Parasitologia Médica · 2026.1

Animais Peçonhentosde Importância em Saúde Pública

Um atlas noturno do veneno: escorpiões, aranhas, abelhas, lagartas, serpentes e cnidários — da definição de peçonha à soroterapia.

Toxinas & Aparatos Fisiopatologia Conduta & Soros
I — FUNDAMENTOS

Veneno, Toxina e Peçonha

Três palavras que parecem sinônimos — e que a prova adora separar.

Veneno

Nunca é uma única substância. É um conjunto (mistura) de moléculas com mecanismos de ação diferentes. Termo amplo: animal, vegetal, fúngico ou bacteriano.

Toxina

Substância de origem de um organismo vivo, capaz de modificar o metabolismo ou alterar uma via biológica do nosso corpo.

Peçonha

Veneno de origem exclusivamente animal, inoculado por aparato especializado em um acidente ativo (o animal ataca).

O veneno é perigoso porque é um conjunto. São moléculas diferentes, com mecanismos diferentes; isoladamente o corpo reagiria bem — mas a ideia é o efeito somado ser maior.

Veneno que NÃO é peçonha

Micetismo

O cogumelo produz uma toxina; você ingere o cogumelo e a toxina → envenenamento. Origem em fungo/planta = veneno, nunca peçonha.

Aflatoxina

Produzida pelo fungo Aspergillus em alimentos mal armazenados. É termoestável: o fungo pode nem existir mais, mas a toxina permanece.

Importante para a prova

Para algo ser peçonha não basta ser de origem animal, nem basta ser grave. O critério decisivo é o acidente ATIVO: o animal possui a toxina e um aparato inoculador (ferrão, quelícera, presas) e ataca ao se defender.

Os contra-exemplos clássicos

Baiacú / fugu

A tetrodotoxina fica em vísceras específicas e escapa na limpeza. Altamente venenoso, mas o acidente é passivo (você come o animal) → NÃO é peçonha.

Sapo

Toxina nas glândulas parotoides; acidente passivo (o animal não ataca). Importante na veterinária.

Veneno × Peçonha

Veneno / envenenamento
Origem
Animal, vegetal, fungo, bactéria
Aparato
Não obrigatório
Acidente
Passivo (ingestão/contato)
Exemplos
Baiacú, cogumelo, aflatoxina, sapo
Peçonha
Origem
Exclusivamente animal
Aparato
Sim (ferrão, quelícera, presas)
Acidente
Ativo (o animal ataca)
Exemplos
Escorpião, serpente, abelha

Peçonha = toxina + aparato para inoculá-la + ataque ativo → maior número de acidentes → relevância em saúde pública.

Nota da literatura

Autores clássicos (Neves) usam venenoso e peçonhento como sinônimos e subclassificam pelo mecanismo: vulnerantes (inoculam ativamente — escorpião, abelha), por contato (sapo, taturana) e por projeção (potó). Pela regra estrita da aula, contam só os vulnerantes.

II — CASO ILUSTRATIVO

Pederismo (Potó)

Parece peçonha, mas não é — a pegadinha mora aqui.

Quem é o potó

É um coleóptero (besouro). Reconhece-se pelas duas asas anteriores duras (élitros) que cobrem totalmente as asas membranosas. Voam muito bem — chegam a andares altos.

  • Toxina = pederina, contida na cavidade abdominal / hemolinfa.
  • É um potente vesicante → causa a dermatite linearis (dermatite linear).
  • Lesões espalhadas, em forma linear — "parece que uma serpente flutuante passou".
  • Não é o percevejo: o percevejo fede, o potó não.
Dizem "o potó mijou"… mas não é. Essa substância está dentro da cavidade abdominal, está na hemolinfa.
Importante para a prova

O acidente do potó é por esmagamento — você esfrega o inseto na pele. Logo, pela regra da aula, NÃO é animal peçonhento, apesar de parecer.

Nota da literatura

Neves classifica o potó (Paederus sp.) como peçonhento por projeção — capaz de lançar ativamente a toxina. A regra restrita da aula o exclui; a literatura clássica, não.

III — SAÚDE PÚBLICA

Classificação & Epidemiologia

Por que estes grupos, e por que o escorpião abre o curso.

