Painel diagnóstico em pt-BR: morfologia, ciclo, retirada, doenças veiculadas e ácaros que invadem a pele e o ambiente domiciliar. Tempo de contato é a variável central.
Carrapatos lesam o hospedeiro por dois mecanismos principais — e ambos são modulados pelo tempo que o parasito permanece fixado na pele.
Ação tóxica
OrigemToxinas liberadas pela saliva durante o repasto
EfeitoSintomas musculares (paralisia, toxicose)
LimiarMínimo de 4 horas de fixação
Transmissão de patógenos
AgentesPredomínio de bactérias e vírus
ViaInoculação contínua junto à saliva
LimiarHoras de contato (regra geral em ixodídeos)
Importante · prova
Diferente de mosquitos (alguns minutos já transmitem), no carrapato a maioria dos eventos patogênicos exige horas de fixação. Conclusão prática: identificação rápida e retirada precoce são as medidas profiláticas mais importantes.
"Na maior parte das vezes, os efeitos estão associados ao tempo de contato. A toxina não é liberada no imediato — precisa de pelo menos 4 horas."
Mecanismo de regurgitação
O carrapato ingere grandes volumes de sangue mas não consegue estocar tanto líquido. Por isso possui aparelho excretor especializado: filtra o plasma no intestino e devolve o excesso à glândula salivar, reinfundindo no hospedeiro durante a alimentação.
ingere sangue→filtra plasma→devolve à saliva→reinjeta no hospedeiro
Composição da saliva
Anticoagulantes — impedem a coagulação local
Imunomoduladores — suprimem defesas do hospedeiro e favorecem a transmissão
Líquido drenado do intestino — veículo dos patógenos
A exceção: o vírus de 15 minutos
Tempo
~15 minutos de fixação são suficientes
Quadro
Sintomas neurológicos descritos
Via
Inoculação direta pela saliva (não regurgitação)
Geo
Regiões mais ao norte da Europa — ainda não notificado no RN/CE
Pegadinha
"Carrapato precisa de horas" é a regra geral, não uma lei. Existe um vírus descrito recentemente que rompe o padrão — mantenha retirada precoce como dogma.
02
Classificação dos carrapatos
Duas famílias dividem o universo dos carrapatos. A presença ou ausência do escudo e a posição das peças bucais decidem tudo.
Argasidae carrapato de corpo mole
EscudoAusente
Peças bucaisVentrais — só vistas virando o animal
FixaçãoRasga a pele e cai (~10 min)
CimentoNão produz
ImportânciaBaixa para o foco desta aula contexto
Ixodidae carrapato de corpo duro · "verdadeiro"
EscudoPresente
Peças bucaisAnteriores e visíveis por cima
FixaçãoLonga — dias
CimentoProduz — cola as peças bucais à pele
ImportânciaAlta — relevante para humanos foco
Importante · prova
O carrapato de corpo mole não produz cimento e não consegue segurar suas peças bucais — só rasga a pele. Sem fixação prolongada, há pouca janela para transmissão de patógenos.
03
Aparelho bucal · gnatossoma
Terminologia
Probóscide
UsoTermo generalizado de peças bucais sugadoras
Rostro
UsoTermo próprio dos Hemípteros (compara-se a um bico)
Gnatossoma
UsoTermo próprio dos carrapatos
"O rostro está para os hemípteros como o bico está para os pássaros."
Componentes
Base — sustenta as peças
Palpos (dois) — externos, como o polegar humano; auxiliam na orientação, não penetram
Três peças bucais centrais — estas sim entram na pele
Cimento
Estrutura aderente produzida durante a alimentação que isola e cola as peças bucais à pele, impedindo o sangue de extravasar.
Importante · prova
O cimento existe apenas no carrapato de corpo duro. É o que viabiliza dias de repasto — e, portanto, transmissão de patógenos.
Esquema · gnatossoma fixado à pele
04
Como retirar um carrapato
Erros comuns
Apertar a barriga (corpo)
EfeitoComprime o intestino → injeta conteúdo (com patógenos) no hospedeiro
Puxar diretamente
EfeitoArranca o corpo, deixa as peças bucais presas → infecção secundária + saliva imunomoduladora segue ativa
Técnica correta
1Usar pinça de pontas finas.
