Nutrição e Saúde · Aula 1 · 2026.1

Prancha de Estudo  ·  Nutrição Clínica

Conduta nas Insuficiências Renal, Hepática & na DPOC

Dietoterapia aplicada: como adequar a alimentação à condição clínica do paciente em três grandes falências orgânicas — rim, fígado e pulmão.

Dietoterapia 9 seções 23 pontos-chave Cenários de prova

Eixo condutor da aula

Adequar a alimentação à condição clínica do paciente.

Esse é o objetivo central da nutrição clínica (dietoterapia). Toda conduta a seguir nasce de duas perguntas: qual o órgão em falência e em que grau/estágio ele está.

I

Antes das patologias

Fundamentos da Dietoterapia

Fig. 1.1 — Dieta padrão

Distribuição dos macronutrientes

A referência parte do VCT — Valor Calórico Total (ou valor energético total), aquele percentual sobre as ~2.000 kcal de referência do rótulo.

Proteína10–15%10% é normoproteico; ao chegar a 15% já tende a ser hiperproteica.
Carboidrato55–60%
Lipídio25–30%
Importante para prova

Dieta normoproteica ≈ 10% do VCT (faixa 10–15%). A partir de 15% do VCT já se considera hiperproteica.

Ponto de atenção

Classificar a dieta como hiperproteica só pelo percentual do VCT tem pouco significado isolado: se a dieta é muito hipolipídica, o percentual de proteína sobe mesmo com quantidade absoluta normal. A classificação precisa usa o valor absoluto por peso (g/kg/dia). As DRI (AMDR) trazem faixas mais amplas para adultos: CHO 45–65%, lipídios 20–35%, proteína 10–35%.

Waitzberg · Cuppari / Krause

Proteína em g/kg — a métrica da clínica

Na clínica não se trabalha tanto com percentual — trabalha-se com gramas por quilo de peso (g/kg), principalmente para a proteína.

Normoproteicaem torno de 1 g/kg de peso
Hiperproteicaacima de 1 g/kg (ex.: 1,5 g/kg)
Teto recomendável2 g/kg/dia — não se deve ultrapassar (sobrecarga renal)
Importante para prova

O limite superior de proteína é 2 g/kg/dia. Acima disso, há risco de sobrecarga renal.

Por que o excesso de proteína sobrecarrega o rim

Excesso de proteína
Maior produção de amônia
Amônia convertida em ureia
O rim precisa filtrar e eliminar os produtos tóxicos
Trabalho renal intenso → possível sequela renal

Por isso, ao prescrever dieta hiperproteica, é prudente investigar a função renal: avaliar ureia e creatinina (marcadores renais), considerar histórico clínico/familiar e manter acompanhamento contínuo.

Ponto de atenção

O teto de 2 g/kg/dia não é absoluto: em hipercatabolismo intenso (grandes queimados) e obesos críticos (IMC > 40), diretrizes recomendam até 2,5 g/kg/dia (peso ideal). E a creatinina sérica isolada pode estar falsamente normal em sarcopênicos/idosos — prefira estimar a TFG (MDRD ou CKD-EPI).

Waitzberg · Cuppari
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II

O paciente renal

Insuficiência Renal — Panorama

A função do rim é eliminar produtos tóxicos do organismo. Quando os rins se danificam, há acúmulo dessas substâncias, levando à descompensação geral do paciente.

É um lençol curto. Você cobre os pés, sobra a cabeça; cobre a cabeça, sobram os pés.

O paciente renal não tem problema só com os rins: ao tratar uma alteração, surge outra — o trabalho é buscar equilíbrio entre todas as necessidades.