Os 6 grupos do Ministério

Acidentes por animais peçonhentos de importância em saúde pública no Brasil:

  • Abelhas
  • Aranhas
  • Escorpiões
  • Lagartas (lagartas = larvas de mariposa; não "lagartos")
  • Serpentes
  • Águas-vivas e caravelas
Importante para a prova

Toda picada de animal peçonhento deve ser notificada. Os números pesam para os grupos fatais e cada vez mais urbanos — no meio urbano, acometem mais gente.

Nota da literatura

Vespas, marimbondos e formigas (Hymenoptera) também são de grande importância em saúde pública e de notificação compulsória — causam muitos acidentes urbanos e têm alto potencial de letalidade. A aula os tratou apenas como "importância clínica".

Epidemiologia (RN / Brasil)

~400knotificações em 2025
~200ksó de escorpião
1ºURSAP 7 — Grande Natal
2ºURSAP de Mossoró
  • Organização por regionais de saúde (URSAP); maior urbanização → mais acidentes.
  • A ficha registra onde ocorreu o acidente, não onde a pessoa foi atendida → evita o viés do hospital de referência.
  • Acidente escorpiônico é o mais frequente no RN e no Brasil (mais da metade) — daí o curso começar por ele.
IV — ARACNÍDEOS

Escorpiões

O acidente número um do país, todo no gênero Tityus.

Morfologia & biologia

Filo Arthropoda → Ordem Scorpiones (são aracnídeos). A cabeça não é individualizada:

Corpo
Cefalotórax (cabeça + tórax) + abdômen
Abdômen
Anterior (pré) + posterior (a "cauda" também é abdômen)
Pedipalpos
1 par — pinça que segura a presa
Quelíceras
Funcionam como tesouras, rasgam o alimento
Nota da literatura

O escorpião tem apenas um par de pedipalpos (não "quatro"). Tecnicamente: cefalotórax = prossoma; abdômen = opistossoma (mesossoma + metassoma/cauda).

Por que vive nas cidades

É predador; come outros insetos (baratas). Cidade = muita barata + muito lixo, que alimenta e esconde o escorpião. Hábito noturno; comendo muito, reproduz muito.

Cadeia: lixo (matéria biológica) → barata → escorpião.

Importante para a prova

Muitos são partenogenéticos (reprodução sem macho, rápida). São vivíparos (filhotes nascem sobre o dorso da mãe), passam por mudas até o adulto (~2 anos) e são peçonhentos desde o nascimento — a quantidade de peçonha é proporcional ao tamanho.

Aparato inoculador

Glândula de peçonha → dúto → télson (vesícula final), cuja ponta — o aguilhão — perfura e inocula. O escorpião não busca o humano: ataca em defesa (calçar sapato, pôr a mão sob objetos parados).

Quais importam: gênero Tityus

Para a biologia, todo escorpião é peçonhento. Mas interessa para a gente só os que têm peçonha capaz de causar prejuízo ao ser humano.
Importante para a prova

No Brasil, apenas 4 espécies têm importância médica, todas do gênero Tityus. Identificação: tubérculo (apófise) subaculear — espinho logo antes do ferrão — e pinças relativamente pequenas.

T. serrulatus

Escorpião amarelo. Mais importante do Brasil (Sudeste), partenogenético (dispersão facilitada). Dois tons de amarelo. A serrilha é sua marca diagnóstica.

T. stigmurus

Amarelo do Nordeste; mais frequente aqui (2º em importância). Desenho dorsal em triângulo/tridente escuro.

T. bahiensis

Escorpião-negro; coloração escura (marrom a preta). Importante no Sudeste/Sul.

T. obscurus

Escorpião-preto da Amazônia; principal causador de acidentes na região Norte.

Pectíneo (pente): estrutura ventral sensorial arrastada no chão — percebe presas por vibração/tamanho.

Importante para a prova — relação peso × peçonha

Quanto menor o peso do acometido (criança), maior a chance de receber peçonha suficiente para dano grave ou óbito. No adulto, agravamento possível, mas menor chance de óbito.

