Nutrição e Saúde · aula de encerramento

Nutrição Parenteral& Dietas Hospitalares

Da veia ao prato: quando nutrir pela corrente sanguínea, como montar a solução, monitorar, desmamar — e como classificar as dietas hospitalares por consistência.

📅 13/06/2026 🩺 terapia nutricional ⚗️ 24 pontos de prova

“A disciplina é muito curta, mas acho que deu para a gente passar um pouco do que é a profissão.”

01
Onde a parenteral entra

Vias de alimentação e o lugar da parenteral

◇As três vias de acesso

Existem três vias para alimentar o paciente — e há uma hierarquia entre elas:

  • Oral — o caminho natural.
  • Enteral — por sonda no trato gastrointestinal; considerada mais fisiológica porque usa o trato digestório.
  • Parenteral — direto na corrente sanguínea; reservada como última opção.
1Trato gastrointestinal funcionante?
▼
✓Sim → usar a via enteral (digestória)
▼
✕Inviabilizada → parenteral como última opção
⚠ Importante para prova

O critério-base da escolha é o funcionamento do trato gastrointestinal. Sempre que a via enteral estiver inviabilizada (impossibilidade de acesso, problemas de trânsito/absorção), a parenteral é a última opção.

📚 Aprofundamento

“Última opção” simplifica: a parenteral também tem indicação suplementar — associada à enteral/oral quando o TGI funciona, mas a aceitação/absorção não atinge ~60% das necessidades.

◇O paciente precisa estar estável

A parenteral não é a primeira conduta num paciente recém-chegado e grave.

!Paciente chega muito grave
▼
→Primeiro estabilizar (hemodinâmico, volêmico, pulmonar)
▼
✓Depois iniciar a terapia nutricional parenteral
Diretrizes — EUA

ASPEN
Sociedade Americana de Nutrição Enteral e Parenteral.

Diretrizes — Brasil

SBNPE / BRASPEN
Sociedade Brasileira de Nutrição Enteral e Parenteral.

As diretrizes listam situações de indicação, mas a base é a mesma: se o trato digestório funciona, usa-se a via digestória.

◇Principais indicações da parenteral

  • Impossibilidade/impedimento da digestão ou do acesso ao trato digestório.
  • Toxicidade gastrointestinal que comprometa o trato.
  • Pré-operatório de paciente muito debilitado — manter parenteral por 7–10 dias para recuperar o estado nutricional e melhorar o pós-cirúrgico.
  • Doença inflamatória intestinal — uma das indicações mais citadas; lógica de repouso intestinal.
“Porque o intestino está muito inflamado e, às vezes, não dá para desinflamar sem repousar esse intestino.”
🔧 Correção · pré-operatório & DII
Na aula

Mantém-se a parenteral mesmo que o paciente consiga se alimentar; DII tem na parenteral sua conduta-base por repouso intestinal.

Na literatura / prova

NP não deve ser mantida se o paciente se alimenta adequado por oral/enteral (risco infeccioso). A NP pré-op (7–14 dias) é só para desnutrição grave + cirurgia de grande porte com enteral inviável. Na DII, a enteral é a 1ª escolha (mantém trofismo da mucosa); a parenteral fica para complicações graves (obstrução, perfuração, hemorragia, fístula de alto débito).

02
A fórmula por dentro

Composição das soluções parenterais

Sistema binário

Glicose + aminoácidos
Sem lipídio. A maior parte é glicose.

Sistema “3 em 1”

Glicose + aminoácidos + lipídio
Em geral, mais completo.

📚 Aprofundamento — riscos do binário

Depender só de altas cargas de glicose como caloria não proteica aumenta hiperglicemia, produção de CO₂ (trabalho respiratório) e esteatose hepática; a ausência prolongada de lipídio leva à deficiência de ácidos graxos essenciais (a emulsão lipídica pode ser infundida em paralelo).

⚠ Pegadinha prática — a cor da bolsa

A cor da solução indica a presença de vitaminas:

  • Solução amarelada → contém vitaminas.
  • Solução sem coloração amarelada → não tem vitaminas.

No “3 em 1” com vitaminas, o aspecto fica branco-amarelado.

“Se você vê que a solução está meio amarelada, é porque ali dentro tem vitaminas.”
📚 Ressalva clínica

Vitaminas são fotossensíveis — a bolsa deve ter capa e equipo âmbar (a luz gera peróxidos e esteatose). Em bolsas industrializadas bi/tricompartimentadas, vitaminas e oligoelementos não vêm na bolsa: vão em via paralela.

