Parede abdominal, vísceras e vascularização — da peça cadavérica à prova prática.
Aula prática em peças cadavéricas: combina a parte muscular (menor) com a parte de vísceras (maior) — estômago, intestinos, fígado, vesícula, pâncreas, baço e rim — e termina na vascularização arteriovenosa e nas correlações clínico-cirúrgicas.
Prancha 01 · Estrutura de contenção
Três músculos planos em camadas + o músculo vertical central:
Pela redução de lâminas, a região abaixo da linha arqueada é um ponto de fragilidade da parede abdominal.
Os pontos de fragilidade explicam os tipos de hérnia (umbilical, inguinal etc.).
Hérnia que encarcera = urgência → entra para cirurgia (risco de estrangulamento).
Separação dos músculos retos na linha média: o contato passa a ser só pela aponeurose/fáscia, sem reforço muscular. A pressão abdominal empurra a parede e o conteúdo "escapa" para frente.
Na diástase não há defeito/anel aponeurótico nem saco herniário — apenas esgarçamento da linha alba. Por isso não encarcera. Já a hérnia tem orifício fascial verdadeiro.
Delimitado por três bordas:
Reto (medial) · Inguinal, ligamento (inferior) · Epigástricos inferiores (lateral).
A aula privilegia o trígono de Hesselbach sobre o de Petit ("não vamos ligar para o de Petit"). O trígono femoral (de Scarpa) fica abaixo do ligamento inguinal.
A epigástrica inferior é ramo da artéria ilíaca externa (a aula falou "interna"). E a anastomose ocorre dentro da bainha do reto, irrigando a porção anterior/mediana — não o abdome lateral.
A cesárea não é cirurgia simples: atravessa cerca de sete camadas até a criança.
Entre o músculo e o peritônio parietal há ainda a fáscia transversal e a gordura pré-peritoneal (extraperitoneal), frequentemente omitidas na contagem.
Prancha 02 · Os véus da cavidade
O omento maior não fica entre estômago e diafragma (isso é o ligamento gastrofrênico). Ele pende como um avental sobre as alças. O omento menor não recobre vísceras inferiores: ele sobe da curvatura menor ao fígado.
Cólon ascendente e descendente = secundariamente retroperitoneais (fixos à parede posterior, sem mesocólon). Ureter ≈ 2/3 superiores retroperitoneais. Rim retroperitonial. Lembre das variações anatômicas.
O mesocólon não é um órgão retroperitoneal. É uma prega peritoneal (dupla lâmina) que fixa porções intraperitoneais do intestino grosso à parede posterior.
RUD + os Cólons ascendente/descendente. Tudo o que está "preso nas costas" da cavidade.
Prancha 03 · Tubo digestório · I
Sequência: esôfago → estômago. Regiões, da entrada à saída:
Cárdia · Fundo · Corpo · Antro · Piloro — na ordem do trajeto.
O piloro é esfíncter anatômico verdadeiro (espessamento muscular). A cárdia não tem esfíncter anatômico — atua como esfíncter fisiológico (funcional) antirrefluxo.
Prancha 04 · Tubo digestório · II
A forma em "C" do duodeno vem da firme fixação retroperitoneal; o ligamento de Treitz sustenta apenas a flexura duodenojejunal. Nomenclatura oficial: músculo suspensor do duodeno (até o pilar direito do diafragma).
Não há limite macroscópico nítido entre jejuno e íleo ("não dá para saber onde acaba um e começa o outro"). Tudo é reconhecido como intestino delgado.
Prancha 05 · Tubo digestório · III
A junção ileocecal é a transição topográfica externa. A válvula ileocecal (papila ileal) é a estrutura interna no óstio ileal (lábios e frênulos). Não são a mesma coisa.
O apêndice tem grande variação de posição — pode chegar ao hipocôndrio direito e, raramente, ao lado esquerdo. Por isso, ao marcar "apêndice" não se pede lado direito/esquerdo ("só tem um").
Na prova, é fácil quando o segmento está em posição reconhecível; "jogado" e desorganizado, fica difícil diferenciar ascendente de descendente.
Após a ampola retal, o intestino grosso se encerra no canal anal (também faz parte do intestino grosso).
As tênias do cólon (faixas musculares longitudinais) não são visíveis nesta peça → não devem ser cobradas. Aprofundamento: são três (livre, mesocólica, omental), da base do apêndice à junção retossigmóidea.
Prancha 06 · Fim do trajeto
Prancha 07 · Glândula mista
São quatro partes primárias: cabeça, colo, corpo e cauda. O processo uncinado (a "foicezinha") não substitui o colo — é um prolongamento da porção inferior da cabeça.
O ducto pancreático principal transita no interior do parênquima (centralmente), não num sulco superficial. Quem se aloja no sulco da face posterior da cabeça é o ducto colédoco.