Fisiopatologia

A peçonha é mistura, mas o que orienta o estudo são as neurotoxinas:

  • Ligam-se aos canais de Na⁺ voltagem-dependentes → não os deixam fechar (sódio entra continuamente).
  • Bloqueiam canais de K⁺ → impedem a repolarização.
  • Resultado: prolongamento do potencial de ação.
  • No local: terminações sensitivas → DOR imediata; pós-ganglionares → liberação de neurotransmissores.
Importante para a prova

Quadro de excitação do sistema nervoso autônomo MISTA (simpático e parassimpático) → confuso, mas muito característico.

Nota da literatura

A síndrome grave é, na verdade, bifásica: 1ª fase de intensa excitação simpática (vasoconstrição, agitação), seguida do predomínio dos sinais parassimpáticos (sialorreia, vômitos, prostração) — não tudo "ao mesmo tempo".

Progressão clínica

Leve

Apenas dor local.

Moderado/grave

Náusea, vômito, sialorreia, taquipneia, taquicardia (excitação autonômica).

Grave

Acometimento cardíaco (taqui↔bradicardia), falência cardíaca, edema agudo de pulmão.

O desfecho fatal ocorre por falha cardíaca e edema pulmonar.

Importante para a prova — soroterapia

Só dor → tratamento sintomático (sem soro). Sinais de excitação autonômica → soroterapia (quanto mais toxina, mais soro). Os sinais podem surgir já nas primeiras horas de observação.

Letalidade baixa (~0,1% → ex.: 236 óbitos em ~200 mil), mas significativa pelo número absoluto. Prevenção: afastar a cama da parede, eliminar esconderijos, atenção a crianças e idosos.

V — ARACNÍDEOS

Aranhas

Três gêneros, três mecanismos, três quadros distintos.

Diferença do escorpião: têm cintura (cefalotórax e abdômen bem separados). Pedipalpos = função sensitiva (não são pinças). Quelíceras contêm a glândula de peçonha → a intoxicação é "como uma mordida".

Cerca de 8–10 tipos vivem nas residências; a maioria é benéfica (come mosquitos, baratas).

Importante para a prova

Diferente do escorpião (4 espécies de um gênero), nas aranhas há 3 GÊNEROS distintos de importância. Nas notificações, ~60% não trazem informação útil ("outras aranhas" / "ignorado").

Loxosceles — aranha-marrom

Pequena, marrom, não agressiva, escondida; ataca por esmagamento/contato. A mordida é discreta — frequentemente percebida só no dia seguinte.

Toxina enzimática que quebra membranas e não fica fixa: continua ativa até ser inativada → por isso a lesão cresce progressivamente.

Cutâneo
Úlcera necrótica de evolução lenta (placa marmórea → escara → úlcera de difícil cicatrização)
Hemolítico
Hemólise → hemoglobina livre → dano renal → risco de óbito
Leve

Lesão pequena → observação.

Moderada

Lesão crescendo, sem hemólise → acompanhar.

Grave

Hemólise / dano renal → soroterapia.

Nota da literatura

O soro antiloxoscélico aplicado nas primeiras 14–24 h previne a forma cutâneo-visceral (hemólise e falência renal) — não se deve esperar a hemólise instalar. A dor também pode tornar-se intensa já nas primeiras horas (não apenas "no dia seguinte").

Phoneutria — armadeira

Agressiva: ao se sentir ameaçada, levanta as patas (posição de "armadeira") e parte para cima — a mais agressiva das três.

Mecanismo: atua sobre canais de sódio (como o escorpião) e em terminações sensitivas → inflamação. Dor imediata e intensa.

Importante para a prova

Priapismo — ereção involuntária e prolongada por liberação de óxido nítrico — é sinal muito característico, raro no escorpião, e pode causar dano permanente.

Nota da literatura

A Phoneutria é de tamanho médio (~3 cm de corpo), não "15 cm". E seus sintomas autonômicos são mistos (também parassimpáticos: hipotensão, sudorese na nuca, sialorreia), não puramente adrenérgicos.

Latrodectus — viúva-negra

Mais rara, solitária, pouco encontrada em residências. Toxina forma um canal na membrana que permite transporte de cálcio → libera neurotransmissores → sintomas musculares (cãibras, rigidez torácica/abdominal) que as outras aranhas não dão.