◇Carboidrato — glicose / dextrose

  • Densidade calórica na parenteral: 3,4 kcal/g (mais “fechadinho” que os ~4 kcal/g de dieta).
  • É o componente que mais aumenta a osmolaridade da fórmula.
  • Concentrações no mercado: 25% · 50% · 70%; o farmacêutico dilui até a concentração-alvo.

↑ concentração de glicose → ↑ osmolaridade → maior risco de não poder ir em veia periférica.

Via periférica
Glicose
até ~10%
Osmolaridade
até ~900 mOsm/L
Via central
Glicose
~30–35%
Osmolaridade
> 900 mOsm/L

Acima de ~900 mOsm/L a veia periférica não suporta → é preciso acesso central.

⚠ Importante para prova — taxa de oxidação

Taxa máxima de glicose: 7 mg/kg/min. Por isso a parenteral é obrigatoriamente infundida por bomba de infusão — nunca por gravidade.

🔧 Correção · limites de glicose
Na aula

Periférica tolera até ~20% (“passa um pouquinho”); 7 mg/kg/min vale para todos.

Na literatura / prova

O máximo seguro por via periférica é estritamente 10% (acima disso: flebite/tromboflebite). E em paciente crítico/hipermetabólico a taxa cai para 3–5 mg/kg/min (acima → hiperglicemia, esteatose, ↑CO₂).

◇Aminoácidos (proteína)

É o componente que mais encarece a solução. Há fórmulas específicas para:

  • Insuficiência hepática — ricas em aminoácidos de cadeia ramificada e pobres em aromáticos (controle da encefalopatia).
  • Insuficiência renal — ricas em essenciais, reduzindo compostos nitrogenados/uremia.

◇Lipídios

  • Emulsões lipídicas são isotônicas → não elevam tanto a osmolaridade (vantagem).
  • Ter os três componentes (3 em 1) permite dividir as calorias → menos carboidrato → menos osmolaridade.
Menos concentrada
Concentração
10%
Velocidade
100 ml/h
Mais concentrada
Concentração
20%
Velocidade
50 ml/h

Quanto mais concentrada a emulsão, menor a velocidade de infusão.

📚 Limites & sequência de mistura

Lipídio não deve passar de 2 g/kg/dia (≈1 g/kg/dia em graves) — acima disso, sobrecarga lipídica (hepatomegalia, icterícia, plaquetopenia).

A ordem importa: eletrólitos (exceto fosfato) e vitaminas vão na glicose; o fosfato nos aminoácidos; e o lipídio é sempre o último a entrar na bolsa — evita quebra da emulsão e precipitação de cálcio/fosfato.

“Não é simplesmente misturar de qualquer ordem. Existe uma ordem para que essa solução se mantenha estável.”
03
Passo a passo

Exemplo prático: cálculo de uma prescrição

Volume total

2.000 ml

Meta calórica

1.700 kcal

Meta proteica

70 g de proteína

Lipídio (25–30% das calorias → usa-se 30%)

1.700 × 30% = 510 kcal de gordura.

Emulsão 10% = 1,1 kcal/ml → 510 ÷ 1,1 = 463 ml → arredonda para 500 ml a 10%.

Volume restante: 2.000 − 500 = 1.500 ml para carboidrato + aminoácidos.

Proteína (aminoácidos)

70 g × 4 kcal/g = 280 kcal.

Concentração: 70 ÷ 1.500 × 100 ≈ 4,7%.

Carboidrato (glicose)

Restante: 1.700 − 510 − 280 = 910 kcal.

Glicose 3,4 kcal/g → 910 ÷ 3,4 ≈ 268 g → 268 ÷ 1.500 × 100 ≈ 17,9%.

Prescrição entregue ao farmacêutico

Aminoácidos280 kcal1.500 ml · 4,7%
Glicose910 kcal17,9% · 3,4 kcal/g
Emulsão lipídica510 kcal500 ml · 10%
Total1.700 kcal2.000 ml
🔧 Pegadinha de cálculo
Como foi feito na aula

500 ml de lipídio 10% = 510 kcal; concentrações calculadas sobre 1.500 ml (4,7% e 17,9%).