Desordens clínicas e metabólicas

Anemiadeficiência de eritropoietina — hormônio que estimula a produção de hemácias
Hipertensãofrequente
Risco cardiovascularhipertrofia / alta incidência de doença cardiovascular
Osteodistrofia renalalteração óssea ligada ao metabolismo hormonal/mineral
SNCcomprometimento do sistema nervoso central
Retenção de líquidoscomum
Ponto de atenção

O rim não só elimina toxinas: regula volume corporal, osmolalidade, eletrólitos e equilíbrio ácido-básico, além de produzir hormônios/enzimas. Outras desordens omitidas: hipertrigliceridemia, intolerância à glicose, atrofia muscular, sintomas gastrointestinais, depressão e maior suscetibilidade a infecções.

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Estado nutricional e impacto psicossocial

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III

Perda aguda da função

Insuficiência Renal Aguda

Definição e contexto

Paciente que tinha função renal normal, mas por algum motivo a comprometeu de forma aguda. Causas: cirurgia, sepse, trauma, queimadura. Há elevação de ureia e creatinina indicando o comprometimento.

Ponto de atenção

A LRA não acomete só rins previamente normais — pacientes com doença renal crônica são grupo de risco (LRA sobreposta à DRC). Dependendo da etiologia (pré-renal/pós-renal), a função pode retornar ao normal sem sequelas. Diagnóstico atual: creatinina ↑0,3 mg/dL em 48h (ou ↑50% do basal) e/ou débito urinário < 0,5 mL/kg/h. Etiologia clássica: pré-renal, renal/intrínseca e pós-renal.

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Fatores a considerar na terapia

O conflito: esses pacientes geralmente precisam de muita proteína para cicatrização e regeneração — mas desenvolveram insuficiência renal aguda.

Proteína conforme o catabolismo

O grau de catabolismo é estimado pela fórmula do PNA (relacionado ao aparecimento do nitrogênio ureico). A recomendação proteica depende dele:

Leve0,6–1,0g/kg/dia
Moderado0,8–1,2g/kg/dia
Grave1,0–1,5g/kg/dia
Ponto de atenção

Sigla: PNA = "Equivalente Proteico do Aparecimento de Nitrogênio"; o "Aparecimento de Nitrogênio Ureico" propriamente dito é o UNA/ANU (a partir dele calcula-se o PNA). Em críticos hipercatabólicos sob terapia de substituição renal contínua, pode-se chegar a 1,7 g/kg/dia para repor perdas no dialisato.

Cuppari · KDIGO/ESPEN
Estudo de caso — a "pergunta de um milhão"

Grande queimado / politrauma com IRA

Homem, vítima de politraumatismo, emocionalmente comprometido, em sonda nasoenteral, com retenção de líquidos/oligúria, hiperglicemia, que desenvolveu IRA e tem catabolismo elevado.

Manter dieta hipoproteica para não agravar a IRA, ou prescrever hiperproteica num paciente catabólico e queimado?

Conduta — paciente grave/altamente catabólico com IRA

Geralmente se prescreve dieta HIPERPROTEICA e submete-se o paciente à DIÁLISE.

Objetivo: recuperar a condição clínica (cicatrização, regeneração)
Para isso o paciente precisa de mais proteína
A diálise assume a depuração e tolera a alta carga proteica sem agravar a uremia
Conforme melhora, o paciente sai da diálise → conduta transitória
Na teoria a gente vê tudo bonitinho… mas na prática o paciente chega com vários fatores, polifarmácia — às vezes você tem uma conduta, o colega tem outra.
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IV

Perda gradativa da função

Insuficiência Renal Crônica

A função renal vai se perdendo gradativamente. Alguns descobrem cedo; outros, já avançados. A conduta nutricional depende do estágio da doença.

As duas fases de tratamento

A Não dialítica (conservadora)

Paciente que ainda não foi para diálise.

Conduta: dieta HIPOproteica — poupar o rim e frear a progressão do dano.

B Dialítica

Paciente já em diálise.

Conduta: MAIS proteína (1,0–1,2 g/kg/dia) — porque a diálise também consome proteína.

Importante para prova — parece contraintuitivo

IRC não dialítica → HIPOproteica. IRC em diálise → mais proteína (1,0–1,2 g/kg/dia), porque a diálise "puxa" proteína.