Identificação: tons escuros, abdômen grande e desproporcional, desenho de ampulheta ("gravatinha") no ventre.

O que a aula afirmou

Seria o ÚNICO acidente sem soro disponível — não por não conseguir produzir, mas porque é tão raro que a logística não se justifica. Tratamento sintomático.

Nota da literatura — corrige a pegadinha

Toxicologicamente, o soro existe: o antilatrodectus é formalmente indicado nos casos graves, associado a analgésicos e gluconato de cálcio. A dor da viúva-negra é, ainda, imediata e violenta.

Comparativo das três

Loxosceles
Sinal
Violino no dorso
Dor
Discreta no início
Quadro
Necrose que cresce; hemólise/renal nos graves
Soro
Sim (antiaracnídico)
Phoneutria
Sinal
Levanta as patas
Dor
Imediata e intensa
Quadro
Autonômico + priapismo
Soro
Sim (antiaracnídico)
Latrodectus
Sinal
Ampulheta no ventre
Dor
Imediata e violenta
Quadro
Sintomas musculares (rigidez)
Soro
Existe (antilatrodectus)

Comuns, sem importância médica pela aula

Aranha de jardim

Cinza, linha vermelha; "anda de lado". Pode morder e doer. Literatura: o gênero Lycosa tem peçonha e causa dor, edema e necrose local.

Caranguejeira / tarântula

Muito mansas. O risco real são os pelos urticantes: quando estressada, solta os pelos → alergia respiratória (até choque por aspiração). Manejo: cobrir com saco plástico, soltar no mato.

Soros para aracnídeos

Por logística, o soro antiaracnídico reúne antídotos para Loxosceles, Phoneutria e escorpião num só frasco — não é a mesma toxina, mas ganha distribuição.

Importante para a prova — risco × benefício

Os soros são imunoglobulinas: não se usa à toa. Só dor = alívio sintomático; sinais de evolução / excitação autonômica = soro.

Nota da literatura

O risco real do soro não é "sobrecarga renal por filtração", e sim hipersensibilidade (anafilaxia imediata ou doença do soro tardia), por serem imunoglobulinas heterólogas (de cavalo). E a Loxosceles, mesmo sem sinais autonômicos, exige soro precoce.

VI — HIMENÓPTEROS

Abelhas

Onde a peçonha é literalmente a dose — e a alergia, a chave.

Ordem Hymenoptera: abelhas, formigas e vespas. Identificação: cintura marcada; mamangabas mais peludas.

Importante para a prova

Como "a peçonha é a dose", quem tem maior quantidade de toxina é a abelha → única do grupo com importância em saúde pública (na visão da aula).

Nota da literatura

Nem toda formiga "perdeu o ferrão" — lava-pés (Solenopsis) e tocandira têm aguilhão e inoculam veneno. Vespas, marimbondos e formigas também são agravos de notificação compulsória.

Por que a abelha mata

Toxina com fosfolipase (rompe membranas) e hialuronidase (rompe tecido).

Duas situações graves

1. Alergia (sobretudo a sensibilização tardia, não no 1º contato) → risco de anafilaxia com uma única ferroada (edema de glote).

2. Múltiplas ferroadas (ex.: 3.000–5.000) → cada local inflama → inflamação sistêmica → choque e óbito, sem necessidade de alergia.

Nota da literatura

Nos envenenamentos maciços, a morte decorre sim do efeito tóxico direto das enzimas/peptídeos (choque tóxico), independente de mecanismo alérgico.

Variabilidade individual (casos reais)

25 picadas
Cefaleia, tontura → liberado
50 picadas
Cefaleia, tremores, alteração de pressão → liberado em 15 dias
60 picadas
Liberado
1 picada
Sem sintomas em 2 horas

Africanizadas & o ferrão

A abelha-comum não é nativa: trouxeram linhagens europeias e depois a africana (agressiva), que se espalhou e cruzou. Hoje, 90–99% têm sangue africano → comportamento de ataque em enxame. Estressam com som alto, roupas escuras e cheiros fortes; atacam ao proteger a colmeia em mudança.

O ferrão é farpado: fica preso, a abelha perde a integridade abdominal e morre — mas o ferrão continua pulsando e bombeando toxina.

