Parasitologia Médica · 2026.1

Os mosquitos e a guerra dos vetores

Importância médica, arboviroses e controle de vetores — a aula mais importante (e mais cansativa) da unidade de insetos.
Mais importante da unidade Arboviroses Aedes · Culex · Anopheles Controle integrado
01

Por que estudar os mosquitos

É o grupo de insetos de maior relevância em saúde pública entre todos os artrópodes. Embora existam milhares de espécies, só pouquíssimas causam prejuízo ao ser humano — mas o impacto dessas poucas é enorme.

85%
dos animais são artrópodes
800k–1mi
mortes/ano por mosquitos
≈17%
das doenças infecciosas são vetoriais
⚠️ Importante para prova

Estima-se 800 mil a 1 milhão de mortes por ano ocasionadas por mosquitos.

As duas importâncias médicas do mosquito

A picada em si
Natureza
Reação local; isoladamente não seria grande problema
Gravidade
Baixa (exceto complicações)
Transmissão de doenças
Natureza
Ocorre durante a picada; é o real perigo
Gravidade
Alta
⚑ Aprofundamento

A picada não é tão "inofensiva": a hematofagia frequente e massiva causa espoliação sanguínea e pode agravar quadros de anemia severa, sobretudo em crianças malnutridas de áreas endêmicas.

02

Doenças transmitidas & arboviroses

As doenças transmitidas por mosquitos têm três tipos de agentes etiológicos.

Helmintos
Exemplo
Wuchereria bancrofti — agente da elefantíase (filariose)
Protozoários
Exemplo
Malária (Plasmodium)
Vírus
Foco
As arboviroses — foco principal da aula
◆ Conceito-chave

Arbovirose = doença viral transmitida por artrópodes. Outros artrópodes também transmitem, mas os mosquitos são os grandes transmissores das arboviroses.

03

A picada do mosquito

A reação é causada principalmente pela saliva do inseto — sobretudo uma reação de hipersensibilidade.

De que depende a intensidade

"De uma forma geral, a gente vai ficando tolerante a essas picadas."

⚠️ Importante para prova

Pela tolerância adquirida, as picadas formam quadro mais importante nas crianças. O quadro de hiper-reatividade à saliva na infância é o prurigo estrófulo (pápulas e lesões vesiculares disseminadas).

Aparelho bucal — uma verdadeira agulha

corta a pele→introduz o tubo→injeta saliva ↔ aspira sangue
⚑ Pegadinha anatômica

O lábio inferior NÃO perfura a pele: ele dobra-se para trás na superfície, servindo apenas de guia para o fascículo interno atingir o capilar.

Solenófagos × Telmófagos

Solenófagos
Aparelho
Longo
Alimentação
Direto no vaso sanguíneo
Picada
Discreta, quase imperceptível
Transmissão
Alta — saliva/vírus direto na corrente
Telmófagos
Aparelho
Mais curto
Alimentação
Rompe a parede; bebe da "poça" extravasada
Picada
Lesão maior e mais vermelha
Transmissão
Citada como "menor"
⚑ Pegadinha conceitual

Dizer que telmófago é "ineficiente" é equívoco: a telmofagia é essencial para certos patógenos (a Leishmania precisa que o flebótomo rompa a derme para ingerir macrófagos infectados). E os mosquitos verdadeiros são solenófagos — telmofagia é de flebótomos, simulídeos, mutucas e carrapatos, não de Culicidae.

◆ Observação prática

Não vale tentar identificar o mosquito pelo tipo de picada — a reação é da saliva e é individual.

04

Classificação dos mosquitos

A linha de corte é o ciclo solenófago — a família dos "mosquitos verdadeiros" (Culicidae), os mais eficientes na transmissão, injetando direto na corrente sanguínea → picada geralmente imperceptível.

