Amblyomma — "carrapato estrela"

TaxonomiaAntigo A. cajennense (sensu lato) → hoje, complexo de várias espécies
Ciclo3 hospedeiros; de domésticos a silvestres
AssociaçãoCapivaras e parques (ex.: São Paulo)
"Estrela"Escudo ornamentado, com manchas decorativas
0,5 mm
Larva
1 mm
Ninfa
>5 mm
Adulto
★ Distribuição (cai na prova)

O Amblyomma não gosta do semiárido (quente demais). Como é o vetor clássico da febre maculosa, esta não tem transmissão relatada na nossa região.

⚠ Mas atenção ao risco residual

A febre maculosa não depende só do Amblyomma: a R. rickettsii também é transmitida pelo Rhipicephalus sanguineus (carrapato do cão), cosmopolita e urbano. O risco existe mesmo sem o carrapato-estrela.

Rhipicephalus sanguineus — "vermelho do cão"

DistribuiçãoCosmopolita
Ciclo3 hospedeiros → atenção
Especif.Adulto específico do cão; jovem pica o humano
Por que estamos relativamente seguros — estudos

Recife: de casa em casa, acharam pessoas parasitadas que não sabiam — "se a gente procurar, a gente acha".

Goiânia: 47 trabalhadores de canis/clínicas; ~68–71% já tinham encontrado carrapatos; achadas 3 larvas e 1 ninfa parasitando pessoas.

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As doenças transmitidas

Analogias didáticas da professora

Babesiose · Babesia (protozoário)
Analogia"A malária dos animais"
MecanismoDestrói hemácias → anemia, quadro grave
Erliquiose · Ehrlichia (bactéria)
Analogia"O HIV dos animais"
MecanismoDestrói células de defesa → infecções oportunistas
⚠ Correção (cuidado!)

Dizer que babesiose/erliquiose "não se estabelecem no Brasil" está incorreto: há casos humanos autóctones documentados de babesiose (1º em 1983, PE; depois RJ e SP) e de infecção por Ehrlichia. A babesiose é diferencial da malária, porém com hemólise mais branda e sem o comprometimento cerebral do P. falciparum.

Por que (relativamente) protegidos?

Hipótese do hospedeiro
IdeiaNosso Rhipicephalus "gosta de cão", picaria pouco o humano
ForçaFraca — quando se procura, acha-se
Hipótese do parasito
IdeiaSubtipos muito adaptados aos animais, menos patogênicos ao humano
ForçaMais provável
◆ Situação confortável, porém frágil

Uma mutação ou a entrada de um novo parasito pode mudar tudo. A sorologia da população "encontra contato", mas a doença não se estabelece amplamente. Meta: prevenir ao máximo.

Febre maculosa

AgenteRiquétsia (bactéria)
AlvoEndotélio (células dos vasos)
Letalidade~32% — agravada por ser pouco conhecida / diagnóstico tardio
FonteParques urbanos com capivaras; vetor Amblyomma

Doença de Lyme & "Lyme-like" brasileira

Lyme clássica
AgenteBorrelia (espiroqueta); vetor Ixodes
LesãoInicia na picada — eritema crônico migratório
Brasil — Baggio-Yoshinari
Perfil"Lyme-like"; provável vetor Amblyomma cajennense
CursoCrônico, aparência autoimune: dermatológico + articular
DiagnósticoTestes sorológicos padrão falhavam aqui
★ Importante para prova

Lyme é a doença de carrapato mais comum do mundo, mas no Brasil tem perfil diferente — mesmo parasito + outras espécies/ambiente = doença distinta, daí o nome próprio Baggio-Yoshinari.

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Prevenção e controle

◆ Técnica de vedação

Em risco: botas de cano alto, calça por dentro do calçado, vedando o encontro com fita adesiva; impregnar o tecido com repelente. A doença "viaja" com o carrapato ainda preso (episódio de House).