Prancha 08 · A grande víscera
A divisão funcional/cirúrgica usa a linha de Cantlie (fossa da vesícula → veia cava). Por isso os lobos caudado e quadrado, embora pareçam do lado direito, pertencem ao lobo funcional esquerdo.
A cápsula de Glisson não é peritoneal: é uma cápsula fibrosa (tecido conjuntivo), profunda ao peritônio visceral, que acompanha a tríade portal para dentro do órgão. A cápsula reveste; os ligamentos são pregas de fixação.
Prancha 09 · Drenagem da bile
Divisão oficial: fundo, corpo e colo. O infundíbulo (bolsa de Hartmann) é dilatação na região do colo onde os cálculos costumam impactar.
Cístico + Hepático comum = Colédoco.
Colédoco + Pancreático = Ampola (Vater) → Papila maior.
Dois rios viram o colédoco; o colédoco encontra o pancreático e forma a ampola.
Não confundir papila e ampola — a própria professora relatou ter errado essa questão no P2. Oficial: ampola = ampola hepatopancreática; ela desemboca na papila duodenal maior, na parte descendente (2ª porção) do duodeno.
Prancha 10 · Órgão linfoide
O baço não tem margem "lateral/medial". Tem faces: diafragmática (lateral, convexa) e visceral (medial, côncava, com o hilo). Suas margens reais são a superior (entalhada) e a inferior.
Prancha 11 · Retroperitônio
De dentro para fora: cápsula renal (fibrosa) → gordura perirrenal (cápsula adiposa) → fáscia renal.
Quem emerge no hilo é a pelve renal (funil largo). O ureter é ducto de pequeno calibre e só começa abaixo do hilo. A papila aponta centralmente para o cálice menor (não "ao lado").
Distinguir papila × pirâmide × ampola × papila renal — confusão clássica (a professora cita ter errado).
Veia (anterior) · Artéria (meio) · Pelve (posterior). E "parede grossa = artéria".
A veia testicular (gonadal) esquerda drena na veia renal esquerda (à direita drena direto na cava). Um trombo na renal esquerda dificulta o retorno → ingurgitamento → varicocele à esquerda.
→ Varicocele esquerda inexplicada = pesquisar problema renal (trombo, síndrome nefrótica).
A veia testicular esquerda drena em ângulo de 90° na renal esquerda (mais resistência e pressão), enquanto a direita drena obliquamente na cava — por isso a varicocele é naturalmente mais frequente à esquerda.
Prancha 12 · Vascularização arterial
A aorta abdominal desce e emite, anteriormente, o tronco celíaco (visto como um "botão").
Gástrica esquerda · Hepática comum · Esplênica. Um tridente de 3 pontas saindo do "botão".
A hepática própria é a continuação da comum só depois de esta emitir a artéria gastroduodenal.
Em trauma do fundo gástrico, o sangramento pode vir das gástricas curtas (origem na esplênica) → sangram bastante.
Irrigam a cabeça do pâncreas e o duodeno (o "C" ao redor da cabeça) — não existe "curvatura do pâncreas". A superior vem da gastroduodenal; a inferior, da mesentérica superior → formam arcadas anastomóticas.
Para o delgado: artérias jejunais e ileais, que formam arcos arteriais e artérias retas (vasa recta).
A artéria apendicular não é ramo direto da AMS — origina-se da íleocólica. Destino: apêndice vermiforme.
Cólica Esquerda · Sigmóideas · retal Superior.
Irriga o último 1/3 do cólon transverso e o cólon descendente em diante.
O arco de Riolan conecta cólica média e cólica esquerda (e não cólica direita, como dito na aula). Drummond = todas as cólicas (marginal ampla).
Riolan = Reduzida e central (média + esquerda).
Drummond = Distal e grande (marginal, todas as cólicas, une AMS↔AMI).
Prancha 13 · Retorno venoso & cirurgia
Use a posição anatômica para distinguir veia porta de veia cava inferior.
Além da "cabeça de medusa" (veias paraumbilicais), há o plexo retal: a retal superior drena no sistema porta; as retais média e inferior, no sistema cava.
Referência cirúrgica na colecistectomia.
Identificar o triângulo permite isolar e ligar com segurança o ducto cístico e a artéria cística, poupando as estruturas nobres: ducto hepático comum, colédoco e artéria hepática direita.
Prancha 14 · Correlação anatomoclínica
No Nutcracker clássico (anterior), a renal esquerda é prensada entre AMS (à frente) e aorta (atrás) — a coluna não é o anteparo direto (isso só na variante posterior, rara).
Todas comprimem uma estrutura venosa por uma arterial, prejudicando o retorno venoso.
Nutcracker = renal esq. · May-Thurner = ilíaca comum esq. · Supina = cava (vire à esquerda).
DIJC · Direto à prova
Como o conteúdo tende a aparecer na prática e na teoria — pares pergunta/resposta para treinar o reflexo.
"Cite os órgãos retroperitoniais."