Principais gêneros de importância médica

Aedes
Doenças
Dengue, chikungunya, zika; potencial p/ febre amarela
Nota
Inseto mais importante em saúde pública
Culex
Doenças
Filariose (Wuchereria), West Nile, Oropouche urbano
Nome popular
"Muriçoca" / "pernilongo"
Haemagogus & Sabethes
Doença
Febre amarela silvestre
Ambiente
Insetos silvestres
Anopheles
Doença
Malária (e filariose linfática)
Nota
Vetor exclusivo dos Plasmodium humanos
⚠️ Aedes — destaque máximo

Possui duas espécies mais importantes, nenhuma nativa do Brasil (exóticas). Já houve plano de erradicação; hoje o MS considera impossível erradicá-lo. As duas transmitem dengue, chikungunya e zika, com possibilidade de febre amarela.

⚑ Pegadinha histórica

A campanha vitoriosa de erradicação do Aedes aegypti ocorreu nas décadas de 1940–50. A década de 1980 foi o oposto: reintrodução e dispersão descontrolada, que culminou nas grandes epidemias de dengue a partir de 1986.

⚑ Atenção taxonômica

Borrachudos (Simuliidae) e maruins (Ceratopogonidae) NÃO pertencem à família dos mosquitos verdadeiros — são famílias distintas de Diptera. E não são "pouco eficientes": em áreas endêmicas são vetores primários de oncocercose, mansonelose e Oropouche.

05

Urbanização dos insetos

Primeira pergunta ao estudar um mosquito: onde ele é encontrado?

Silvestre / natureza
Diversidade
Alta — muitas espécies
Risco
Espécies variadas, mas picada esporádica
Urbano
Diversidade
Baixa
Risco
O mesmo inseto pica todos os dias
⚠️ Raciocínio central

Ser picado uma vez não significa adquirir doença — o inseto precisa estar infectado. Mas, se ele pica todo dia, todo dia, todo dia, uma hora estará infectado.

O inseto urbanizado é mais perigoso porque vive com a gente, alimenta-se da gente e pica diariamente. O motor disso é a antropofilia: a fêmea faz repastos sucessivos em humanos diferentes, adquirindo o patógeno de um infectado e transmitindo a um suscetível.

⚠️ Importante para prova

Atualmente são quatro mosquitos urbanizados. As doenças de transmissão vetorial são ≈17% das doenças infecciosas globais (todos os vetores, não só esses mosquitos). "Morar na cidade já me deixa exposto à picada."

06

Aedes: aegypti & albopictus

Origem e histórico

Aedes aegypti
Origem
África
Chegada
Tráfico de escravizados (desde a colonização)
Aedes albopictus
Origem
Sudeste asiático / Ásia
Chegada
Década de 1980

Histórico do aegypti: começou com febre amarela urbana (último caso no Brasil na década de 1940, controlada por vacina e combate ao vetor) → dengue (epidemias nos anos 1980) → hoje dengue, zika, chikungunya — literatura fala em mais de 30 doenças potenciais. Lógica: "vai controlar uma e vai aparecer outra."

Bioecologia do Aedes aegypti

⚠️ Por que ele venceu a cidade

Antropofílico — trocou primatas por seres humanos.
Endofílico — pica dentro de casa (mas também no peridomicílio).
Não gosta de sol — prefere sombra.
Água limpa e parada — na natureza, ocos de árvore; na cidade, tonéis, caixas d'água e recipientes.

⚑ Pegadinha biogeográfica

As bromélias não são o criadouro silvestre original do aegypti: são plantas das Américas, e o mosquito é africano. Na origem (África) ele usava buracos em troncos de árvores.

Aedes albopictus — o grande perigo

⚠️ Importante para prova

O albopictus faz a ponte entre o ambiente silvestre e o urbano: alimenta-se de um macaco numa área de preservação e entra na cidade para picar uma pessoa. Por isso assustou tanto. O aegypti é urbano; o albopictus circula entre os dois ambientes.

◆ Distribuição local (RN)

Mossoró: predomina só o aegypti. Natal: mais perto de área de preservação, mais albopictus; afastando-se (Zona Nova), predomina o aegypti.

◆ Culex (muriçoca)

Altamente adaptado: vive em água limpa e água suja/esgoto (preferência estrita por água poluída por matéria orgânica). Na cidade, o mais importante é o Culex quinquefasciatus.