2Posicionar na base do gnatossoma, o mais próximo possível da pele.
3Aplicar movimento de rotação suave para descolar o cimento.
4Não apertar o corpo em nenhum momento.
Mito popular
Método do copo com álcool para "matar pelo vapor"? Sem evidência. Pode até matar o carrapato — não desgruda. Pinça e rotação seguem como o padrão.
05
Dimorfismo sexual em Ixodidae
Macho ♂
EscudoCobre todo o dorso
IngestãoSó o necessário — corpo não distende muito
ComportamentoPermanece no hospedeiro
Fêmea ♀
EscudoCobre apenas parte anterior (pequeno)
IngestãoGrande quantidade — corpo se distende
ComportamentoCai no solo para ovipor
Importante · prova
A fêmea ingurgitada cai no solo e libera ovos. Por isso, o ataque a humanos não vem direto do animal, e sim do solo/ambiente: ovos → larvas → larvas atacam o que estiver à frente.
06
Ciclo biológico
O carrapato não segue a classificação dos insetos (hemimetábolo / holometábolo). Tem modelo próprio.
OVO→LARVA→NINFA→ADULTO
3
pares · larva
4
pares · ninfa
4
pares · adulto
♂♀
só no adulto
Importante · prova
A larva tem 3 pares de patas — único estágio em que isso ocorre, e o jeito clássico de diferenciá-la da ninfa.
Classificação por número de hospedeiros
1 hospedeiro
ComportamentoToda a vida em um único hospedeiro — muito específico
Risco humanoMuito baixo
2 hospedeiros
ComportamentoTroca de hospedeiro uma vez
Risco humanoIntermediário
3 hospedeiros
ComportamentoA cada muda volta ao solo e procura novo hospedeiro
Risco humanoAltoatenção
Lógica do 3-hospedeiros
A cada muda no solo, o carrapato precisa achar um novo hospedeiro.
Quanto mais jovem, menor a especificidade — "é quem tiver pela frente".
Quanto mais adulto, mais específico do seu hospedeiro de preferência.
Importante · prova
Humanos são acometidos predominantemente pela LARVA de carrapatos de 3 hospedeiros — não pelo adulto. A larva é minúscula, pouco específica e passa despercebida.
"Quem acomete seres humanos não é aquele carrapato grandão. É o humildinho, pequenininho."
Caso citado em aula
Paciente já havia retirado 5 larvas; uma quinta não foi achada — foi essa que causou a sintomatologia. Padrão de exposição típico: andar em mato, parque ou vegetação onde as larvas sobem.
07
Principais espécies no Brasil
Amblyomma cajennense · Carrapato-estrela
Por que estrela? Desenho de estrela no escudo do macho; na fêmea, escudo menor com parte do desenho.
Hospedeiros: cavalos e capivaras.
Distribuição: associada a parques (MG, SP).
Importância médica: principal transmissor da Febre Maculosa Brasileiraletal
RN / Ceará: praticamente ausente → febre maculosa não é comum aqui.
Peças bucais: mais longas que nos outros carrapatos médicos.
"O carrapato é estrela? Aí está a estrela!"
Rhipicephalus sanguineus · Carrapato do cão / canil
Hospedeiro: cão — predominantemente urbano.
Em outros países: a larva acomete frequentemente humanos.
No Brasil: incrivelmente pega pouco humano — discute-se especificidade de linhagens.
Casos esporádicos em humanos descritos em profissionais de clínicas veterinárias.
Estudo: pesquisadores acharam carrapato até em sofá — o ambiente pode estar contaminado sem o cachorro presente.
"A erliquia está para o animal como o HIV está para o ser humano."
A Babesia faz, no cão, o mesmo padrão que a malária faz no humano (parasitismo de hemácias → hemólise).
Boophilus microplus · Carrapato do boi
Hospedeiro: bovinos.
Carrapato de 1 hospedeiro → muito específico.
Pouca probabilidade de acometer humanos.
Importância econômica: causa "tristeza parasitária bovina", transmite Anaplasma, bebe grandes volumes de sangue → anemia bovina.
Escudo pouco decorado — diferencia-o do cajennense.
Macho com festões (reentrâncias na borda posterior, "massa de pastel").