Importante para a prova — conduta

Retirar o ferrão imediatamente, raspando (rente à pele) — nunca apertando, pois isso injeta mais toxina (mesma lógica do carrapato). Após ~30–40 min a retirada é irrelevante → cuidar dos sinais vitais.

Nota da literatura

O que se contraindica é segurar e puxar com os dedos (a compressão digital injeta o veneno residual). Raspar com pinça fina ou lâmina, de baixo para cima, é aceito.

Epidemiologia: 125 óbitos por abelha em 2025; acidentes urbanos, predominância das africanizadas; locais mais atingidos = cabeça, pescoço e abdômen.

VII — LEPIDÓPTEROS

Lagartas — Erucismo

As "lagartas de fogo" — e a única que ativa a coagulação.

Borboletas (antenas com "bolinhas") × mariposas (peludas, robustas). A importância está nas larvas (lagartas); o acidente por larva chama-se erucismo.

Com pelos
Pelos + espinhos ligados a glândulas de veneno (mais frequentes na região)
Sem pelo denso
Lonomia — corpo com espinhos ramificados (scoli), em forma de "pinheirinhos"
Nota da literatura

O erucismo é típico de mariposas (Megalopygidae, Saturniidae), mas algumas borboletas também têm larvas urticantes — o "nunca de borboleta" é absoluto demais.

Lonomia — a perigosa

Importante por duas razões:

  • Comportamento agrupado: várias juntas e camufladas → a vítima sofre múltiplos contatos simultâneos.
  • Toxina hemorrágica potente.

Mecanismo (como o das cobras): ativa a cascata de coagulação → consome os fatores → dano endotelial → resultado: hemorragia, sem fatores disponíveis para conter o sangramento.

Como é que alguém ativa a cascata e causa hemorragia? Porque consome os fatores.
Importante para a prova

Existe soro específico para a Lonomia. Todos os 7 óbitos notificados por lagarta estão associados a ela. O contato é passivo (peçonhento por contato): as cerdas quebram contra a pele e liberam o fluido — não há aparelho inoculador ativo.

VIII — ACIDENTES OFÍDICOS

Serpentes

Viperidae domina os números; a coral, rara, é a mais traiçoeira.

~400tipos no Brasil
99%são Viperidae
~28kacidentes em 2025
145óbitos em 2025

As famílias

Bothrops — Jararaca

Viperidae. ~80–85% dos acidentes, a mais agressiva, locais úmidos. Literatura: ~90%.

Crotalus — Cascavel

Viperidae. ~15% no RN (8–10% no Brasil), locais secos.

Lachesis — Surucucu

Viperidae. Norte/floresta; a maior de todas (até 4 m). Não ocorre aqui.

Micrurus — Coral verdadeira

Elapidae (<1%). Hábito subterrâneo; acidentes raros, mas muito perigosos.

Erro de cartilha: ensinam só a Viperidae e esquecem as corais (Elapidae) — raras, porém gravíssimas.

Identificar a Viperidae

Cabeça
Destacada / triangular
Pupila
Em fenda (vertical)
Fosseta loreal
Presente — órgão termorreceptor entre olho e narina
Escamas
Carenadas → aspecto irregular/áspero
Cauda
Destacada
Comportamento
Dá o bote
Importante para a prova

A característica mais marcante e confiável é a fosseta loreal. As demais, isoladamente, não fecham o diagnóstico — vale o conjunto (e a cabeça costuma chegar esmagada).

Nota da literatura — exceção crítica

A coral verdadeira (Micrurus) é altamente peçonhenta, mas morfologicamente parece "não peçonhenta": sem fosseta loreal, pupila redonda, cabeça não destacada, escamas lisas. A tabela de identificação não a captura.

Jararaca (Bothrops)

Distribuição ampla, locais úmidos, até ~1 m; cor é pouco confiável. Três atividades da toxina:

Proteolítica
Dano tecidual local → necrose
Inflamatória
Inchaço intenso no local
Coagulante
Consumo de fatores + dano endotelial a distância
Importante para a prova

O local do acidente é manifesto (inchaço/necrose evidente) — você sabe onde foi a picada. Mas há hemorragias a distância (gengiva, intestinal, ocular). Complicações: infecção bacteriana secundária, síndrome compartimental (perda de membro), dano renal, choque, falência múltipla.