Rim, ureter (2/3 sup.) e partes do duodeno; cólon asc./desc. são secundariamente retroperitoneais. Pegadinha: o mesocólon não entra — é prega peritoneal.
"Hérnia inguinal direta ou indireta?"
Direta = medial aos vasos epigástricos inferiores (no meio do Hesselbach). Indireta = lateral, pelo canal inguinal.
"De onde vem a artéria epigástrica inferior?"
Da artéria ilíaca externa. A superior vem da torácica interna e ambas se anastomosam dentro da bainha do reto.
"Quais os 3 ramos do tronco celíaco?"
Gástrica esquerda, hepática comum e esplênica (mnemônico Gata Helena Esplêndida).
"Qual ducto se aloja no sulco da cabeça do pâncreas?"
O ducto colédoco — não o pancreático principal (que corre dentro do parênquima).
"Marque a estrutura que sai pelo hilo renal."
A pelve renal (funil largo). O ureter começa fino, já abaixo do hilo. No pedículo, da frente p/ trás: V-A-P.
"Varicocele esquerda inexplicada — próximo passo?"
Investigar causa renal esquerda (trombo / Nutcracker), pois a gonadal esquerda drena na renal esquerda.
"Riolan une quais cólicas?"
Cólica média + cólica esquerda (central). Drummond = marginal de todas as cólicas, unindo AMS e AMI.
"Gestante em decúbito dorsal, dispneica e hipotensa. Conduta?"
Decúbito lateral esquerdo — descomprime a veia cava inferior e restaura o retorno venoso.
"Diferencie papila × ampola."
Ampola (hepatopancreática / de Vater) = dilatação da confluência colédoco + pancreático. Papila duodenal maior = abertura no duodeno (2ª porção). Erro clássico — cobrado no P2.
Léxico da prancha
Revisão relâmpago
Acima da linha arqueada as aponeuroses abraçam o reto por todos os lados; abaixo passam só por cima → ponto de fragilidade.
Diástase dos retos = separação dos retos; comum no pós-parto/cesárea, mas não exclusiva. Não encarcera.
Hesselbach = reto + ligamento inguinal + vasos epigástricos inferiores (foco maior que o de Petit).
Hérnia inguinal direta = medial aos epigástricos; indireta = lateral (canal).
Epigástrica superior ← torácica interna; inferior ← ilíaca externa; anastomosam na bainha do reto.
Úraco liga bexiga ao umbigo (prega umbilical mediana).
Cesárea ≈ 7 camadas: pele, subcutâneo, aponeurose, músculo, peritônio parietal, visceral, miométrio.
Omento maior pende como avental; menor liga curvatura menor ao fígado.
Retroperitoniais: rim, ureter (2/3 sup.), duodeno; mesocólon não é (é prega).
Estômago: cárdia, fundo, corpo, antro, piloro. Esfíncter do piloro = anel espesso na junção com o duodeno.
Treitz suspende a flexura duodenojejunal (músculo suspensor do duodeno).
Apêndice tem grande variação (não se cobra lado). Válvula ileocecal = estrutura interna.
Cólon: ceco → asc. → transverso → desc. → sigmoide → reto → canal anal. Tênias não visíveis nesta peça.
Esfíncter externo do ânus = anel ao redor; válvulas de Houston auxiliam a continência.
Pâncreas: cabeça, colo, corpo, cauda; uncinado é extensão da cabeça. No sulco da cabeça mora o colédoco.
Fígado: lobos D, E, caudado e quadrado; falciforme separa D/E; triangulares + coronário fixam ao diafragma; Glisson é fibrosa.
Vias biliares: cístico + hepático comum = colédoco; + pancreático = ampola → papila maior. Papila ≠ ampola.
Baço: faces (não margens lateral/medial); no hilo entra artéria e sai veia esplênica.
Rim: córtex/medula, pirâmides, papila, cálices → pelve → ureter. Pedículo: V-A-P; artéria tem parede mais grossa.
Veia testicular esquerda drena na renal esquerda → varicocele esquerda pode indicar problema renal.
Tronco celíaco = gástrica esquerda + hepática comum + esplênica.
Hepática comum → própria → D/E; da direita sai a cística (após a gastroduodenal).
Gástricas curtas ← esplênica → fonte de sangramento em trauma do fundo gástrico.
AMS → cólica direita, média, íleocólica (+ apendicular pela íleocólica), jejunais/ileais.
AMI → cólica esquerda, sigmóideas, retal superior; irriga 1/3 final do transverso + descendente.
Riolan = cólica média + esquerda; Drummond = todas as cólicas (une AMS↔AMI).
Calot = referência da colecistectomia (limite superior atualizado: lobo direito do fígado).
Veia porta ≠ cava inferior; porta ligada à cabeça de medusa (hipertensão portal).
Hipotensão supina: útero comprime a cava → vire em decúbito lateral esquerdo.
Nutcracker: AMS×aorta comprime renal esquerda. May-Thurner: ilíaca comum direita comprime ilíaca comum esquerda (L5).