Estrutura que sustenta as peças bucais: hexagonal (6 lados).
Resumo · ambientes
Urbano
PredomínioRhipicephalus sanguineus — carrapato do cão
Silvestre · parques, capivaras
PredomínioAmblyomma cajennense — estrela
Rural · pasto
PredomínioBoophilus microplus — boi
08
Doenças transmitidas no Brasil
Febre Maculosa
Agente: Rickettsia — parasito intracelular obrigatório; replica em vários tecidos, com endotélio incluso.
Letalidade: muito alta (~70% em alguns relatos) prova
Sintomas: podem incluir manifestações neurológicas.
Vetor: Amblyomma cajennense (carrapato-estrela).
Distribuição: predominantemente Sudeste e Sul.
RN/CE: praticamente ausente — não é doença comum na nossa região.
"Tudo que tem no Ceará chega tudo… Mas até então é uma doença do Sul/Sudeste."
Doença lyme-like · Síndrome Baggio-Yoshinari
Quadro clínico semelhante à doença de Lyme clássica.
Não há confirmação laboratorial consistente.
Pacientes peregrinam por médicos até o diagnóstico.
Provavelmente envolve espécie diferente da americana — testes específicos não detectam.
Denominação atual: doença lyme-like ou síndrome Baggio-Yoshinari.
Erliquiose e babesiose humanas
Já descritas em humanos no Brasil, mas em número insuficiente para considerar área endêmica.
Aumento de casos em EUA e Europa.
Hipótese: linhagens adaptadas — as do cão dificilmente infectam humanos por preferência de hospedeiro.
"Carrapato transmite leishmaniose entre os animais. É uma das formas de transmissão. Para ver que não é só o mosquito-palha."
09
Prevenção · carrapatos
1Tratar os animais — onde há animal, há risco. Comprimidos de longa duração (3, 4, 5 dias até 3 meses), produtos tópicos. Atenção: resistência crescente aos acaricidas.
2Inspeção corporal após áreas de mato, parque, sítio.
3Locais ocultos: couro cabeludo (sobretudo em crianças), regiões com pelos.
4Retirada correta com pinça (módulo 04).
5Importante: o ataque costuma vir do solo, não direto do animal.
10
Ácaros · Demodex
A partir daqui saímos dos hematófagos: ácaros que não se alimentam de sangue, mas ainda assim causam doença. Antes considerado patogênico → depois "comensal" → atualmente patogênico oportunista / contribuidor.
Espécies
Demodex brevis / D. folliculorum
HospedeiroSer humano
Demodex canis
HospedeiroCão
Outras espécies
HospedeiroDiversos animais — cada um o seu
Contaminação cruzada é possível, mas iminente — não bem adaptada.
Localização e nicho
Vive dentro de folículos pilosos e glândulas sebáceas.
Corpo alongado adaptado ao folículo.
Alimenta-se de sebo e conteúdo das glândulas.
Quatro pares de patas concentrados na porção anterior do corpo.
Importante · prova
O Demodex não causa doença sozinho — ele agrava processos já existentes. Quando há desequilíbrio cutâneo (acne intensa, rosácea, blefarite), a população aumenta e contribui para o processo inflamatório.
Quadros associados
Acne
exagerada
Rosácea
contribui
Blefarite
cílios
Tratamento
Higiene local com retirada do excesso de óleo.
Eventualmente tratamento oral.
O tratamento reduz a população, melhorando o quadro.
11
Sarcoptes scabiei · Escabiose
Importante · prova
É uma única espécie (Sarcoptes scabiei) com subespécies/variedades adaptadas a cada hospedeiro: var. hominis (humano), var. canis (cão), etc.
Contato com animal pode levar a infestação no humano, mas a transmissão entre humanos predomina — a var. hominis propaga-se eficientemente entre nós.
Localização e comportamento
Vive na superfície da pele (parte superior do estrato córneo).
Cópula ocorre na superfície.
A fêmea desce e cava túneis no estrato córneo.
Vai colocando ovos ao longo do túnel.
A reação inflamatória responde à presença do ácaro e seus dejetos.
Diferenças vs. Larva migrans
Larva migrans
TrajetoLongo — semanas a meses
CausadorLarva de ancilostomídeos
Escabiose
TrajetoCurto, pequeno
CausadorÁcaro Sarcoptes
Diagnóstico
Clínico — túneis típicos, prurido intenso.