Ponto de atenção

Não é toda a fase não dialítica que restringe proteína: nos estágios 1 e 2 a ingestão é normal (0,8–1,0 g/kg/dia); a restrição (0,6–0,75) vale do estágio 3 ao 5. Na diálise: HD 1,1–1,2 e DP 1,2–1,3 g/kg/dia, com ≥50% de proteína de alto valor biológico.

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Classificação proteica de referência

Dieta normal0,8–1,0 g/kg/dia
Hipoproteicaabaixo de 0,8 g/kg/dia
Hipoproteica convencional0,6 g/kg/dia
Muito hipoproteica0,3 g/kg/dia — exige suplementação obrigatória

Suplementação na dieta hipoproteica

O ideal é complementar com aminoácidos essenciais ou cetoácidos (análogos de aminoácidos): obtêm-se os aminoácidos sem sobrecarregar mais o rim.

Porém o custo é elevado — a maioria dos pacientes renais não tem acesso, resultando em dietas restritivas, "muitas vezes sem graça", o que agrava o quadro.
Ponto de atenção

Os cetoácidos são análogos sem o grupo amina (sem nitrogênio): no fígado incorporam o nitrogênio excedente (transaminação) formando aminoácidos essenciais e reduzindo toxinas urêmicas. Dose usual: 1 comprimido para cada 5 kg de peso.

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Restrição proteica conforme a TFG

TFG > 60~0,6 g/kg(creatinina ~2 mg/dL) não restringir severamente; controlar pressão e hiperlipidemia.
TFG 25–600,6–0,8restrição mais severa; diabéticos/progressão → 0,3 g/kg + aminoácidos. Frear a evolução.
Muito avançada≤ 0,3praticamente sem mais o que restringir; pacientes que quase não comem proteína.
Ponto de atenção

Em TFG > 60 (estágios 1–2) o correto é manter ingestão normal (0,8–1,0), salvo sinais de progressão — 0,6 g/kg já é restrição. E em diabéticos a proteína é maior (0,8–1,0, alto valor biológico), não 0,3 g/kg.

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Líquidos e sódio

Pacientes com restrição de líquidos sofrem com a sede e não podem beber água livremente. Recurso prático: chupar gelo para lubrificar a boca e aliviar a sede.

Diálise — monitoramento e modalidades

1 Hemodiálise

A modalidade mais comum.

2 Diálise peritoneal

Menos comum; pode ser feita em casa, exige ambiente revestido, limpo e padronizado — não acessível a todos.

Impacto na qualidade de vida

Síntese da conduta renal

O que define a conduta nutricional é (1) o tipo de insuficiência (aguda × crônica) e (2) o grau/estágio de progressão — somados à indicação e modalidade de diálise.

Ponto de atenção

A sessão de hemodiálise dura, em geral, ~4 horas, 3×/semana (não "o dia todo"). A diferença de peso pré/pós avalia o ganho de peso interdialítico (GPID), que não deve passar de 4–4,5% do peso seco.

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V

O órgão central do metabolismo

Insuficiência Hepática

O fígado é o órgão central do metabolismo. Seu comprometimento gera desordem metabólica geral: metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídios prejudicado, vitaminas lipossolúveis afetadas, e funções-chave (formação da bile, conversão da amônia) comprometidas.

Proteína metabolizada → amônia
O fígado converte a amônia (em ureia)
Produto eliminado pelos rins
Fígado não trabalha bem → acúmulo de amônia → toxicidade
Ponto de atenção

O fígado também armazena B12, zinco, ferro e cobre; na doença alcoólica há deficiência marcante também de vitaminas hidrossolúveis (C, folato, complexo B). Quando o fígado falha, o músculo esquelético vira rota alternativa de depuração da amônia.

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Causas e fatores de risco

1 Hepatite viral

Causa frequente.

2 Alcoolismo / cirrose

O álcool é muito lesivo ao fígado.