Importante para a prova — conduta

NÃO fazer garrote/torniquete (absurdo): conter a toxina no local agrava o dano proteolítico e a síndrome compartimental. O correto é elevar o membro (favorece retorno venoso/linfático). Soro específico; evolução esperada nas primeiras 6 h.

Nota da literatura

As três ações primárias consagradas são proteolítica, coagulante e hemorrágica (a inflamação é consequência da proteólise). E a insuficiência renal aguda pode matar — não é uma complicação que "sempre se resolve".

Cascavel (Crotalus)

Uma espécie no nosso meio. Sinal popular: o chocalho/guizo — cada muda acrescenta um anel (não é "ano de calendário"). Pode cair ou faltar em jovens → usar a coloração (losangos com listras brancas).

Toxina
Neurotóxica → paralisia muscular
Local
Pouca inflamação
Renal
Lesão renal grave — costuma levar ao óbito
Nota da literatura

A lesão renal decorre da forte ação miotóxica (rabdomiólise): a mioglobina precipita nos túbulos e causa necrose tubular aguda. A neurotoxina, sozinha, não explica o rim.

Coral verdadeira (Micrurus)

Talvez a peçonha mais potente. Ação predominantemente neurotóxica, mais intensa que a da cascavel → bloqueia a contração muscular → morte por insuficiência respiratória. Pouca inflamação local; acidente raro (subterrânea).

Identificação: olhos redondos, cabeça não destacada, escamas grandes em placas.

Coral verdadeira
Anéis
Envolvem o corpo inteiro (mesma cor dorsal e ventral)
Olho
Pequeno
Falsa coral
Anéis
Não cobrem todo o corpo (somem no ventre)
Olho
Grande

Critério rápido: olhar o ventre — se o anel não gira todo, é falsa. (A regra tem exceções regionais.)

Quem confunde com quem

Jararaca × Surucucu

Ambas proteolíticas → inflamação local esperada. Surucucu acrescenta síndrome vagal (bradicardia, hipotensão).

Cascavel × Coral

Ambas neurotóxicas → inflamação local não esperada.

IX — CNIDÁRIOS

Águas-vivas & Caravelas

A "chicotada" do mar — e o erro fatal da água doce.

Organismos basicamente água. Água-viva = organismo único; caravela (Physalia) = colônia. Estrutura: parte flutuante + tentáculos submersos (até 15–30 m), por vezes quase transparentes.

Mecanismo: os tentáculos têm cnidócitos com um nematocisto (arpão). Ao contato, disparam e injetam a toxina. O acidente parece uma chicotada, com ardência intensa.

Nota da literatura

O disparo exige contato físico com os tentáculos — não ocorre só por "temperatura" ou movimento próximo.

Importante para a prova — primeiros socorros

1. Desprender os tentáculos com cuidado (com pinça/luva; não esfregar).

2. NUNCA usar água doce → ela ativa os nematocistos ainda intactos. Todo o manejo inicial é com água salgada.

3. Aplicar ácido fraco (vinagre) → inativa os nematocistos íntegros aderidos à pele.

4. Urinar não funciona; a ideia correta é o ácido.

5. Depois, atendimento para tratar a lesão (risco de choque anafilático).

Nota da literatura

O vinagre não neutraliza o veneno já inoculado — só paralisa os nematocistos ainda íntegros. E a lesão, embora chamada de "queimadura", é um envenenamento (dermatite tóxica), não queimadura térmica.

Sazonalidade: vêm do mar aberto; os ventos as trazem à praia. Maior incidência de agosto a dezembro, coincidindo com o veraneio e o aquecimento da água. "Sinal de que tem: quando você começa a encontrá-las na praia."

X — RACIOCÍNIO CLÍNICO

Casos DIJC

Cinco cenários com cara de prova — pense antes de ler a resposta.