07

Ciclo biológico do Aedes

Insetos que, quando jovens, vivem na água — larvas e pupas nadam ativamente e sobem à superfície apenas para respirar.

1
O ovo
Posto acima da linha d'água. Escurece com o oxigênio. Resiste >400 dias e a altas temperaturas. Em contato com a água, eclode em ~10 minutos.
2
Larvas (L1 → L4)
Quatro estágios; libera a cutícula a cada muda. Não gostam de luz (vão ao fundo). Sobem pelo sifão para respirar e descem para comer restos/bactérias.
3
A pupa
Respira por estruturas em "trombeta". Mais visível e móvel; não se alimenta.
4
O adulto
Após endurecer, parte para a primeira refeição.

Oviposição

⚠️ Por que sobe no período chuvoso

A resistência do ovo (>400 dias) é estratégia "presente e futuro": alguns eclodem logo, outros aguardam a próxima chuva. Quando chove, sobe a quantidade de insetos — são ovos postos meses antes. Essa resistência também permite o transporte passivo a longas distâncias (ex.: comércio de pneus usados).

O adulto: alimentação e transmissão

⚠️ Importante para prova

Só as fêmeas sugam sangue (necessário para a postura). Machos e fêmeas alimentam-se de néctar/açúcar (energia). Picada indolor, diurna e silenciosa, de preferência nos membros inferiores.

⚑ Duas pegadinhas de transcrição

A fêmea é diurna (não "de urna"). E o mosquito faz barulho (zumbido das asas) — som com função reprodutiva: o macho localiza a fêmea por ele.

~3dias
entre refeições de sangue
~10×
refeições em ~30 dias de vida
~30
pessoas potencialmente picadas

Como interrompe a refeição a qualquer movimento, cada alimentação pode envolver de 1 a várias pessoas (professora adota 3). Antropofílico + endofílico + certeiro + glândula salivar potente → um dos vetores mais eficientes (pode transmitir mais de um agente).

Período de incubação extrínseca

⚑ Pegadinha de prazos

O período de incubação extrínseca do vírus da dengue no Aedes dura, em média, 8 a 12 dias (não 5–7). O prazo de 5–7 dias corresponde à metaciclogênese da Leishmania no flebótomo.

Ciclo gonotrófico & identificação

⚑ Nomenclatura correta

O termo certo é ciclo gonotrófico (não "gonadotrófico"): repasto → maturação dos ovários → oviposição. Após a 1ª postura, entra em concordância gonotrófica (nova postura a cada repasto). Uma única cópula serve para vários ciclos.

◆ Identificação do adulto

Corpo escuro (marrom/preto) com faixas brancas; antenas plumosas = macho. No tórax: a "lira" prateada = aegypti; a faixa estreita longitudinal = albopictus ("tigre asiático"). Alerta: ele frequentemente já transmitiu antes de ser observado.

08

Mudanças climáticas

Mosquitos são invertebrados altamente influenciados pelo ambiente (chuva, temperatura).

"Quanto maior a temperatura, mais o inseto acelera seu desenvolvimento."

⚑ Pegadinha de ciclo

O congelamento mata as formas jovens aquáticas (mosquitos como o Anopheles). Já o flebótomo é terrestre — seu ciclo imaturo se dá em solo úmido e sombreado, não na água.

09

Determinantes sociais & hotspots

⚠️ A distribuição nunca foi homogênea

Depende das condições de vida: água que não chega todo dia → armazenamento (criadouros); aglomeração → mais alimento e picadas; coleta de lixo e abastecimento precários. Quanto mais precárias, maior a transmissão.

Doenças como zika, chikungunya (e arbovírus emergentes) chegaram de fora (mundo globalizado). Pontos quentes (hotspots) = alta diversidade de mosquitos + degradação ambiental intensa.

Sudeste Asiático
Papel
Concentra grande parte da diversidade de mosquitos
Amazônia
Papel
Área de maior risco hoje: enorme diversidade + degradação sem precedentes
⚠️ Mecanismo da degradação

Ao degradar uma área preservada, o mosquito tem duas opções: migrar ou se adaptar a uma nova fonte de alimento (incluindo o ser humano). Daí a emergência de vírus: Oropouche, Mayaro, Tucunduba, Guaroa.