Outros fatores: idade, virulência, tempo de exposição ao tóxico e sensibilidade individual (predisposição genética). A cirrose é fortemente associada ao álcool, mas há componente genético — nem todos associam corretamente.

Geralmente o indivíduo que bebe não come — "se eu almoçar, eu paro de beber" — o que afeta ainda mais o estado nutricional.
Ponto de atenção

A desnutrição proteico-calórica não é "compensada em 20%": o dado é de prevalência — acomete ~20% na fase compensada e 40–65% na descompensada. O álcool também causa desnutrição por "calorias vazias", perda energética na detoxificação e má absorção.

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Encefalopatia hepática

Há alteração da permeabilidade da barreira hematoencefálica. Na cirrose avançada surgem episódios de confusão mental / agitação — reflexo do comprometimento hepático no SNC.

Graus — relação albumina × bilirrubina

~ Moderado / regular

Albumina 3,0–3,5 g/dL · Bilirrubina 2–3 mg/dL — controlável.

! Grave

Albumina < 3,0 g/dL · Bilirrubina > 3,0 mg/dL.

Lógica: quanto menor a albumina e maior a bilirrubina, pior o estado neurológico.

Fatores que potencializam

Ponto de atenção

Os valores acima correspondem à Classificação de Child-Pugh: albumina 3,0–3,5 e bilirrubina 2–3 = Classe B (comprometimento "mínimo"); albumina < 3,0 e bilirrubina > 3,0 = Classe C (grave). A ingestão proteica excessiva (proteína animal) também precipita encefalopatia.

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Avaliação nutricional do hepatopata

Cuidado especial pela ascite:

Objetivos da terapia nutricional

Adequações práticas de aceitação: evitar temperaturas extremas, ajustar consistência e usar fracionamento das refeições.

Recomendações nutricionais

Energiaaté ~40 kcal/kg/dia
Proteínaem geral normo a hiperproteica (depende do estado do paciente)
Lipídio< 25% do VCT (normal seria 25–30%)
Carboidratoajustado
Ponto de atenção

Restringir lipídios para < 25% não é padrão: a faixa recomendada é 20–33% do VCT; restrição severa/TCM só com má absorção, colestase ou esteatorreia. Dietas hipoproteicas rotineiras estão proscritas (agravam sarcopenia); restrição severa (0,5 g/kg) só por curtos períodos em encefalopatia graus III–IV. Com ascite, calcular pelo peso seco (a ascite eleva o GER ~10%).

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Controvérsias: quantidade e qualidade da proteína

Via de alimentação

Importante para prova — enteral × parenteral

Critério básico: o trato gastrointestinal está funcionando?

Ingestão < 2/3 das necessidades + TGI funcionante → nutrição enteral.

TGI não funcionante → nutrição parenteral (vai direto à corrente sanguínea, não usa o TGI).

Qualidade da proteína — o aminograma

No hepatopata o aminograma está alterado:

↑ Aromáticos

Tirosina, fenilalanina, triptofano — ligados aos falsos neurotransmissores no cérebro.

↓ Cadeia ramificada (BCAA)

Diminuídos — alvo da terapia.

Objetivo: aumentar os BCAA para reduzir os aromáticos no cérebro → menos falsos neurotransmissores. A proteína de soja é rica em BCAA e bem indicada. Para manter o pool global de proteína, complementa-se com aminoácidos de cadeia ramificada.

Ponto de atenção

A suplementação de BCAA não é rotina para todo hepatopata — é indicada na intolerância proteica grave e na encefalopatia avançada (graus III–IV). Na encefalopatia inicial basta priorizar proteínas vegetais e lácteas (já ricas em BCAA e fibras que inibem bactérias amoniogênicas). O aminograma também mostra ↑ de sulfurados (metionina).

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Existem dietas específicas para insuficiência hepática, já com aminograma corrigido (BCAA) e lipídios/carboidratos adequados → reduzem falsos neurotransmissores e melhoram a resposta clínica.