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Outros ácaros — "piolho de pão"

Ácaros pequeníssimos, de formato oval, com peças bucais grandes. Popularmente chamados de "piolho de pão" — mas não são piolhos (são ácaros). Surtos geram manchetes; causam picadas/irritação em grande número.

⚠ Correção biológica

Estes ácaros de produtos armazenados/poeira não são hematófagos: têm vida livre (fungos, matéria orgânica). Podem picar acidentalmente e causar dermatites/alergia — ex.: Tyrophagus putrescentiae ("coceira dos padeiros"), Pyemotes tritici ("sarna dos grãos").

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Demodex — o ácaro dos folículos

HábitatFolículos pilosos / glândulas sebáceas
FormaCorpo alongado ("charuto"), 4 pares de patas, sem cabeça individualizada
Espécies (humano)D. folliculorum (base do folículo) e D. brevis (glândula sebácea)
◆ Relevância clínica

Praticamente todos os adultos o possuem sem problema ("os nossos demônios"). O problema surge com aumento exagerado da população → dermatoses como rosácea, acne/comedões, blefarite, hordéolo (terçol).

Controle: lavagem do rosto e redução de oleosidade diminuem a população (fezes e cascas de ovos somam ao processo inflamatório). Cada animal tem sua espécie; a do cão, no humano, é autolimitante.

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Sarcoptes scabiei — sarna / escabiose

O parasito mais importante desta aula para nós. Diferente do Demodex, o Sarcoptes scabiei var. hominis é praticamente o mesmo no mundo todo.

★ Transmissão

Altamente contagiosa por contato (crianças juntas, mesma cadeira). O contato explica a transmissão; a sintomatologia depende da fêmea.

⚠ Por que "variedade"?

Não é só "transmite melhor entre iguais": há barreira biológica. Variedades animais não completam o ciclo no humano → infestação frustra e autolimitada, restrita às áreas de contato, sem galerias típicas. A via principal é o contato direto e prolongado pessoa a pessoa (fômites = via secundária).

Morfologia

FormaArredondado/"fofinho" (não vive em folículo)
Patas4 pares (adulto/ninfa); pelos e ventosas para fixar — larva tem só 3 pares
DorsoCheio de espinhos/irregularidades (fixação)

Patogenia — o túnel da fêmea

Cópula→fêmea escava túneis na epiderme→defeca + solta ovos→reação inflamatória intensa
⚠ Imunopatogênese

O prurido intenso vem sobretudo de hipersensibilidade (tipos I, III, IV) aos produtos do metabolismo e à saliva inoculada — não apenas das fezes/cascas no túnel.

★ Diagnóstico

Dermatoscopia visualiza os túneis (a fêmea fica na extremidade anterior). O quadro clínico (túneis + prurido) costuma bastar. Confirmação: raspado ou fita adesiva sobre as casquinhas → lâmina. Exame negativo não exclui.

Distribuição das lesões

Adulto
PredomínioMãos, espaços interdigitais (mais contato)
PoupadoFace/couro cabeludo e pescoço
Criança
ExtraLesões também nos pés; quadro mais intenso; pode atingir face
⚠ Correção

O dorso (costas) não é tipicamente poupado — pode ser acometido junto com tronco, pernas e nádegas.

Sarna crostosa (norueguesa)

Caso citado — homem, 58 anos

Quadro exuberante com grandes crostas e altíssima carga parasitária.

★ Importante para prova

Ocorre em imunossuprimidos ou em uso de corticoide — e também em institucionalizados / distúrbios neurológicos-psiquiátricos (não conseguem se coçar → remoção mecânica falha). Exige isolamento e desinfecção rigorosa. Responde ao tratamento quando a doença de base melhora.

Higiene, suscetibilidade, infecção secundária

⚠ Mito que cai na prova

Sarna não é, por si, indicador de falta de higiene — todos podem ter o parasito. O que pesa é carga aumentada persistente, imunossupressão ou maior suscetibilidade. A higiene diária só reduz a população jovem. Em condições precárias → infecções bacterianas secundárias.