◆ Conceito-chave

"Quem já tem os mosquitos, tem o cenário. Basta o vírus chegar que ele se espalha." (Na prática, o espalhamento ainda exige alta capacidade vetorial: densidade, antropofilia, competência e longevidade.)

10

Estudo de caso: Oropouche

834
notificações · 2023
~13mil
notificações · 2024
~11mil
notificações · 2025

Uma doença que "passou de 800 para 13 mil notificações em um ano" — "no mínimo assustador".

Dificuldade de notificação (como a dengue): confirmação depende de anticorpos (fase tardia); na fase aguda faz-se notificação clínica e o paciente precisa repetir exame. As arboviroses são muito parecidas, dificultando o diferencial.

História natural & mudança de vetor

1
Natureza
Ciclo silvestre — reservatório como o bicho-preguiça.
2
Degradação
O ser humano entra no ciclo.
3
Urbanização (Norte)
Vetor primário = Culicoides (maruim / "mosquito-pólvora").
4
Suspeita urbana
Alguns casos pela muriçoca (Culex).
⚠️ Por que isso assusta

Se a muriçoca transmitir Oropouche, "pode se preparar, porque vai ficar grave" — ela está em todo o país, inclusive no urbano. (A literatura já incrimina o Culex quinquefasciatus como vetor comprovado do Oropouche no Pará.)

Culicoides — o vetor primário

Culicoides (maruim)
Ambiente
Não urbano; plantações (cacau, bananeira) e mangues
Picada
Dolorosa (saliva muito alergênica)
Tamanho
~1/3 da muriçoca; corpo robusto, pernas finas
Asas
Com manchas/desenho característico
Hematofagia
Só as fêmeas sugam sangue
11

As "oito doenças" do Aedes

A professora reforça: o Aedes é o mais importante de todos (com o aegypti como vetor urbano absoluto).

Os 4 sorotipos da dengue

⚠️ Importante para prova

A dengue tem 4 sorotipos (DENV-1 a 4). Enquanto existirem sorotipos não imunizados, sempre haverá suscetíveis. Antes doença de adultos, hoje atinge muito os jovens; pelo enorme número de casos, os óbitos também sobem.

⚠️ Comportamento em ciclos

A dengue tem ciclos com picos e quedas. A queda é esperada e normal (população vai imunizando após o surto) — não deve ser comemorada como sucesso de controle.

~1,6mi
casos de dengue · 2015
~6mi
casos de dengue · 2024
DENV1-4
sorotipos circulantes
⚑ Pegadinha de contagem

Os 4 sorotipos NÃO são 4 doenças: a dengue é uma única doença com 4 variantes antigênicas. A "conta" das oito é didática (4 sorotipos + zika + chikungunya + Mayaro + febre amarela).

As doenças potenciais

Dengue (4 sorotipos)
Situação
Fora de controle; 4 sorotipos dificultam a imunização
Zika
Nota
Veio de fora; associada a quadros graves (motivo de notificar gestantes)
Chikungunya
Nota
Muito parecida nas fichas de notificação
Mayaro
Nota
Silvestre do Norte, já em cidades; pode ser transmitida pelo Aedes
Febre amarela
Nota
Risco de retorno da forma urbana — ver abaixo
⚑ Já é "conhecido", não desconhecido

A transmissão transovariana (vertical) das arboviroses já está documentada no Brasil (ex.: dengue em Belo Horizonte) — não é um fenômeno "desconhecido".

Febre amarela: urbana × silvestre

FA urbana
Vetor
Aedes aegypti
No Brasil
Sem casos desde 1940
Reservatório
Ser humano
FA silvestre
Vetor
Haemagogus e Sabethes (metálicos)
No Brasil
País com mais casos das Américas
Reservatório
Primatas (sentinelas)
⚠️ O risco do retorno

Se uma pessoa com FA não for identificada rapidamente e for picada por Aedes na cidade, a FA urbana pode retornar — e sua letalidade é maior que a da dengue. Medida: vacinação ampliada para o Brasil inteiro + monitoramento de primatas mortos.