Líquidos, sódio e a glutamina

Importante para prova — glutamina

A glutamina é um aminoácido condicionalmente essencial (melhora a imunidade, nutre enterócitos), mas NÃO pode ser prescrita ao paciente com insuficiência hepática e amônia elevada: ao se decompor, libera amônia e agravaria a encefalopatia.

Ponto de atenção

Restrição hídrica orientada: 1–1,5 L/dia (ou 500–750 mL + diurese). Sódio restrito a ~2.000 mg/dia (2 g). Além de virar amônia, o excesso de glutamina é osmoticamente ativo nos astrócitos, gerando edema cerebral.

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VI

Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica

DPOC

Definição e contexto

Geralmente ocasionada por bronquite ou enfisema, muito comum em idades avançadas. É considerada o 5º problema de saúde global.

Por isso uma gripe no idoso acende o sinal de alerta — pode progredir facilmente para doença pulmonar.
Importante para prova

O paciente pulmonar desnutre muito rápido, caracterizando desnutrição energética do tipo MARASMO (desnutrição marasmática) — rápida e agressiva, com alteração da composição corporal.

Lembrete — desnutrição primária

M Marasmo

Desnutrição energética — "só pele e osso".

K Kwashiorkor

Desnutrição proteica (com edema).

Por que a perda de peso é tão acelerada

DPOC causa lesão pulmonar e altera a função
O pulmão trabalha com muito esforço
Aumento do gasto energético + perda de massa magra/músculos respiratórios + menor atividade
Perda de peso excessiva
O paciente precisa de mais energia, mas não consegue se alimentar.

Dados epidemiológicos citados em aula

Desnutrição30–50%dos pacientes (relatos de até 60%)
Peso < 90% ideal63%dos pacientes com DPOC
Perda > 10%47%apresentam perda de peso significativa
Ponto de atenção

O hipermetabolismo é multifatorial (inflamação sistêmica, citocinas, estresse oxidativo, hipóxia, corticoides/β2-agonistas), não só esforço respiratório. A baixa ingestão vem de anorexia, saciedade precoce, dispneia ao mastigar e compressão gástrica pela hiperinsuflação. O "74%" original é a proporção que precisou de suporte ventilatório — não a taxa de desnutrição.

Material UERN · Cuppari

Causas da desnutrição

Objetivos da terapia nutricional

Ponto de atenção

Objetivo crucial omitido: prevenir produção excessiva de CO₂. Excesso de energia (sobretudo carboidrato) induz lipogênese (QR > 1,0), que produz muito CO₂, agrava a acidose respiratória e inviabiliza o desmame.

Waitzberg · Cuppari

Avaliação nutricional

Leve20–30kcal/kg/dia
Moderado~40kcal/kg/dia
Crítico40–50kcal/kg/dia

Vias de acesso

Oral
Enteral
Parenteral

Quociente Respiratório (QR) — a chave da dieta

Cada macronutriente metabolizado produz CO₂ e consome O₂. A razão CO₂/O₂ é o QR:

~1,0Carboidrato
~0,8Proteína
~0,7Lipídio

Raciocínio: carboidrato gera mais CO₂ que o lipídio.

Recomendações de macronutrientes

Proteína1–1,5 g/kg/dia (máx. 2) · ~20% do VCT = hiperproteica. Acima de 2 g/kg aumenta o esforço respiratório.
CarboidratoReduzido — aumenta CO₂ e o excesso vira lipogênese, retardando o desmame.
LipídioAumentado (fonte principal de energia) — menor QR (0,7) → menos CO₂.
Importante para prova

A dieta da DPOC (sobretudo no retentor de CO₂) é hiperlipídica e hipoglicídica (reduzida em carboidrato), com proteína controlada (não ultrapassar 2 g/kg para não aumentar o esforço respiratório).