O correto na prova

500 ml × 1,1 = 550 kcal (não 510) → recalcular o carboidrato para 870 kcal e não estourar as 1.700. E a concentração final é sempre sobre o volume total (2.000 ml): 3,5% de aminoácidos e 13,4% de glicose.

“Quem está no dia a dia das UTIs já tem um aplicativo para esse cálculo. Mas a monitorização é fundamental.”
04
Acompanhar de perto

Monitorização da parenteral

⚠ Importante para prova

A monitorização é fundamental e, no início, diária — o paciente é muito sensível e desestabiliza com facilidade.

◇Laboratorial / eletrólitos

Além de carboidrato, lipídio e proteína, a solução carrega eletrólitos. Acompanhar:

  • Potássio · Cálcio, magnésio, fósforo
  • Transaminases — função hepática.
  • Triglicerídeos — pela carga lipídica.
  • Glicemia — pela alta carga de glicose.
Paciente instável

Diariamente

Paciente estável

1–2× / semana

📚 Glicemia capilar na fase inicial

Nos primeiros dias / instabilidade, a glicemia capilar deve ser checada a cada 4–6 h (≥3–4×/dia) para ajustar insulina e prevenir hiperglicemia e coma hiperosmolar.

◇Nutricional

Acompanhar a evolução e a variação do estado nutricional/peso, cruzando com os exames.

📚 Cuidado: ganho de peso rápido pode ser retenção hídrica (edema), não anabolismo — analisar com o balanço hídrico.

⚠ Infecção é a maior preocupação

A via de acesso (cateter) é uma porta de entrada de bactérias. Avaliar diariamente a estrutura e o local de inserção, procurando sinais inflamatórios/infecciosos.

“Infecção é a grande preocupação da parenteral, porque a via de acesso, o cateter, é uma via de entrada de bactérias.”
🔧 Correção · febre & cateter
Na aula

Qualquer febre (mesmo um “pontinho”) → remover o cateter.

Na prática atual

Febre isolada não exige remoção rotineira: buscar o foco e coletar hemoculturas (periférica + cateter). Remover de imediato só se houver instabilidade hemodinâmica, infecção evidente no sítio/túnel ou febre persistente com deterioração clínica.

05
Ligar e desligar com calma

Início e desmame

◇Como iniciar (gradual)

  • Primeiras 24 h: começar com ~50 ml/h, observando tolerância.
  • Progredir até ~100–200 ml/h.
  • Esquema: aumentar ~50 ml a cada 8 h.
📚 Por que tão devagar?

O início conservador (≈25–50% da meta de carboidrato) é o cuidado-chave para prevenir a letal Síndrome de Realimentação em desnutridos/jejum prolongado — evitando quedas de fósforo, potássio e magnésio.

⚠ Importante para prova — não interromper bruscamente

A infusão fornece grande carga de glicose → parada súbita → risco de hipoglicemia. É preciso desmame gradual:

  • Reduzir a glicose para 10% por 12 h.
  • Se precisar ser mais rápido: metade do fluxo por ~1 h → um quarto → suspender.

◇Contínua × cíclica

Em geral corre contínua (24 h); a evolução do desmame acompanha a restauração da função gastrointestinal.

🔧 Correção · esquema cíclico & exceção do desmame
Na aula

O esquema cíclico depende de o acesso ser periférico; nunca se suspende a parenteral de forma abrupta.

Na literatura / prova

O cíclico (noturno) é muito usado em cateter central de longa permanência e na NP domiciliar — e ajuda a prevenir esteatose (repouso permite queda da insulina). E há exceção ao desmame: se o paciente já tolera enteral/oral (~60–75% das necessidades), a NP pode ser suspensa abruptamente com segurança.

06
O que pode dar errado

Cateter e complicações

⚠ Importante para prova — confirmação do cateter

Após a passagem do cateter, é obrigatório controle radiológico (raio-X) para confirmar o posicionamento antes de infundir.

1Passa o cateter
▼
2Raio-X confirma a localização
▼
✓Só então infunde a solução

O cateter pode não ter ficado bem posicionado ou ter se deslocado.

◇Complicações metabólicas

  • Hiperglicemia — muito comum (carga de glicose).
  • Distúrbios hidroeletrolíticos.
  • Disfunção hepática.
  • Síndrome de realimentação.
🧪 Síndrome de realimentação

Paciente muito desnutrido recebe carga nutricional → a célula capta rapidamente nutrientes e eletrólitos → desequilíbrio. Por isso a monitorização eletrolítica pode precisar ser diária no início.