⚑ Saúde única

Não manipular animais mortos/silvestres ("ficar pegando bicho morto é um perigo"). Os vetores silvestres têm acrodendrofilia (vivem na copa, com os macacos); o homem se infecta ao adentrar a mata e derrubar árvores.

12

IIP & monitoramento

O Índice de Infestação Predial (IIP): a cada 100 imóveis visitados, quantos têm o Aedes.

<1
meta ideal do índice
>3,9
alerta de risco de epidemia
8–17
índices reais de bairros citados
⚑ Crítica importante

Os índices reais são frequentemente mascarados e a propaganda usa as quedas naturais (seca) para alegar sucesso.

⚠️ Desvantagem do IIP

Feito só 4×/ano → "não serve para quase nada", pois as notificações chegam semanalmente. Alternativa superior: monitoramento semanal de ovos (ovitrampas), comparando bairro a bairro. Natal já faz; outras cidades, não.

13

Estratégias de controle

⚠️ Princípio geral

Não existe ferramenta isolada capaz de controlar esses insetos. A solução é o controle integrado — juntar várias medidas para reduzir danos.

① Estágio jovem (criadouros / saneamento)

⚑ Pegadinha do Anopheles

"Limpar quintais" serve para o Aedes (pequenos criadouros artificiais). É ineficaz para o Anopheles, que ovipõe em grandes coleções de água limpa (lagos, represas, remansos).

② Evitar as picadas

Repelente (com limitações). A literatura prioriza barreiras físicas: telas finas e mosquiteiros impregnados com piretroides — cruciais contra vetores noturnos (malária, leishmaniose).

③ Controle biológico

Técnica do macho estéril
Como
Esteriliza machos → prole inviável
Ressalva
Custo altíssimo; dados de empresa privada
Wolbachia ★ melhor atual
Como
Bactéria de insetos, transmissão vertical; reduz longevidade e bloqueia o vírus
Vantagem
Lançamento público → dados abertos à comunidade
Peixes larvófagos
Onde
Reservatórios não destinados ao consumo (chafarizes)
Cuidado
Evitar desequilíbrio (lição do caramujo africano)
Bti (Bacillus thuringiensis israelensis)
Como
Esporo ingerido → toxinas lesam o tubo digestório da larva; seguro p/ humanos
Status
Usado >15 anos; estratégia atual é rotacioná-lo
⚑ Duas ressalvas

A Wolbachia também infecta nematódeos (filárias como Wuchereria e Onchocerca) — não é "só de insetos". E a literatura destaca que não há resistência de campo documentada ao Bti (suas múltiplas toxinas dificultam isso).

④ Controle químico

Larvicida
Onde
Na água
Alvo
Larvas
Adulticida (fumacê)
Onde
Névoa/aerossol (carro do fumacê)
Alvo
Adultos

O fumacê tem efeito imediato e visível (a população gosta), mas o mosquito voa e escapa: precisa cercar o inseto, passando rua a rua, misturado a óleo, de forma coordenada. Aplicação residual em parede: o inseto que pousa morre.

⚑ Ressalva do fumacê

A literatura adverte: após décadas, o fumacê mostrou-se ineficaz para conter a expansão do Aedes, com alto custo tóxico/ambiental — o combate mecânico aos criadouros é superior.

Classificação dos inseticidas

Neurotóxicos
Mecanismo
Sistema nervoso (acetilcolinesterase, canais de sódio)
Uso
Larvas e adultos
Prós/contras
Efeito imediato · risco a outros animais (segurança = dose)
Reguladores de crescimento
Mecanismo
Interferem no desenvolvimento
Uso
Sobretudo larvas
Prós/contras
Mais seguros · sem efeito imediato
⚑ Segurança não é só dose

Os organoclorados (DDT, BHC) são lipossolúveis e não biodegradáveis: têm efeito cumulativo (intoxicação crônica + biomagnificação), o que levou à sua proibição internacional.