Ponto de atenção

A literatura atual adverte contra dietas hiperlipídicas/hipoglicídicas sistemáticas: muita gordura retarda o esvaziamento gástrico e comprime o diafragma. O foco primário é não exceder as necessidades energéticas totais (a superalimentação é a real causa do excesso de CO₂), com dieta normoglicídica.

Waitzberg · Cuppari

Tipos de lipídio — TCM, TCL e Ômega-3

O ômega-3 é anti-inflamatório → ajuda o paciente, que está bastante inflamado.
Ponto de atenção

TCM não precisa de sais biliares nem carnitina (absorção/oxidação rápidas), mas em excesso gera corpos cetônicos e CO₂ (acidose, diarreia). O ômega-3 (EPA/DHA) compete com o ácido araquidônico nas vias COX/LOX, reduzindo eicosanoides pró-inflamatórios.

Waitzberg · Krause
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VII

Direto na prova

DIJC — Cenários Clínicos

Cenários prováveis de prova: leia a situação e fixe a conduta correta.

Cenário 1 · IRA

Grande queimado / politrauma, altamente catabólico, que desenvolveu IRA. Precisa de proteína para cicatrizar, mas tem o rim comprometido.

Conduta

Dieta HIPERPROTEICA + DIÁLISE: a diálise depura, permitindo a alta carga proteica. Conduta transitória — sai da diálise ao melhorar.

Cenário 2 · IRC conservadora

Paciente com IRC avançada (estágio 3–5), ainda não dialítica, com TFG em queda.

Conduta

Dieta HIPOproteica (0,6 g/kg ou menos) para frear a progressão; nas restrições severas (0,3 g/kg) suplementar aminoácidos essenciais / cetoácidos.

Cenário 3 · IRC em diálise

Paciente em hemodiálise 3×/semana.

Conduta

Mais proteína (1,0–1,2 g/kg/dia), pois a diálise consome proteína. Monitorar fósforo e potássio e o ganho de peso interdialítico.

Cenário 4 · Hepatopata + amônia ↑

Cirrótico com encefalopatia e amônia elevada. Equipe cogita glutamina pela ação imunológica.

Conduta

NÃO usar glutamina (libera amônia). Corrigir o aminograma: ↑ BCAA / ↓ aromáticos, priorizar proteína de soja, vegetal e láctea.

Cenário 5 · Hepatopata com ascite

Avaliar o estado nutricional de paciente com grande retenção de líquido abdominal.

Conduta

Não usar peso bruto nem bioimpedância. Usar pregas, exames e histórico; calcular pelo peso seco. Restrição hídrica e dieta hipossódica.

Cenário 6 · DPOC retentor de CO₂

Paciente com DPOC que retém CO₂, com dificuldade de desmame ventilatório.

Conduta

Reduzir carboidrato e aumentar lipídio (menor QR); não exceder 2 g/kg de proteína; combinar TCM + TCL e ofertar ômega-3. Acima de tudo, não superalimentar.

Cenário 7 · Escolha da via

Paciente ingere < 2/3 das necessidades. Como decidir entre enteral e parenteral?

Conduta

Pergunte: o TGI está funcionando? Funcionante → enteral. Não funcionante → parenteral.