Ambiente & surtos

Há divergência na literatura sobre sobrevida fora do hospedeiro — mas não passa de ~3 dias. Depende de ventilação/clima (clima quente → resiste menos). Em surto escolar: suspender, limpar e desinfetar faz sentido, mas o pilar é tratar simultaneamente todos os casos e contactantes, mesmo assintomáticos.

Tratamento

Tópico (escabicidas)
Prós/contrasMais caro, exige reaplicação; nem sempre adequado em crianças com feridas — escolha em gestantes, nutrizes, <5 anos/<15 kg
Oral — ivermectina
PrósBaixo custo, trata toda a família com adesão
Contraind.Gestantes, nutrizes, afecções do SNC, crianças <5 anos/<15 kg
⚠ Alerta de resistência

Uso indiscriminado/automedicação gerou relatos de resistência à ivermectina (ex.: Pernambuco). Como é praticamente o único oral, deve ser preservado. Associar: banhos, água quente, lavar/passar a ferro roupas, toalhas e roupas de cama.

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Ácaros do ecossistema domiciliar

São de vida livre, não parasitam — mas causam alergia em sensíveis. Aspirados → alergias respiratórias; também manifestações cutâneas e digestivas.

★ Importante para prova

Não estão só em casa suja — existem também em casas limpas. A higiene reduz a população, mas não os elimina.

Alimentação e proliferação

Descamação de pele (caspa)+fungos→clima úmido/chuvoso = mais fungos = mais ácaros

Há várias espécies (Dermatophagoides e congêneres); cada localidade tem o seu grupo predominante → o teste alérgico (e a imunoterapia) deve usar os ácaros mais frequentes da região.

Controle ambiental

◆ Não há medicação curativa

O controle é essencialmente ambiental: evitar tapetes/carpetes; expor colchão e travesseiro ao sol; faxina e ventilação frequentes; limpeza com pano úmido. (A literatura admite ainda fungicidas como adjuvante.) Curiosidade: parte significativa do peso de um travesseiro velho são ácaros e resíduos.

★

Casos clínicos — método DIJC

Cenários com cara de prova

Como ler cada caso

Para cada vinheta, identifique a doença e o parasito, justifique do ponto de vista parasitológico e defina a conduta.