Lupa permite ver o ácaro na ponta do túnel.
Raspado superficial → leitura em microscópio (o parasito é tão superficial que basta raspar sem secar).
"Como o diagnóstico é fácil, o tratamento também é fácil. Porque o parasito fica bem superficial."
Morfologia
Corpo arredondado (lembra o corpo de um carrapato).
4 pares de patas.
Peças bucais centrais e anteriores.
Pelos e ventosas no corpo → fixação à pele.
Cai com facilidade do hospedeiro → altamente contagioso.
Tratamento
Ivermectina oral
StatusPrimeira linha atual 1ª
Permetrina tópica
StatusLoções — opção tópica
Banhos + escabicida tópico
StatusÁgua morna + agente local
Resistência à ivermectina
AtençãoRelatos crescentes — uso excessivo na pandemia alerta
"Já imaginou, de uma hora para outra, com todo mundo aqui no chão… e sem saber mais. Uma coisa besta dessa."
Quem mais sofre
Crianças — muito contato pele a pele (creches, escolas).
Pacientes imunossuprimidos → podem desenvolver sarna crostosa (norueguesa) → proliferação massiva do ácaro.
Ambiente hospitalar com paciente em sarna crostosa exige cuidado redobrado.
Importante · prova
Escabiose NÃO é doença de falta de higiene. A transmissão é por contato — qualquer um pega. A higiene faz controle populacional, não impede a aquisição.
"Não quer dizer que eu tenha falta de higiene porque peguei. Quer dizer que a minha higiene controla a quantidade do ácaro."
Sobrevivência no ambiente
Autores divergem: alguns dizem 72 horas, outros até 15 dias. Por garantia, roupas, lençóis e leitos hospitalares devem ser tratados como contaminados por tempo prolongado.
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Ácaros do ecossistema domiciliar
Não são parasitos verdadeiros — são comensais do nosso ambiente. O problema é a alergia que algumas pessoas desenvolvem às proteínas alergênicas compartilhadas por várias espécies.
Onde vivem e do que comem
Restos de pele descamada.
Fungos do ambiente.
Quadros associados
Dermatite atópica
TipoHipersensibilidade individual
Alergias respiratórias
QuadrosRinite, asma
Importante · prova
Não é patologia da população — é hipersensibilidade individual. Não há como eliminar os ácaros; apenas controlar a quantidade.
Controle ambiental
Sol em colchões, travesseiros, cortinas
JustificativaReduz a população.
Ventilação
JustificativaEles são leves e prosperam em locais abafados.
Eliminar tapetes pesados e cortinas grossas
JustificativaFuncionam como reservatórios.
Pano úmido em vez de varrer
JustificativaVarrer dispersa os ácaros para o ar.
Limpeza com vinagre (pH baixo)
JustificativaReduz fungos dos quais alguns ácaros se alimentam.
Travesseiros sintéticos > de pena
JustificativaPena retém matéria orgânica.
Acaricidas em colchões/travesseiros
JustificativaDisponíveis no mercado.
Dado citado em aula
Travesseiros antigos podem ter até 1/3 do seu peso composto por ácaros e seus resíduos após anos de uso.
Ácaros de cereais · alergia ingesta
Vivem em cereais armazenados.
Cereais bem fechados, atenção à validade.
Possibilidade de armazenar em geladeira (ex.: macarrão).
Quatro casos com cara de prova: cada um traz o parasito provável, a justificativa parasitológica e a conduta clínica.
D DiagnósticoI IdentificaçãoJ JustificativaC Conduta
Caso 01 · Trilha em parque · MG
Homem, 34 anos, retorna de caminhada em parque com áreas de capivara. Após 6 dias, surge febre alta, cefaleia intensa, mialgia e exantema máculo-papular em punhos e tornozelos. Relata ter retirado vários carrapatos pequenos das pernas no fim de semana; um deles ficou por mais de 24 horas.
Vetor compatível: Amblyomma cajennense (carrapato-estrela), associado a capivaras e cavalos em parques de MG/SP. Provável fixação de larva ou ninfa, que passa despercebida pelo tamanho.