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VIII

Revisão final

Pontos-Chave para Prova

  1. Dieta normal: proteína 10–15% do VCT, carboidrato 55–60%, lipídio 25–30%.
  2. Na clínica a proteína é calculada em g/kg; normoproteica ≈ 1 g/kg, máximo 2 g/kg/dia.
  3. Não ultrapassar 2 g/kg → risco de sobrecarga renal (excesso → amônia → ureia → trabalho renal intenso).
  4. Marcadores da função renal: ureia e creatinina.
  5. A anemia do renal decorre da deficiência de eritropoietina; outras: hipertensão, DCV, osteodistrofia, SNC, retenção de líquidos.
  6. IRA = perda aguda da função (cirurgia, sepse, trauma, queimadura), com ureia/creatinina elevadas.
  7. Proteína na IRA por catabolismo: leve 0,6–1,0; moderado 0,8–1,2; grave 1,0–1,5 g/kg/dia.
  8. Grande queimado/catabólico com IRA → HIPERPROTEICA + DIÁLISE (a diálise compensa a depuração).
  9. IRC não dialítica → HIPOproteica; IRC em diálise → mais proteína (1,0–1,2), pois a diálise consome proteína.
  10. Hipoproteica = < 0,8 g/kg; convencional 0,6; muito restrita 0,3 (exige aminoácidos essenciais/cetoácidos).
  11. A TFG guia a restrição: > 60 → leve; 25–60 → mais severa; muito avançada → máxima.
  12. O fígado é o órgão central do metabolismo; converte amônia (depois eliminada pelos rins) — falha → acúmulo de amônia.
  13. Causas de insuficiência hepática: hepatite viral e alcoolismo/cirrose.
  14. Encefalopatia: quanto menor a albumina e maior a bilirrubina, pior; potencializada por amônia, sangramento, eletrólitos, infecção, constipação.
  15. Hepatopata com ascite: não usar peso bruto nem bioimpedância; usar pregas, exames e histórico.
  16. Enteral × parenteral: o TGI funciona? Sim → enteral; não → parenteral.
  17. Corrigir o aminograma: ↑ BCAA / ↓ aromáticos → proteína de soja é bem indicada.
  18. Glutamina é CONTRAINDICADA na insuficiência hepática com amônia elevada (libera amônia).
  19. DPOC causa desnutrição marasmática rápida (↑ gasto energético + baixa ingestão).
  20. QR: carboidrato ~1,0, proteína ~0,8, lipídio ~0,7.
  21. Dieta da DPOC (retentor de CO₂) = hiperlipídica e reduzida em carboidrato (carboidrato gera mais CO₂).
  22. Proteína na DPOC: 1–1,5 g/kg (~20% do VCT); acima de 2 g/kg aumenta o esforço respiratório.
  23. Em lipídios, combinar TCM + TCL; ômega-3 é anti-inflamatório.
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IX

Vocabulário da aula

Glossário

Dietoterapia
Adequação da alimentação à condição clínica do paciente.
VCT
Valor Calórico Total (valor energético total da dieta).
g/kg
Gramas de nutriente por quilo de peso corporal.
PNA
Equivalente proteico do aparecimento de nitrogênio — estima o catabolismo proteico.
IRA / IRC
Insuficiência Renal Aguda / Crônica.
TFG
Taxa de Filtração Glomerular (ml/min).
Uremia
Acúmulo de ureia e toxinas por falência renal.
Eritropoietina
Hormônio renal que estimula a produção de hemácias; sua falta causa anemia.
Osteodistrofia renal
Doença óssea associada à IRC.
Cetoácidos
Análogos de aminoácidos (sem nitrogênio) usados em dietas muito hipoproteicas.
Encefalopatia hepática
Disfunção cerebral por toxinas (amônia) não depuradas pelo fígado.
Ascite
Acúmulo de líquido na cavidade abdominal.
Aminograma
Perfil dos aminoácidos plasmáticos.
BCAA
Aminoácidos de cadeia ramificada (leucina, isoleucina, valina).
Aminoácidos aromáticos
Tirosina, fenilalanina, triptofano — ligados aos falsos neurotransmissores.
Glutamina
Aminoácido condicionalmente essencial; libera amônia ao se decompor.
Nutrição enteral
Alimentação que usa o TGI (ex.: sonda, fórmulas orais).
Nutrição parenteral
Alimentação por via venosa, sem uso do TGI.
DPOC
Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica.
Marasmo
Desnutrição energética grave ("desnutrição crônica").
Kwashiorkor
Desnutrição proteica com edema.
QR
Quociente Respiratório (CO₂ produzido / O₂ consumido).
TCM / TCL
Triglicerídeos de cadeia média / longa.
Harris-Benedict
Fórmula para estimar o gasto energético basal.
↑