D Dado clínico I Identificação J Justificativa C Conduta
Caso 01
Estudante de 28 anos volta de dias na zona rural com fraqueza ascendente progressiva: dificuldade para andar, depois para segurar objetos e queda das pálpebras (ptose). Retirou 5 "carrapatinhos", mas piora.
D
DadoParalisia flácida progressiva pós-exposição rural, com ptose — sem febre marcante.
I
IdentificaçãoParalisia por carrapato — toxina salivar de ixodídeo (formas jovens de Amblyomma).
J
JustificativaA toxina tem meia-vida curta: persistência dos sintomas indica carrapato ainda fixado. Jovens minúsculos passam despercebidos por dias.
C
CondutaBusca minuciosa de todo o corpo (achar o 6º carrapato oculto) e remoção correta (pinça na base, torcendo no eixo). Após a retirada, regressão.
Caso 02
Criança de 7 anos com prurido noturno intenso, lesões entre os dedos e nos pés; vários colegas da mesma sala com queixa semelhante. Dermatoscopia mostra finos túneis.
D
DadoPrurido + túneis interdigitais e plantares, com contactantes acometidos.
I
IdentificaçãoEscabiose — Sarcoptes scabiei var. hominis.
J
JustificativaA fêmea escava túneis; prurido por hipersensibilidade a ovos/fezes/saliva. Alta contagiosidade por contato direto explica o surto na turma; pés acometidos = padrão infantil.
C
CondutaTratamento tópico ± ivermectina oral (respeitando peso/idade — <15 kg/<5 anos: preferir tópico), tratar todos os contactantes simultaneamente; lavar roupas/lençóis em água quente ou passar a ferro.
Caso 03
Homem de 58 anos, em corticoterapia prolongada, internado, com placas crostosas extensas e descamação maciça; pouco prurido relatado. Equipe e contatos começam a coçar.
D
DadoCrostas exuberantes, altíssima descamação, imunocomprometido.
I
IdentificaçãoSarna crostosa (norueguesa) — Sarcoptes scabiei, carga parasitária maciça.
J
JustificativaImunossupressão/corticoide (e pacientes que não se coçam) permitem crescimento exponencial dos ácaros → extremamente contagiosa.
C
CondutaIsolamento, desinfecção rigorosa do ambiente, ivermectina oral (repetida) + tópico, e controle da doença de base. Tratar contactantes.
Caso 04
Turista volta de parque urbano com capivaras (região Sudeste) e evolui com febre alta, cefaleia, mialgia e exantema; quadro rapidamente grave.
D
DadoFebre + exantema + toxemia após área de capivaras/carrapatos.
I
IdentificaçãoFebre maculosa — Rickettsia rickettsii; vetor Amblyomma (carrapato-estrela).
J
JustificativaA riquétsia ataca o endotélio dos vasos. O carrapato é também reservatório (transmissão transovariana). Vínculo com parques/capivaras é epidemiológico clássico.
C
CondutaSuspeição precoce + tratamento imediato (não esperar confirmação) — letalidade ~32% pelo diagnóstico tardio. Lembrar: o R. sanguineus também transmite, ampliando o risco urbano.
Caso 05
Mulher com rinite e tosse que pioram após dias chuvosos e ao arrumar o quarto; melhora ao arejar o ambiente. Casa bem cuidada, com tapetes e travesseiros antigos.
D
DadoAlergia respiratória sazonal, ligada a poeira/umidade — sem febre ou parasitose cutânea.
I
IdentificaçãoAlergia a ácaros de poeira domiciliar (Dermatophagoides e congêneres) — não há parasitismo.
J
JustificativaÁcaros de vida livre comem descamação e fungos → proliferam na umidade. São aspirados → alergia. Existem mesmo em casa limpa.
C
CondutaControle ambiental: evitar tapetes/carpetes, expor colchão/travesseiro ao sol, faxina/ventilação, limpeza com pano úmido. Teste alérgico e imunoterapia com ácaros regionais. Não há medicação que "cure" o ácaro.
✓

Pontos-chave para a prova

§

Glossário essencial

Acari / Acarina
Grupo dos acarídeos (carrapatos e ácaros).
Gnatossoma
Porção anterior com as peças bucais ("falsa cabeça").
Idiossoma
Corpo do acarídeo, exceto o gnatossoma.
Podossoma / Opistossoma
Região com patas / região sem patas.
Quelíceras
Peças bucais cortantes que penetram a pele.
Hipostômio
Peça central serrilhada que ancora o carrapato.
Palpos (pedipalpos)
Estruturas sensoriais anteriores; não penetram.
Escudo
Placa dorsal rígida; presente nos ixodídeos.
Ixodídeo / Argasídeo
Carrapato de corpo duro (com escudo) / de corpo mole (sem escudo).
Ingurgitada
Fêmea repleta de sangue/ovos, muito aumentada.
Transmissão transovariana
Passagem do agente da fêmea para os ovos/descendência.
Febre maculosa
Doença grave por riquétsia; vetor Amblyomma (e também R. sanguineus).
Baggio-Yoshinari
"Lyme-like" brasileira, por Borrelia, com perfil próprio.
Babesiose / Erliquiose
Por Babesia (hemácias) / por Ehrlichia (células de defesa).
Escabiose
Sarna humana; Sarcoptes scabiei escava túneis na epiderme.
Sarna crostosa (norueguesa)
Forma hiperinfestada; imunossuprimidos e institucionalizados.
Demodex
Ácaro dos folículos/glândulas sebáceas; quase universal e assintomático.
Dermatoscopia
Exame ampliado da pele para ver os túneis da sarna.
FIM DA REVISÃO