⚠️ Estratégia central — rotação

Pegar um Bti, um neurotóxico e um regulador de crescimento e fazer rodízio a cada 3–4 anos. Com produto único, o inseto acaba desenvolvendo resistência.

14

Culex: negligência & dirofilariose

Aedes aegypti
Hospedeiro
Forte antropofilia (humanos)
Água
Limpa (preferência)
Cor
Escuro, com faixas brancas
Culex (muriçoca)
Hospedeiro
Eclético: humanos e animais
Água
Limpa e suja/esgoto
Cor
Homogênea e mais clara (marrom)
⚠️ Por que o Culex é negligenciado

Prolifera em esgoto/água suja → combatê-lo exige saneamento (dever público). Já o Aedes usa criadouros domésticos (~85% dentro das casas) → permite responsabilizar a população. Por isso a propaganda foca no morador.

Agravos associados ao Culex

◆ Vantagem epidemiológica atual (West Nile)

A carga viral no sangue humano é muito baixa → ao picar uma pessoa infectada, o Culex não se infecta. Somos infectados, mas não infectamos o mosquito → sem potencial de grande epidemia (no cenário atual).

Dirofilariose

Dirofilaria (helminto)
No cão
Verme adulto vive no coração
No humano
Não se adapta: morre, vai ao pulmão e forma uma "moedinha"/nódulo (achado incidental)
15

Outros vetores citados

Flebótomo

Vetor da leishmaniose, predominante no Nordeste, deslocando-se com as mudanças climáticas. Sensível à temperatura — invernos menos rigorosos favorecem sua expansão. (Lembrar: seu ciclo imaturo é terrestre, não aquático.)

Borrachudo (Simulium)

Simulium
Doenças
Oncocercose (causa cegueira) e mansonelose — restritas ao Norte
Picada
Dolorosa
Ambiente
Água corrente / perto de rios
No Nordeste
Apenas picada dolorosa; sem perspectiva relevante aqui

"Picada por picada, deixa para lá." (Mas há alerta: o Nordeste tem Simulium incrustatum, vetor competente da oncocercose.)

Mensagem final — a falha está no sistema

⚠️ Conceito de fechamento

Nenhuma medida funciona isoladamente. O controle depende de um sistema integrado que, na prática, não funciona em conjunto: falta d'água → criadouros; saneamento precário → Culex; diagnóstico tardio → o doente infecta mais insetos; fichas incompletas/atrasadas → dados incorretos → resposta ineficaz.

Notificação correta e a tempo→bairro com aumento→ação dirigida→atualiza índice→resposta coordenada + rotação

"É muito bonito, mas na prática não se trabalha em conjunto." → cenário propício a um vírus com potencial letal.

Atividade prática / extensão

Cada aluno monta e acompanha uma armadilha/ovitrampa (instalada na segunda-feira), observando ovo → larva L1–L4 → pupa → adulto. A armadilha precisa permanecer instalada. Haverá atividade de extensão com crianças comparando os vetores (Culex × Aedes).

★

Casos clínicos — DIJC

Cenários com cara de prova. Em cada bloco: Diagnóstico (doença + parasito/vetor), Indícios/identificação, Justificativa parasitológica e Conduta.