📚 Mecanismo & profilaxia

É a insulina (resposta ao carboidrato) que arrasta minerais para dentro da célula → queda aguda de fósforo (hipofosfatemia, a marca), potássio e magnésio. Prevenção: evolução calórica lenta, monitorar eletrólitos diariamente e suplementar tiamina (B1) antes/durante o carboidrato (evita Wernicke).

“A parenteral, quando vem, é mais invasiva e exige um cuidado bem maior do que a enteral.”
07
De onde vem a bolsa

Tipos de soluções e bolsas

Bolsa industrializada

Pronta da indústria — solução já montada.

Bolsa manipulada

Montada pelo farmacêutico, no hospital ou em locais especializados.

◇Soluções para montar a fórmula

Aminoácidos, glicose, emulsões lipídicas, eletrólitos, vitaminas e oligoelementos.

⚠ Erro grave a evitar

Fibras NÃO entram na parenteral. Soluções de fibra são exclusivas da nutrição enteral (via TGI); fibra por via intravenosa é contraindicada e letal.

“Vocês só vão entender isso na prática, quando estiverem no hospital — tanto a enteral quanto a parenteral.”
08
Do leito à cozinha

Dietas hospitalares — nomenclatura

◇Dietoterapia

Setor que adapta a alimentação à situação clínica do paciente. Exemplos:

  • Diabético · Hepatopata
  • Constipado · Diarreia
  • Alergias / restrições (ex.: sem glúten)
⚠ Importante para prova

Saber a nomenclatura é essencial — é o profissional que registra e evolui a dieta no prontuário.

🔧 Correção · quem pede × quem prescreve
Na aula

É o nutricionista quem “prescreve/evolui a dieta” do paciente no prontuário.

Distinção correta

O pedido de dieta (ordem inicial no prontuário) é do médico; o nutricionista formula a prescrição nutricional — tipo, quantidade, frequência — adaptando e evoluindo conforme a avaliação clínica.

◇Dinâmica de pessoal

Hospital público

Em geral mais nutricionistas, às vezes um por setor (cirurgia, pediatria). Alguns têm uma só para cozinha e clínica.

Hospital privado

Frequentemente uma para quase tudo; áreas administrativa e clínica costumam ser separadas.

  • Nutricionista administrativa — cozinha: compras, mantimentos, gestão de auxiliares.
  • Nutricionista clínica — avalia/acompanha o paciente, calcula a dieta.
  • Copeiras — circulam pelas unidades com prancheta, conferindo se a dieta foi recebida/aceita.
“Já aconteceu de o médico colocar ‘dieta geral’ e a gente ajustar, porque dieta geral não é hipossódica.”
📚 Dieta geral hoje

Classicamente a dieta geral é “sem restrição”, mas muitas instituições já adotam um padrão regular com baixo sal, açúcar e gordura saturada, alinhado à saúde preventiva.

◇O que se coleta para definir a dieta

  • Estado de consciência / orientação.
  • Dentição e capacidade de mastigar.
  • Disfagia e capacidade de deglutir.
  • Status cirúrgico — vai operar, se prepara ou saiu de cirurgia.

→ Definem a consistência e o tipo da dieta.

◇Modificadores da prescrição

Sobre a dieta-base acrescentam-se especificações:

  • Hipercalórica / hipocalórica
  • Para diabético · para hipertenso · hipossódica
  • Sem glúten · com fibra

Ex.: “dieta geral para diabético, com constipação” — já se sabe o que evitar.

09
Do menos ao mais restrito

Dietas por consistência

No prontuário usam-se muitas siglas; alguns hospitais dizem “dieta livre” no lugar de “dieta geral”. A barra mostra o grau de restrição.

1 · Geral (livre)

restrição

Sem grande restrição; procedimento pouco invasivo. Em geral 5–6 refeições/dia: desjejum → lanche da manhã → almoço → lanche da tarde → jantar → ceia.

🔧 Pegadinha: “jejum” no esquema é provável erro de “desjejum” — o objetivo é justamente evitar longos jejuns.

2 · Branda

restrição

Pós-operatório ou disfagia leve que não vai direto à geral. Facilita o trabalho digestivo: alimentos cozidos/abrandados; frutas cozidas (exceto mamão; a maçã pode ser cozida). Permite ajustar calorias e proteínas. 📚 Também restringe lipídios e fibras.