J
Mais de 4-6 horas de fixação dão tempo para inoculação da Rickettsia pela saliva. A letalidade descrita chega a ~70% sem tratamento precoce.
C
Iniciar doxiciclina empírica imediata, sem esperar sorologia. Notificar caso suspeito. Orientar inspeção corporal completa e retirada correta de carrapatos com pinça.
Caso 02 · Creche · surto cutâneo
Mãe leva uma criança de 4 anos, da creche, com prurido intenso de predomínio noturno, lesões papulares interdigitais, em punhos e cintura. Duas outras crianças da mesma sala já apresentaram quadro parecido. A mãe pergunta se foi falta de higiene em casa.
D
Escabiose humana — parasito Sarcoptes scabiei var. hominis.
I
Diagnóstico clínico pelos túneis e prurido noturno. Lupa pode mostrar o ácaro; raspado superficial confirma. Crianças em creche são grupo de alto contato pele a pele.
J
A fêmea cava túneis no estrato córneo e libera ovos/dejetos — gatilho inflamatório. Não é doença de falta de higiene: a higiene apenas controla a quantidade do ácaro; a transmissão é por contato.
C
Permetrina tópica em crianças (ou ivermectina conforme indicação clínica). Tratar contatos próximos da família simultaneamente. Lavar roupas/lençóis em água quente. Acolher a mãe e desmistificar a noção de "falta de higiene".
Caso 03 · Veterinária · canil
Veterinária de 28 anos atende um Labrador com anemia, trombocitopenia e febre, no qual identifica vários carrapatos. Em revisão do próprio corpo após o atendimento, descobre dois carrapatos fixados em região lombar, sem prurido prévio.
Vetor: Rhipicephalus sanguineus (carrapato do cão / canil) — urbano, peridomiciliar, encontrado até em sofás de domicílios com cães. No humano, parasitismo é incomum no Brasil, mas descrito em profissionais expostos.
J
A erliquiose destrói leucócitos no cão ("HIV do cachorro"); a babesiose destrói hemácias (padrão tipo malária). Em humanos, casos esporádicos já foram registrados.
C
Retirar os carrapatos da paciente com pinça, na base do gnatossoma, com rotação suave — sem apertar o corpo. Orientar acaricida nos cães e desinfestação ambiental do canil. Monitorar sintomas sistêmicos da profissional.
Caso 04 · Asilo · paciente acamado
Idoso de 82 anos, acamado, com placas crostosas hiperqueratósicas em mãos, cotovelos e tronco, sem prurido proporcional à gravidade. Equipe de enfermagem do asilo começa a apresentar lesões pruriginosas após semanas de cuidado.
D
Sarna crostosa (norueguesa) — forma hiperinfestada de Sarcoptes scabiei.
I
Quadro clássico em paciente imunossuprimido/debilitado: proliferação massiva do ácaro, alta carga parasitária e altíssima contagiosidade para a equipe.
J
A crosta esconde milhares de ácaros. O ambiente hospitalar/institucional concentra contatos prolongados — daí a explosão de casos secundários na equipe.
C
Isolamento de contato. Tratamento sistêmico (ivermectina oral) associado a escabicida tópico, repetido conforme protocolo. Tratar simultaneamente equipe e contactantes. Manejo de roupas/lençóis como contaminados por tempo prolongado.
PK
Pontos-chave para prova
01Transmissão por carrapato exige tempo de contato (horas) — ocorre principalmente pelo mecanismo de regurgitação. A retirada precoce é a principal medida profilática.
02O carrapato tem dois canais bucais: um para sugar sangue, outro para injetar saliva (com anticoagulantes, imunomoduladores e o líquido drenado do intestino).
03Existe exceção descrita recentemente: vírus transmitido em ~15 minutos, por inoculação direta de saliva, com sintomas neurológicos — não circula na nossa região.
04Duas famílias: Argasidae (corpo mole, sem escudo, peças bucais ventrais) e Ixodidae (corpo duro, com escudo, peças bucais anteriores, alta importância médica).
05Apenas o carrapato de corpo duro produz cimento e fixa por longos períodos — o que viabiliza a transmissão de doenças.