Caso 01 · arbovirose urbana
Homem de 28 anos, Natal (Zona Nova), febre alta, mialgia e dor retro-orbitária no período chuvoso. No quintal há caixa d'água destampada e tonéis com água de chuva limpa; vizinhos com quadro semelhante na mesma semana.
D
DiagnósticoDengue (arbovírus DENV-1 a 4), vetor Aedes aegypti.
I
IndíciosCriadouro de água limpa parada, ambiente urbano, picada diurna, casos agrupados na vizinhança — comportamento clássico do aegypti.
J
JustificativaVetor antropofílico, endofílico, solenófago; repasto interrompido permite picar várias pessoas próximas. ~20% dos ovos podem já carregar o vírus (transovariana).
C
CondutaNotificação clínica + sorologia (anticorpos na fase tardia); eliminar criadouros, tampar reservatórios; em surto, fumacê coordenado e monitoramento semanal de ovitrampas.
Caso 02 · zoonose silvestre
Trabalhador rural de 45 anos adentrou mata para desmate. Dias depois: febre, icterícia e prostração. Relata macacos encontrados mortos na região. Não era vacinado para febre amarela.
D
DiagnósticoFebre amarela silvestre, vetores Haemagogus e Sabethes.
I
IndíciosEntrada em mata + primatas mortos (sentinelas) + ausência de vacina. Vetores metálicos, com acrodendrofilia (vivem na copa).
J
JustificativaReservatório são os primatas não humanos; o homem é hospedeiro acidental ao perturbar o ecossistema e forçar os vetores a descer. Letalidade maior que a dengue.
C
CondutaIdentificação rápida (evitar que o Aedes urbano o pique → risco de FA urbana); notificar; vacinação ampliada; vigilância de epizootias. Não manipular animais mortos.
Caso 03 · arbovirose emergente
Mulher retorna de viagem à Amazônia (área de cacau/bananeiras). Febre, cefaleia e mialgia. Refere picadas muito dolorosas de inseto minúsculo no fim da tarde. Sorologia para dengue/zika negativa.
D
DiagnósticoFebre Oropouche (Orthobunyavírus), vetor primário rural Culicoides (maruim).
I
IndíciosPicada dolorosa de díptero diminuto (~1/3 da muriçoca) em plantações; quadro parecido com dengue, mas em contexto silvestre/rural amazônico.
J
JustificativaO Culicoides rompe a derme com saliva alergênica (dor). Ciclo silvestre com reservatório no bicho-preguiça; no urbano, suspeita-se da muriçoca (Culex).
C
CondutaNotificação clínica + confirmação sorológica tardia; vigilância do vetor; alerta para risco de urbanização via Culex em época chuvosa.
Caso 04 · achado incidental
Homem assintomático faz tomografia de tórax de rotina: nódulo pulmonar único em "moeda". Tem cães em casa, um deles com diagnóstico de verme no coração. Mora em área com muita muriçoca.
D
DiagnósticoDirofilariose humana, helminto Dirofilaria, associada ao Culex (muriçoca).
I
IndíciosNódulo "em moeda" + cão com verme no coração + ambiente com muriçoca. Achado incidental, paciente assintomático.
J
JustificativaNo cão o verme adulto vive no coração; no humano não se adapta — morre, é levado ao pulmão e forma o granuloma/nódulo visto na imagem.
C
CondutaDiferenciar de neoplasia (o "em moeda" é benigno aqui); controle do Culex exige saneamento; tratar/prevenir a dirofilariose nos cães.
★