3 · Pastosa

restrição

Para quem tem dificuldade de mastigar/deglutir. Consistência de purê / liquidificada / amassada (inclusive carnes adaptadas). Permite ajustar calorias.

4 · Semissólida (líquido-pastosa)

restrição

“Uma pastosa mais fluida”; dieta de transição. Para pré-cirurgia ou dificuldade de deglutição um pouco maior — antes de avançar para branda e geral.

5 · Líquida (completa)

restrição

Por um período; pré-procedimento. Água, chá, gelatina, suco, algumas vitaminas — liquidificado e diluído.

⚠ Prova: nessa forma não se atinge as necessidades calóricas. 🔧 A líquida completa bem planejada (com leite/sopas/suplementos) pode atingir — a inadequação severa é da líquida restrita.

6 · Líquida restrita (de prova)

restrição

Só por até 2 dias: água, chá e gelatina. Indicada em pós-operatório, transição vinda do jejum e teste de aceitação.

🔧 Também abrange caldos coados e sucos claros sem polpa; o que se omite é o leite.

7 · Sem resíduos

restrição

Típica do preparo de colonoscopia. Restringe fibras, raízes/tubérculos e alimentos escuros (associada a laxante de preparo).

🔧 Carne magra (aves/peixes grelhados) é permitida — é baixa em resíduo. Restrinja fibras insolúveis, leite/derivados (lactose) e gorduras.

8 · Zero / jejum

restrição

Para procedimentos (jejum de ~24 h). Cuidado: se o procedimento for suspenso, liberar a alimentação rápido para o paciente não se debilitar.

🔧 Jejum prolongado é ultrapassado: ERAS/ACERTO preconizam 6–8 h para sólidos e líquidos claros até 2–3 h antes da anestesia.
“Acontece muito de o paciente ficar em dieta zero quase 24 horas, e então o procedimento é suspenso. Isso é muito ruim, porque ele se debilita.”
10
Vocabulário essencial

Glossário

Nutrição parenteralAporte de nutrientes direto na corrente sanguínea (via venosa), quando a via digestória não pode ser usada.
Nutrição enteralAporte no TGI (sonda ou fórmulas orais); mais fisiológica que a parenteral.
Dextrose / glicoseCarboidrato da parenteral; 3,4 kcal/g; principal responsável pela osmolaridade.
OsmolaridadeConcentração de partículas; alta osmolaridade impede o uso em veia periférica.
Sistema binárioGlicose + aminoácidos (sem lipídio).
Sistema “3 em 1”Glicose + aminoácidos + lipídio.
Emulsão lipídicaGordura; isotônica; 10% (1,1 kcal/ml) e 20%.
Taxa de oxidação da glicoseLimite de infusão: 7 mg/kg/min (3–5 em graves).
Bomba de infusãoControla a velocidade; obrigatória na parenteral.
Acesso central / periféricoVias venosas; central tolera soluções mais concentradas (>900 mOsm/L).
Síndrome de realimentaçãoDistúrbio eletrolítico ao reintroduzir nutrição em paciente muito desnutrido.
ASPENSociedade Americana de Nutrição Enteral e Parenteral.
SBNPE / BRASPENSociedade Brasileira de Nutrição Enteral e Parenteral.
DietoterapiaÁrea que adapta a alimentação à condição clínica.
DisfagiaDificuldade de deglutição.
CopeiraProfissional de apoio que distribui e confere as dietas.
⚑
Decisões em cenários de prova

DIJC — se cair na prova

Mini-cenários no formato Cenário → Conduta → Cilada, focados nas pegadinhas mais prováveis desta aula.

Cenário 01TGI funcionante, mas o paciente só aceita 40% das necessidades por via oral. Indica parenteral?

CondutaSim, como parenteral suplementar à oral/enteral (limiar prático: não atingir ~60% das necessidades).

CiladaDizer que parenteral “só serve quando a enteral está inviabilizada”. O uso suplementar também é indicação válida.

Cenário 02Prescrição com glicose a 20% para infundir em veia periférica.

CondutaInadequado. Periférica tolera glicose até 10% (≤900 mOsm/L); >900 mOsm/L exige acesso central.

CiladaAceitar “20% passa um pouquinho”. Acima de 10% → flebite/tromboflebite por hiperosmolaridade.

Cenário 03Paciente em NP central apresenta febre isolada, sem outro sinal. Remove o cateter?