D Dado clínico I Identificação (doença + agente) J Justificativa parasitológica C Conduta
CASO 01
Criança após calçar o tênis
D
Dado clínico

Criança de 3 anos, 14 kg, 1 h após "ferroada" ao calçar o tênis: dor intensa no pé, vômitos, sialorreia, sudorese, taquicardia que alterna com bradicardia e desconforto respiratório inicial.

I
Identificação

Escorpionismo grave por Tityus (escorpião amarelo — T. serrulatus/stigmurus).

J
Justificativa

Neurotoxinas mantêm canais de Na⁺ abertos e bloqueiam K⁺ → prolongam o potencial de ação → excitação autonômica. Pela relação peso × peçonha, a criança recebe dose proporcionalmente maior → risco de falência cardíaca e edema agudo de pulmão.

C
Conduta

Há sinais autonômicos sistêmicos → soroterapia antiescorpiônica/antiaracnídica imediata + suporte cardiorrespiratório (UTI). Se houvesse só dor, seria sintomático.

CASO 02
Mancha que cresce e urina escura
D
Dado clínico

Mulher de 35 anos: no 2º dia, mancha arroxeada com halo pálido e área endurecida na coxa, após vestir roupa guardada. A lesão cresce e necrosa; no 3º dia, urina escurecida.

I
Identificação

Loxoscelismo cutâneo-hemolítico (aranha-marrom, Loxosceles).

J
Justificativa

Toxina enzimática que não se fixa e permanece ativa → placa marmórea → necrose progressiva. A atividade hemolítica libera hemoglobina (urina escura) → dano renal.

C
Conduta

Soro antiaracnídico/antiloxoscélico (forma com hemólise/dano renal), idealmente precoce (14–24 h) para prevenir a forma visceral; suporte renal.

CASO 03
Trabalhador rural com garrote no caminho
D
Dado clínico

Homem picado na perna em área úmida: dor, edema intenso, equimose e bolhas; sangramento gengival e hematúria. Chegou com um garrote improvisado acima da lesão.

I
Identificação

Acidente botrópico (Bothrops, jararaca) — família Viperidae.

J
Justificativa

Ações proteolítica (necrose local), inflamatória (edema/bolhas) e coagulante (consumo de fatores → hemorragia a distância). Cabeça triangular e fosseta loreal confirmariam o viperídeo.

C
Conduta

Soro antibotrópico específico; retirar o garrote e elevar o membro (garrote agrava síndrome compartimental). Vigiar IRA e infecção secundária. Nunca torniquete.

CASO 04
Enxame durante a poda
D
Dado clínico

Homem atacado por enxame ao podar uma árvore: ~150 ferroadas em cabeça e pescoço; evolui com urticária, dispneia, edema de glote e hipotensão.

I
Identificação

Acidente por himenóptero (abelha africanizada) — anafilaxia / envenenamento maciço.

J
Justificativa

Componentes alergênicos → anafilaxia (até com 1 ferroada em sensibilizado). Múltiplas ferroadas → fosfolipase e hialuronidase → inflamação sistêmica / choque tóxico. O ferrão farpado segue bombeando toxina.

C
Conduta

Retirar os ferrões raspando (não apertar); adrenalina e suporte de via aérea. Após 30–40 min a retirada é irrelevante → cuidar dos sinais vitais.

CASO 05
Banhista em agosto
D
Dado clínico

Banhista relata "chicotada" linear com ardência intensa no braço, em agosto, após contato com tentáculos transparentes; lesão eritematosa em trilho.

I
Identificação

Acidente por cnidário (caravela, Physalia / água-viva).

J
Justificativa

Os cnidócitos disparam nematocistos ao contato e inoculam a toxina. Água doce ativaria os nematocistos ainda íntegros, piorando o quadro.

C
Conduta

Lavar com água salgada (nunca água doce); aplicar vinagre (inativa nematocistos íntegros); remover tentáculos com pinça/luva (não esfregar, não urinar). Vigiar anafilaxia.