Pontos-chave para a prova

  1. 1 Mosquitos matam mais que qualquer animal (800 mil–1 mi/ano); o perigo real é a transmissão, não a picada.
  2. 2 Três agentes: helmintos, protozoários e vírus (arboviroses) — mosquitos são os grandes transmissores das arboviroses.
  3. 3 Solenófagos (direto no vaso, picada imperceptível) são mais eficientes que telmófagos; mosquitos verdadeiros são solenófagos.
  4. 4 A reação à picada é da saliva (hipersensibilidade) e mais importante em crianças (prurigo estrófulo).
  5. 5 Gêneros: Aedes (dengue/zika/chik/FA), Culex (filariose, West Nile, Oropouche urbano), Anopheles (malária), Haemagogus/Sabethes (FA silvestre).
  6. 6 Quatro mosquitos urbanizados concentram a transmissão; a picada repetida acaba em infecção.
  7. 7 Aedes aegypti: exótico (África), antropofílico, endofílico, sombra, água limpa parada; impossível erradicar (MS).
  8. 8 Aedes albopictus (anos 1980) faz a ponte silvestre↔urbano — seu grande perigo.
  9. 9 Ovo: posto acima da água, resiste >400 dias, eclode em ~10 min → explica o pico chuvoso.
  10. 10 Só a fêmea suga sangue; come a cada ~3 dias (ciclo gonotrófico), pica várias pessoas/refeição, vive ~30 dias.
  11. 11 Larvas e pupas vivem na água, evitam luz e sobem para respirar; larvicidas geralmente são ingeridos.
  12. 12 Identificação: corpo escuro com faixas brancas, antenas plumosas=macho, lira=aegypti, faixa única=albopictus.
  13. 13 Mudanças climáticas aceleram inseto e vírus e expandem áreas de transmissão.
  14. 14 Determinantes sociais (água, aglomeração, saneamento, lixo) modulam a transmissão — nunca homogênea.
  15. 15 Amazônia = hotspot: degradar força o mosquito a migrar ou se adaptar ao homem.
  16. 16 Oropouche: 834 (2023) → ~13 mil (2024); rural=Culicoides, urbano suspeito=Culex.
  17. 17 Dengue tem 4 sorotipos → sempre há suscetíveis; a queda é cíclica, não é controle. 2024 (~6 mi) ≫ 2015 (~1,6 mi).
  18. 18 "Oito doenças" pelo Aedes: dengue (4 sorotipos) + zika + chik + Mayaro + febre amarela (risco de retorno urbano).
  19. 19 FA: urbana (Aedes, sem casos desde 1940) × silvestre (Haemagogus/Sabethes); primatas = sentinelas; vacinação nacional.
  20. 20 IIP: meta <1; >3,9 = alerta. Só 4×/ano → defasado; ovitrampas semanais são superiores.
  21. 21 Controle integrado: criadouros + biológico (macho estéril, Wolbachia ★, Bti, peixes) + químico.
  22. 22 Inseticidas: neurotóxicos (imediato) × reguladores (juvenoides/inibidores de quitina, mais seguros); rotacionar a cada 3–4 anos.
  23. 23 Fumacê: imediato mas limitado; só funciona cercando o inseto, de forma coordenada.
  24. 24 Culex negligenciado: prolifera em esgoto (saneamento=dever público); o Aedes permite culpar o morador.
  25. 25 West Nile: não infectamos o mosquito (baixa carga viral) → sem epidemia atual, mas grave individualmente.
  26. 26 Borrachudo (Simulium): oncocercose/mansonelose só no Norte; no Nordeste, só picada dolorosa.
  27. 27 O elo mais fraco é o sistema: diagnóstico tardio + notificação incompleta + falta de integração — insetos = tema mais importante.
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Glossário

Arbovirose
Doença viral transmitida por artrópodes (sobretudo mosquitos).
Solenófago
Aparelho bucal longo; alimenta-se direto no vaso sanguíneo; mais eficiente na transmissão.
Telmófago
Rompe a parede do vaso e bebe o sangue extravasado; picada mais visível. (Próprio de flebótomos, simulídeos, mutucas e carrapatos — não dos mosquitos.)
Antropofílico
Que prefere se alimentar de seres humanos.
Endofílico
Que pica/permanece dentro das casas.
Diurno
Que pica durante o dia (Aedes: início da manhã e fim da tarde).
Ciclo gonotrófico
Repasto sanguíneo → maturação dos ovários → oviposição, a cada ~3 dias (concordância gonotrófica).
Transmissão transovariana
Passagem do agente da fêmea para os ovos (a prole já nasce infectada).
Reservatório
Hospedeiro/meio que mantém o agente na natureza (primatas na FA; aves no West Nile).
Vetor primário
Principal transmissor de uma doença em dado ambiente.
IIP
Índice de Infestação Predial — % de imóveis com Aedes; calculado ~4×/ano.
Ovitrampa
Armadilha com substrato para captura/monitoramento de ovos.
Bti
Bacillus thuringiensis israelensis — larvicida biológico ingerível, seguro para humanos.
Wolbachia
Bactéria de insetos (e de filárias) que reduz longevidade e bloqueia o vírus no mosquito.
Juvenoide
Inseticida análogo do hormônio juvenil que impede a metamorfose.
Inibidor de quitina
Inseticida que impede a formação do exoesqueleto.
Sorotipo
Variante antigênica de um vírus (a dengue tem 4: DENV-1 a 4).