CondutaBuscar foco e colher hemoculturas (periférica + cateter). Remoção imediata só com instabilidade, infecção do sítio ou deterioração.

CiladaA frase da aula “qualquer pontinho de febre → retirar o cateter” não é a conduta atual.

Cenário 04NP rodando há dias; o paciente já tolera dieta enteral cobrindo ~70% das metas. Como suspender?

CondutaPode suspender de forma abrupta com segurança — a enteral já sustenta a glicemia.

CiladaAplicar o desmame lento sempre. A regra do desmame previne hipoglicemia quando não há outra via cobrindo as necessidades.

Cenário 05500 ml de emulsão lipídica a 10%: quantas kcal e qual a concentração final de glicose numa bolsa de 2.000 ml?

Conduta500 × 1,1 = 550 kcal. Concentração é sempre sobre o volume total (2.000 ml).

CiladaUsar 510 kcal ou calcular a % sobre 1.500 ml. São os dois erros do exemplo da aula.

Cenário 06Desnutrido grave inicia NP plena e evolui com queda de fósforo, potássio e magnésio.

CondutaSíndrome de realimentação (hipofosfatemia é a marca). Iniciar devagar, monitorar eletrólitos e repor tiamina (B1).

CiladaDar “carga nutricional boa” de início ao desnutrido — exatamente o gatilho da síndrome.

Cenário 07Preparo de colonoscopia: dieta sem resíduos. Pode oferecer frango grelhado?

CondutaSim — carne magra é baixa em resíduo e garante proteína. Restrinja fibras insolúveis, leite/derivados e gorduras.

Cilada“Dieta sem resíduo restringe carne”. Errado: a restrição não é da carne magra.

Cenário 08Infusão de NP “correndo por gravidade”, sem bomba.

CondutaProibido. A NP é obrigatoriamente por bomba de infusão para respeitar a taxa de oxidação da glicose (7 mg/kg/min; 3–5 em graves).

CiladaAchar que gravidade serve “se for devagar”. Sem bomba não há controle de velocidade.

∑
24 pontos em rajada

Revisão relâmpago

3 vias: oral, enteral, parenteral. Enteral é mais fisiológica; parenteral é a última opção.
Critério-base: funcionamento do TGI. Funcionou → via digestória.
Estabilizar primeiro: paciente grave → estabilizar, depois nutrir.
Indicações: impossibilidade/toxicidade do trato, pré-op debilitado (7–10 d) e DII (repouso intestinal).
Diretrizes: ASPEN (EUA) e SBNPE/BRASPEN (Brasil).
Cor = vitaminas: amarelada → tem; sem cor → não tem.
Glicose: 3,4 kcal/g; é o que mais eleva a osmolaridade; vem a 25/50/70%.
Periférica: até ~10% (≤900 mOsm/L). Central: ~30–35% (>900).
Taxa de oxidação: 7 mg/kg/min; sempre por bomba (nunca gravidade).
Aminoácidos: componente mais caro; há fórmulas hepática e renal.
Lipídio: isotônico; 10% = 100 ml/h, 20% = 50 ml/h; o “3 em 1” divide calorias.
Manipulação: a ordem importa (estabilidade); quem monta é o farmacêutico.
Cálculo (2.000 ml / 1.700 kcal / 70 g): lipídio 30%, proteína 280 kcal, restante em glicose.
Monitorização: fundamental e diária no início — glicemia, K, Ca, Mg, P, transaminases, TG.
Infecção: maior preocupação (cateter = porta de entrada).
Início gradual: ~50 ml/h nas 1ªs 24 h, progredindo.
Desmame: não interromper brusco → hipoglicemia; glicose 10% por 12 h, depois ½, depois ¼.
Raio-X obrigatório para confirmar o cateter antes de infundir.
Complicações: hiperglicemia, distúrbios hidroeletrolíticos, disfunção hepática, sd. realimentação.
Consistências: geral → branda → pastosa → semissólida → líquida → líquida restrita.
Líquida não atinge as necessidades; restrita (de prova) só até 2 dias (água, chá, gelatina).
Sem resíduos = preparo de colonoscopia (restringe fibras, raízes/tubérculos).
Dieta zero: se o procedimento for suspenso, liberar a alimentação para não debilitar.
Modificadores: hiper/hipocalórica, hipossódica, diabético/hipertenso, com fibra, sem glúten.