XI — REVISÃO RELÂMPAGO

Pontos-chave para a prova

  1. Peçonha = origem animal + aparato inoculador + acidente ativo. Não basta ser animal nem ser grave (baiacú e sapo são venenosos, não peçonhentos).
  2. Potó (pederismo): lesão por esmagamento (pederina na hemolinfa) → pela aula, não é peçonhento.
  3. Grupos de importância: abelhas, aranhas, escorpiões, lagartas, serpentes, águas-vivas/caravelas — relevância pela alta frequência urbana.
  4. Escorpionismo é o acidente mais frequente no RN e no Brasil (~metade das notificações).
  5. Só 4 espécies de escorpião importam (gênero Tityus), identificadas pelo tubérculo subaculear; destaque para T. serrulatus e T. stigmurus.
  6. Menor peso (criança) = mais grave no escorpionismo (relação peso × peçonha).
  7. Veneno escorpiônico: neurotoxinas em Na⁺ (mantêm aberto) e K⁺ (bloqueiam) → dor + excitação autonômica mista; óbito por falência cardíaca/edema pulmonar. Soro só com sinais autonômicos.
  8. Três gêneros de aranhas: Loxosceles (necrose lenta, hemólise/renal), Phoneutria (agressiva, dor + priapismo), Latrodectus (sintomas musculares).
  9. Loxosceles: mordida discreta; toxina enzimática que continua ativa → a lesão cresce.
  10. Soro antiaracnídico cobre Loxosceles, Phoneutria e escorpião (logística) — soro não se usa à toa.
  11. Abelhas: maior importância do grupo Hymenoptera; gravidade por alergia (mesmo 1 ferroada) ou múltiplas ferroadas (choque). Retirar o ferrão raspando. Predomínio das africanizadas.
  12. Erucismo / Lonomia: lagartas agrupadas; ativa a cascata → consome fatores → hemorragia. Tem soro específico.
  13. Serpentes — Viperidae = 99%; característica mais marcante = fosseta loreal.
  14. Jararaca (Bothrops): proteolítica + inflamatória + coagulante → necrose local + hemorragias a distância + síndrome compartimental. Não fazer garrote — elevar o membro.
  15. Cascavel (Crotalus): neurotóxica, lesão renal grave, pouca inflamação; chocalho = mudas (não anos).
  16. Coral verdadeira (Micrurus): neurotóxica → insuficiência respiratória; anel envolve o corpo inteiro.
  17. Confusões: Jararaca × Surucucu (proteolíticas, com inflamação) e Cascavel × Coral (neurotóxicas, sem inflamação).
  18. Cnidários: "chicotada"; água salgada + vinagre, NUNCA água doce (ativa nematocistos); urinar não funciona; risco de anafilaxia.
  19. A notificação registra o local do acidente (evita viés do hospital de referência) e orienta a distribuição de soros.
XII — LÉXICO

Glossário

Peçonha
Veneno de origem animal, inoculado ativamente por aparato especializado.
Veneno
Mistura de moléculas tóxicas; termo amplo (animal, vegetal, fúngico, bacteriano).
Toxina
Substância de organismo vivo que altera o metabolismo/via biológica do hospedeiro.
Pederismo
Dermatite linear causada pelo besouro potó (toxina = pederina).
Erucismo
Acidente por larvas (lagartas) de mariposa.
Acidente ofídico
Acidente causado por serpentes.
Cefalotórax
Fusão de cabeça e tórax nos aracnídeos (prossoma).
Quelíceras
Peças bucais; nas aranhas contêm a glândula de peçonha.
Pedipalpos
Apêndices: pinça (escorpião) ou estrutura sensitiva (aranha).
Télson
Segmento final do escorpião que aloja o ferrão.
Apófise subaculear
Projeção antes do ferrão que identifica o gênero Tityus.
Pectíneo (pente)
Estrutura ventral sensorial do escorpião.
Partenogênese
Reprodução sem macho.
Fosseta loreal
Órgão termorreceptor entre olho e narina; marca a Viperidae.
Tetrodotoxina
Toxina do baiacú (envenenamento passivo, não peçonha).
Aflatoxina
Micotoxina termoestável do Aspergillus.
Nematocisto
"Arpão" das células urticantes (cnidócitos) dos cnidários.
Síndrome compartimental
Aumento de pressão tecidual (acidente botrópico) que pode levar à perda do membro.
Priapismo
Ereção involuntária e prolongada; sinal do acidente por Phoneutria.
Notificação
Registro obrigatório do acidente no local de ocorrência; base epidemiológica e da distribuição de soros.