06Dimorfismo em Ixodidae: macho com escudo total; fêmea com escudo pequeno (ingurgita massivamente, cai no solo para ovipor). O ataque ao humano vem do solo, não do animal.
07Ciclo: ovo → larva (3 pares de patas) → ninfa (4 pares) → adulto (4 pares com diferenciação sexual).
08Classificação por hospedeiros: 1 (alta especificidade, baixo risco), 2, 3 hospedeiros (alto risco para humanos).
09Humanos são acometidos pela LARVA de carrapatos de 3 hospedeiros — pequena, pouco específica, passa despercebida.
10Amblyomma cajennense (carrapato-estrela) → vetor da Febre Maculosa Brasileira → hospedeiros cavalos e capivaras → comum no Sudeste, raro no Nordeste.
11Rhipicephalus sanguineus (carrapato do cão) → ambiente urbano → erliquiose e babesiose em cães → poucos casos humanos no Brasil.
12Boophilus microplus (carrapato do boi) → 1 hospedeiro → baixíssimo risco humano → grande importância econômica e veterinária.
13Febre Maculosa: alta letalidade, agente Rickettsia, distribuição predominantemente Sudeste/Sul.
14Erliquiose e babesiose humanas ocorrem no Brasil mas em número insuficiente para área endêmica.
15Retirada do carrapato: pinça na base do gnatossoma, com movimento rotacional. Nunca apertar o corpo e nunca arrancar deixando as peças bucais.
16Demodex vive em folículos e glândulas sebáceas. Não causa doença sozinho — agrava acne, rosácea e blefarite.
17Sarcoptes scabiei vive na superfície da pele; a fêmea cava túneis no estrato córneo. Diagnóstico por raspado é fácil porque o parasito é superficial.
18Escabiose não é doença de falta de higiene — é por contato. A higiene apenas controla a quantidade.
19Tratamento da escabiose: ivermectina oral (1ª linha) e permetrina tópica. Atenção: relatos crescentes de resistência à ivermectina após uso excessivo na pandemia.
20Sarna crostosa (norueguesa): forma grave em imunossuprimidos, com proliferação massiva — preocupação importante em ambiente hospitalar.
21Ácaros domiciliares: não causam infecção, causam alergia individual. Controle é ambiental: sol, ventilação, troca de pano úmido, evitar tapetes pesados, geladeira para cereais.
GL
Glossário
Argasidae
família dos carrapatos de corpo mole; sem escudo, peças bucais ventrais.
Babesiose
doença causada por Babesia, parasita intracelular de hemácias. No cão, faz padrão similar à malária humana.
Cimento
estrutura aderente produzida pelo carrapato de corpo duro durante a fixação, isolando as peças bucais na pele.
Demodex
gênero de ácaros que vive em folículos pilosos e glândulas sebáceas; patógeno oportunista.
Erliquiose
doença causada por Ehrlichia, que destrói leucócitos (no cão, comparada ao HIV humano em gravidade).
Escabiose
sarna humana, causada por Sarcoptes scabiei var. hominis.
Escudo
placa rígida adicional ao exoesqueleto, característica dos Ixodidae.
Festões
reentrâncias na borda posterior, úteis na identificação de algumas espécies.
Febre Maculosa
doença grave (alta letalidade) causada por Rickettsia, transmitida pelo Amblyomma cajennense.
Gnatossoma
nome próprio das peças bucais dos carrapatos.
Ixodidae
família dos carrapatos de corpo duro; com escudo, peças bucais anteriores.
Palpos
estruturas pares laterais do gnatossoma, equivalentes funcionais aos polegares; ficam externos.
Probóscide
termo geral para peças bucais sugadoras (rostro nos hemípteros, gnatossoma nos carrapatos).
Regurgitação (transmissão por)
mecanismo principal de transmissão de doenças pelos carrapatos, em que conteúdo intestinal retorna ao hospedeiro via saliva.
Sarna crostosa (norueguesa)
forma exuberante de escabiose em imunossuprimidos, com proliferação massiva do ácaro.
Síndrome Baggio-Yoshinari / Doença lyme-like
quadro clínico no Brasil semelhante à doença de Lyme, sem confirmação laboratorial pelos testes clássicos.
Tristeza parasitária bovina
complexo de anaplasmose e babesiose em bovinos, transmitido por Boophilus microplus.